Quando sentiu seu corpo se inclinando, percebeu que era apenas o começo do fim do poço.

Sua carne tremia no flagelo. Seu suor parecia dançar sob a luz do luar. Ele parecia. Ele focava. Ele suava. O que pôs, depôs. Era a tortura. Sua tortura pessoal. Álcool e drogas. Alma e seu destoar. Como se o fim pudesse ser retumbado numa nova canção. Uma adaptação. Um reencontro qualquer. Mas não. Era mesmo o fim. Não o mesmo fim. Mas o fim do fim. Para tudo, um acorde. Para cada canção, um final trágico. Era o fim. Ajoelhado, tocou-se, como se pudesse dele extrair sua história. Como se pudesse voltar no tempo – tempo ingrato – e corrigir sua postura. Sua tontura. Sua ternura. Mas era apenas pedaços disso ou daquilo. Saliva. Sangue. Suor. E os restos. Voltou-se para o espelho e disse aquilo que ninguém nunca jamais saberia: “Daqui pra frente é comigo”.

Mas não era mais com ele. Ele era não mais que uma personagem de textos reflexivos.

Dali pra frente, era só um cadáver e uma carta de adeus.

Era exatamente como no seu sonho. Assustadoramente igual. O pesadelo de Laura. Sonhara com o incêndio naquela noite. Daquela forma. Aquela proporção. O cheiro. As formas. A intensidade. A fumaça negra se formando ao seu redor. No sonho, ela corria para a porta. Viu as multidões correndo desnorteadas. Ignorando as placas que diziam e repetiam: Saída de Incêndio. O desespero bloqueia os sentidos. E as pessoas seguem umas às outras. Se alguém corre para dentro do fogo, todos vão atrás. Sentidos bloqueados. Esses são os fatos. Os tristes fatos. Mas no seu caso, Laura tinha uma grande vantagem sobre todos.
Ela sonhara com o incêndio.

No dia deste pesadelo, acordara entre suor e lágrimas. Nunca se lembrava dos seus sonhos. Apenas dos pesadelos. E com uma nitidez assustadora. Era capaz de citar detalhes de cada pesadelo: a cor dos olhos do monstro, a tonalidade da língua da cobra, o inseto morto no para-brisas do caminhão avançando sobre ela. Detalhes avassaladores. Detalhes que intensificam o medo.

Sentada na cama. Chorava. Suor. Seus olhos ardiam. Melhor não ir trabalhar. Levantou-se, trôpega. Um banho. Um café. E pensou melhor. A intensidade do medo desaparecera. A cama amedronta as pessoas, concluiu. De pé, o sangue circula melhor. Os pensamentos se reposicionam. O medo se dissipa. De pé, pensou: Melhor ir trabalhar.

A mão em seu ombro é seu medo lhe afagando.

Não há nada aqui, pensou. Apenas o mesmo shopping de todos os dias. Todos os dias. Sempre a mesma repetição. Repetições dão segurança. Solo firme, muitos pensam. Quando algo está diferente, a estranheza desloca os sentidos. Estranheza transforma cada solo em gelo fino.

Laura observou cada detalhe do shopping antes de colocar seus pés ali dentro. Algo diferente? Algo fora do lugar? Ao menos uma estranha sensação? Nada. Absolutamente nada. Vidas vazias indo e vindo. Músicas vazias preenchendo as vitrines cuidadosamente decoradas. O cheiro de novo impregnando os vastos e insignificantes centímetros cúbicos. Onde é o meu lugar? Respirou fundo. Não há nada aqui. Então, por que hesitar? Deu um passo, dois, três.

Enfim, estava dentro.

11h00. Sorria normalmente, como normalmente fazia. Um sorriso, uma máscara. Os sapatos da loja não se vendiam, tão-somente. Seu sorriso era parte essencial do negócio. Não era uma garota linda. Mas tinha um sorriso cativante. Espetacular. Um pedido e um sorriso, e conquistava o que queria. Curvem-se… e o sorriso. Eles se curvavam. Ela estava ciente do poder. Não lhe poderiam tirar esse poder. Exceto o medo. Esqueça o medo. Sorria. E sorriu.

Outra venda efetuada.

Não foi o cheiro de fumaça. Nem o clarão do fogo. Tampouco o grito das pessoas. O que a fez lembrar do pesadelo foi o alarme contra incêndio.

Ela sorria ao dizer o preço de um salto alto, quando ouviu o alarme invadir a loja e retumbar suas cócleas. O alarme do shopping despertou seu alarme interno. O sonho. O incêndio. Tão real. Era verdade.

Em situações assim, as pessoas reagem da mesma forma: primeiro se entreolham, e perguntam umas às outras – O que é isso? A cliente lhe encarava. Laura, diferentemente, manteve olhos fixos lá fora. Os corredores. Escada rolante. Elevador. Pense, pense. No sonho, ela corria na direção oposta à debandada dos desesperados.

– O que é isso? – perguntavam funcionários e clientes ao redor.

Laura. Em silêncio. A porta. Pessoas passando da direita para a esquerda. Andando. Ainda não perceberam a gravidade da situação. Então ela sentiu o cheiro de queimado. O incêndio. Real. Não acordaria na sua cama suando e chorando. Dessa vez, era pra valer. Pessoas passando em frente à porta. Da direita pra esquerda. Primeiro andando. Com o cheiro da fumaça, com a fumaça dando as caras, começam a correr. Gritos. Laura, pensando, ouve gritos. Pessoas correndo. Passam em frente a loja. Buscam a saída. A saída fica naquela direção. Mas a fumaça vem justamente de lá. O cheiro de roupa, couro, e carne queimada também. Muitos gritos. Fumaça densa. A saída de incêndio fica para o outro lado. Outro lado, Laura. Outro lado. Como no sonho.

Corra. Corra.

AGORA!!!

Ela dispara pela porta. A pior parte. Enfrentar a debandada. Todos correm para a mesma direção. Como pensara: se um vai em direção ao fogo, todos vão atrás. Ela tenta avisar a todos. Grita sobre a saída de incêndio. Ninguém a ouve. Pessoas não ouvem nessas situações. Não conseguem ouvir, pensar, raciocinar. Morrem por essa razão. Ficam como animais assustados. Não sabem para onde ir. Por isso seguem umas às outras. Laura grita. Se esforça. Luta para andar na contramão. Aos poucos, as centenas de pessoas desaparecem da sua frente, mergulhando fundo no incêndio cada vez mais intenso. Bombeiros. Ela ouve o som de bombeiros. O cheiro de carne queimada é desesperadamente forte. Como no sonho. Quem disse que em sonhos não se sente cheiros? Ao menos nos pesadelos, sim, pensou.

Da saída de incêndio para a rua, foram alguns lances de escada. Lançou-se abaixo. Passos desesperados e desordenados. No caminho, encontrou bombeiros. Estou bem, estou bem. Lá embaixo, outros bombeiros, paramédicos, ou seja lá o que, lhe fizeram perguntas. Ela não ouvia direito. Por isso só repetia o que sabia: estava bem. Lá fora, foi conduzida para uma ambulância. Queimadura? Inalou muita fumaça? Não, não. Estou bem.

Nessa hora, olhou para trás. E só então viu a proporção do que ocorrera.

O shopping inteiro era engolido pelas chamas.

Continua: