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Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Tediosa Vida de um Super-herói

Super-homem estava cansado. Não, não tinha nada a ver com o típico esgotamento físico que jamais afetaria o homem de aço. No entanto, havia anos, o super-herói estava cansado da humanidade e dos caminhos tortuosos que ela seguia. Havia décadas ele tentava salvar o ser humano de tragédias incontroláveis e, principalmente, de si mesmo.

No entanto, após tantos planos e esforços, estratégias e salvamentos, ele percebia que as pessoas sempre voltavam à estaca zero. Apático, constatou que bastava salvar alguém de um buraco para este cair em uma vala, no segundo seguinte.

Diante disso, Clarquinho – como era conhecido desde que se mudara para o Brasil – passava seus dias deprimido, trabalhando em um portal de “notícias”, escrevendo artigos sensacionalistas e inócuos: “Este celular vai revolucionar a humanidade” ou “Finalmente, a cura da calvície”.

Na verdade, Clarquinho tinha vontade de escrever um artigo com o título “A tediosa vida de um super-herói”. Despejaria no artigo todo seu desalento, toda mágoa e angústia que o enfraquecia mais do que um quilo de kriptonita aninhado em seu colo.

Certo dia, porém, ele abriu um perfil no Instagram. Extremamente reservado por conta da criação rigorosa que recebera dos pais, era a primeira vez que Clarquinho se enveredava pelas redes sociais. Começou a seguir velhos amigos. Sentiu-se nostálgico ao rever as fotos daqueles que, de uma forma ou outra, fizeram parte de sua vida. Sentiu-se especialmente emocionado ao entrar no perfil de Irene Lane, bisneta de Louis – ela tinha o mesmo sorriso meigo da bisavó.

A rede social prendeu definitivamente sua atenção. Não tendo necessidade de dormir, ele varava noites e madrugadas seguindo pessoas, vasculhando fotos, postando feeds e stories.

Certa noite, lá estava ele novamente vendo o perfil de Irene, quando houve um terrível incêndio na vizinhança – um incêndio de proporções assustadoras. Este era o momento em que ele abriria o pijama, arrebentando desnecessariamente botões – para tão somente ter que costurá-los novamente –, e exibiria o “S” colossal em seu peito. Sua chance de voar em alta velocidade, salvar a vida de inocentes e dar a eles a chance de não caírem no próximo buraco.

No entanto, por algum motivo, Clark não ouviu as sirenes e nem sentiu o cheiro de fumaça. Estava hipnotizado, olhos presos na tela do celular.

Naquele exato momento, Irene havia acabado de postar no Instagram uma foto em preto-e-branco de sua bisavó.

4 Comments

  1. Andrea Fernandes Cesário

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    Excelente crônica. Quem poderá nos salvar das redes sociais? Elas são buracos gigantescos que engolem até mesmo super-heróis.

  2. Vanda Franco

    at

    Amei a crônica, ele prova que nem o super-homem está livre de ser engolido pelas redes sociais, nas quais há um mundo maravilhoso a ser descoberto, mas se não colocarmos limite nos perdemos e caímos em um buraco sem retorno, no qual nem o super-homem pode nos salvar. Parabéns pela crônica.

  3. ana carla ferraz

    at

    O uso das redes sociais de forma desequilibrada tira o indivíduo da realidade que o cerca, tornando-o alienado . Muito boa a crônica

  4. Newton Terceiro

    at

    Uma bonita estória (sem agá -H-)

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