Como lidar com a necessidade de enfatizar que uma personagem possui um linguajar regionalista? Quais os perigos de utilizar grafias erradas?

E então você cria uma personagem com forte presença regional, muito provavelmente alguém que vive no interior do interior do interior do país. No momento de escrever os diálogos, cheio de boas intenções, você utiliza grafias erradas para tentar reproduzir a regionalização das personagens.

E aí os diálogos são bombardeados com “oi minha fia”, “cê num entendi”, e por aí afora. Muitos costumam marcar as grafias erradas com o uso de apóstrofos. Outros não se preocupam com isso.

De qualquer forma, o que tem levado jovens autores a utilizar (e abusar de) tal recurso? E qual o perigo de usá-lo?

Por Que Jovens Escritores Usam Grafia Errada

Grafias erradas em diálogos regionaisJovens autores se justificam: o objetivo de utilizar a grafia errada é tornar o diálogo executado na mente do leitor, mais real. À medida que o leitor lê os diálogos recheados com tais palavras, acredita-se que será mais fácil levá-lo para dentro da história, vivenciando de forma mais intensa a “conversa” entre as personagens. Há também autores e autoras iniciantes que apelam para esta forma de escrever para dar uma pitada de humor no diálogo ficcional. Será mesmo?

A verdade é que o uso deste recurso na literatura é chato e cansativo. Como mencionado, a intenção é boa. Excelente, para dizer a verdade. Mas você não consegue levar o leitor para dentro da narrativa com ele. Muito pelo contrário, você bota o leitor para correr debaixo de pedrada.

Há pelo menos 3 pesadas desvantagens em utilizá-lo:

  • O uso abusivo de apóstrofos e grafias ímpares são visualmente perturbadores. Dificultam a fluência na leitura, e nos cansam facilmente.
  • Outro problema é sua capacidade de distração. Quando você escreve uma frase como: “Mas o sinhô num faiz ideia do que to passanu”, você tira toda a atenção dos pensamentos da personagem. Os leitores deixam de focar os sentimentos da personagem, e passam a se concentrar nas palavras, isoladamente. Isto porque você está chamando a atenção dos leitores para as palavras, em vez de focar o que ele está tentando transmitir E isto interfere diretamente na compreensão da narrativa.
  • Além disso, eventualmente, você encontrará leitores que costumam falar desta forma e que se sentirão desrespeitados com tal tentativa de representar sua fala.

De qualquer forma, a questão que destaco não está no âmbito do certo ou errado, mas da diferença entre uma leitura fluente, suave, e uma cansativa, distrativa.

É verdade que você encontrará alguns livros com este recurso – talvez alguns grandes nomes da literatura. Mas vamos nos situar um pouquinho no século 21. Acredite: os leitores modernos têm pouca paciência com este tipo de escrita.

Regionalize Com Palavras e Expressões Regionais

Grafias erradas em diálogos regionaisSe a questão é reforçar ou enfatizar a regionalização da personagem, há outro recurso mais interessante para isso. Trata-se de utilizar expressões regionais. E isto é bem diferente de utilizar grafias incorretas.

Por exemplo, o autor ou autora pode usar palavras e expressões como “bagunçar o coreto” para representar o linguajar nordestino; “bah”, “pé no estribo”, para representar o linguajar gaúcho, e assim por diante. Isto reforça a regionalização, além de ser culturalmente enriquecedor. Uma rápida pesquisa na internet lhe apresentará diversas expressões típicas da localidade sobre a qual você está escrevendo.

Assim, ao escrever diálogos, não interfira na construção ortográfica. Deixe que as palavras façam o seu trabalho, comunicando com elegante eficiência o que as personagens querem transmitir.