Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Viagem no Tempo

Tinha um dom único: viajar no tempo. Sem máquina, maquinaria, apetrechos ou afins. Um deslocar-se assustadoramente unidirecional: voltava no tempo. Jamais podia avançar no futuro. Descobriu o dom assim, do nada. Na juventude, 12 ou 13 anos, perdido entre lâminas afiadas do arrependimento, desejou voltar atrás e refazer tudo. Fechou os olhos, e de repente… estava lá. O mesmo corpo. A mesma cena. Um minuto antes. Tempo suficiente para desfazer a bobagem. Ou melhor ainda, nem sequer cometê-la.

Atordoado, passou dias dominado pelo terror. Demorou anos para reunir coragem e realizar o feito, novamente. Foi aos 18 anos. Quando disse para a mulher que amava que ela era a pior coisa que lhe tinha acontecido. O momento de irreflexão. A raiva aflorando na pele ressequida, descontentamento. O desejo de fazer outrem se sentir tão pesaroso quanto si próprio. A palavra desferida. Os olhos dela marejando lágrimas. O arrependimento lhe rasgando artéria pulmonar e aorta. Ventrículo despedaçado. Arrependeu-se. Fechou os olhos. E conseguiu. 20 segundos antes. Já estava com a boca aberta para desferir irreflexão mordaz, quando a fechou, respirou fundo, repensou palavras e sentimentos, e arrematou:

– Odeio quando brigamos. Eu preciso do seu sorriso. Me deixe lutar por ele.

Namoro rompido salvo pela viagem no tempo. Um corpo que sangra, agora, estancado. Idílio no lugar do choro arrependido.Crônica Viagem no Tempo - Foto: Troy Stoi

Achou que deveria explorar o dom. O medo circulava em suas veias entupidas. Sangue coagulado. Mas precisava enfrentá-lo. Começou aos poucos. Voltou dois minutos em um dia. Cinco, em outro. Dez, no seguinte. Aos poucos, conquistou coragem. Sua confiança rompendo vasos. O sangue ganhando espaço. 200 km por hora. Que tal um salto maior? Cansou-se dos minutos. Desta vez, voltaria um ano. Fechou os olhos, e conseguiu.

Aos 27 anos, descontente com os rumos que sua vida tomara, suspirou. Vida amorosa, profissão, vida social. Refaria tudo se pudesse. Refaria. Se pudesse. Mas podia. E faria.

Sentiu falta dos tempos de infância. Sabia que era uma loucura. A viagem era unilateral. Se voltasse para sua infância, precisaria reviver tudo novamente, alterando o que quisesse, refazendo o que lhe conviesse. Cansado da morbidez do agora, decidiu enfrentar a viagem. Fechou os olhos, e quando os abriu, estava num corpo franzino, pés descalços, canela perebenta. No meio da casa. A casa de sua infância. Ofegante. O corpo ardendo. Gosto de sangue. Um corpo que arde. Viu-se com o rosto banhado em lágrimas. Tudo doía. Tudo. O pai, monstruoso e bêbado, de pé em sua frente, cinta em mãos. Ergueu o braço para golpeá-lo novamente. Péssimo época ele escolheu para retornar. Não tinha um registro de tudo o que lhe acontecera. Se tivesse, evitaria voltar em épocas traumatizantes como esta. Antes que o violento golpe do pai lhe fosse desferido outra vez, quis fugir de tudo aquilo. Fechou os olhos e desejou voltar muito, muito, muito tempo antes disso.

Tempo demais.

Acabou voltando para quando ainda nem tinha nascido. Fechou os olhos. E não mais os abriu. Inconsistente. Inconsciente. Jazendo na infinita escuridão.

Ainda levaria 50 anos para que seu pequenino corpo voltasse a deixar o ventre de sua mãe para ser finalmente reapresentado à luz.


SOBRE O AUTOR

Juliano Martinz é cronista, redator web e criador do site Literatura Corrosiva.

11 Comments

  1. marcelo smith

    at

    Essa crônica foi excelente além de ser muito “criativa” você soube falar sobre a viagem no tempo de uma
    forma bastante clara e ao mesmo tempo super interessante!!! Gostei Muito!!!

    • Juliano Martinz

      at

      Obrigado pelas visitas, e pelos comentários deixados, Marcelo.

  2. Rian Neos

    at

    ficou maneiro

  3. ramalho

    at

    ^^

  4. Murilo

    at

    Alguem pode colocar os elementos que estao presentes no texto?Obg

  5. Beatriz oliveira lopes

    at

    adoreeei.

  6. Renato

    at

    Excelente crônica (Viagem no tempo). Parabéns.

    • Sheyla Marques

      at

      Pois é…. quantos de nós queríamos voltar e refazer tudo, dar um novo presente….. Já me atrevi a fazer algo assim, mas na escrita kkkkkk, parabéns pelo teu talento, luz!

      • Itamar de Almeida

        at

        Isso mesmo Sheyla! Às vezes desejamos consertar algumas coisas e nos imaginamos voltar aos acontecimentos ou melhor antes destes.Mas infelizmente, não conseguimos, teremos que lidar com nossas próprias escolhas.

  7. Nátalie Oliveira

    at

    Seria muito bom se pudéssemos voltar no tempo toda vez que nos arrependemos… mais, caindo infelizmente na realidade, a vida não é justa e algumas vezes que nos arrependemos já estava tarde demais pra não comete-la naquele momento.

  8. Leonardo

    at

    Excelente cronica, gostei !!

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