Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Category: Textos Tristes

Serena

Não eram exatamente passos. Era praticamente um arrastar-se. No meio da noite, trôpega, caminhava Serena em meio ao nada. Sabe como é: desilusões que se derramam sobre uma alma sedenta, vinte e poucos anos de discórdia, deixa qualquer miserável pra baixo. Um turbilhão de sonhos, e um punhado de realismo. Com ela não seria diferente. O que dizer? O que esperar? Com quem contar?

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Desenhando Sonhos

Esta é a cálida sinfonia. A angústia solutiva que agoniza e retempera as paredes do meu estômago enquanto meus passos já não se sabem qual direção ir. E por que ir aonde ir? As tempestades sussurram navalhas no horizonte, e tento distraí-las com versos e cantigas de ninar. Retumba em meu peito sonhos já não vividos e desapontados. Foram tão distraídos em sua concepção que passaram ilesos, divagando vagas vagarosidades. Hoje, meus sonhos se condensaram no fel que delicada e silenciosamente vaza pelos cantos de meus lábios.

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Vestida em Farrapos

(Baseado em Like a Rolling Stones – Bob Dylan)

Ela está vestida em farrapos. E o que ela esperava do mundo? Comportava-se como a senhora de todos os sentidos. Comportava-se como se a próxima onda pudesse levá-la para um lugar seguro. Mal percebia o elixir preso em suas veias frágeis, deflagrando sintomáticos sussurros falhos. Uma isolação perfeita, escondida atrás dos muros que ela mesma construiu. Raramente tocada por um amor ensaiado, ela costumava rir do vácuo nos olhos de seus admiradores. A riqueza lhe garantia esperança. E agora, com seus passos vacilantes pelas ruas, sem uma direção definida, tenta seguir a linha que conduz ao nada. E o que lhe restou? Ela está irreconhecível para si mesma. Faltam-lhe versos. Falta-lhe direção. Ferida e esgotada. Seu medo sussurrante. Seu opróbrio. Seus olhos embriagados já não revelam uma confiança qualquer. Sua postura confiante já não encanta nem os condescendentes. É a hora de sua vergonha se tornar pública. Ela é a piada da vez.

Crônica Vestida em Farrapos

(Crédito Foto: Mohamad Itani)

MENTIRAS ÁCIDAS

Corrosiva. Soava-lhe invasiva e fulminante. Era vida. Desvivida. Quase um despropósito vago, latente. Deitada, as costas viradas para a porta. Esperando. Repouso funesto. Cansativa espera diária. Ele sempre voltava de madrugada. Duas. Três da manhã. Pés se arrastando entre nuvem alcoólica e perfume barato. Ela ensaiava o que dizer. Protestos. Ameaças. Ou um melancólico adeus. Mas do todo, um nada recorrente. Eram as correntes que não a deixavam ir além. Medo comovente. A pergunta lhe fustigando a pele. Para onde ir?

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RETRATO SOLIDÃO INDELÉVEL

Estendida sobre o chão gélido, amalgamou-se

Crônicas Sobre Retrato Solidão Indelével

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Sua Anti-história

Ela precisava de um eco. Um grito que afligisse seus medos. Uma volta ao passado para recompor peças de um vitral que se despedaçara em seu vazio. Nas noites de insônia e famigerados pesadelos, um tombar seco, uma queda livre. Jogava-se entre rumores e passados desfeitos, uma carente investigação.

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Verte pus

Desce. Sinuosa a rua lhe embaralha as vistas. O sonho que escorre pelo rosto é a embriaguez das horas passadas. Noite. Silêncio. Trôpego. É a marca no peito de uma esperança que certa vez desapareceu.

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ADEUS, OLIMPO

Ela puxou a pele da gordura malar, termo nada obtuso para a maçã do rosto, exibindo uma caricatura não tão distante da figura difusa que se tornara. Esticada, retesada, parecia-lhe menos agressiva. Manteve a bochecha esticada. Ainda se lembrava? Onde fora parar sua juventude, seu vigor? Uma busca nos esgotos fétidos revelaria algo? Deixou a bochecha, e foi até os olhos. Camadas de gordura e células mortas contornavam seus encantadores olhos azuis. Na verdade, contornavam, tempos atrás. Hoje, apenas camuflavam qualquer beleza dantesca que outrora ali residira. Resolveu aplicar o mesmo truque da bochecha nos olhos. Esticou a pele. Flacidez sem fim. Esticou. Por uma fração, percebeu uma mudança. As rugas pareciam se ocultar, mas a mancha escura se tornava mais coesa. As mãos tentavam, ora aqui, ora ali, descompassar inutilmente aquilo que o tempo impiedosamente lhe infligira como uma carga impossível de se carregar. Achou-se incapaz. O bisturi fizera algumas mudanças, é verdade. Mas não lhe devolvera aquilo que sua ambição tanto desejara: sua juventude, seu alvor. Apenas substituíra a velha e velha velhice por um rosto falso, inexpressivo, máscara putrescível. Seus seios haviam perdido a batalha para a gravidade há muito e muito tempo. Os quadris se alargavam numa velocidade impressionante, quase escapando ao acompanhamento policial de seus olhos investigativos.

Adeus Olimpo

Fora uma jovem normal, é verdade. Então, onde errara? A conclusão não era difícil. Quando os planos se tornam mais intensos que a realidade, a porcaria está feita. Em certa manhã, no ápice de sua juventude (e de sua imbecilidade), achou que tudo podia ser resumido a fórmulas matemáticas. Colocou tudo no papel. Prós e contras. Seria atriz, escritora, turista de 10 países, a página principal do Jornal da Felicidade e Utopia Inacessível Para Reles Mortais. Nessas horas, a pessoa se esquece que está apodrecendo aos poucos. É invadida pela chama falsa dos deuses do Olimpo. Teores de imortalidade. Odores de invencibilidade. Mal percebe o corpo recurvado, dia após dia. Mal percebe o hálito apodrecendo. A visão começa a lhe trair a percepção. Os passos já não tropeçam em obstáculos. Mas em si mesmos. Na fase infantil do registro de sonhos na caderneta, achara que seria a esposa perfeita, mãe aos 30, filha exemplar. Quando o tema das conversas fosse os bem-sucedidos, seria sempre apontada.

Mas quando começou a se esquecer de coisas pequenas (havia sido uma garota de memória invejável) percebeu que algo estava errado. O tempo parecia errado, não ela. Ele havia disparado, e a deixado para trás. Tempo traiçoeiro. Ela correu atrás. Tentou alcançá-lo. Correu. Correu. E se cansou. Não havia mais tempo. Ele se esgotara. Ela também. O vigor já não existia. Os planos se provaram falhos e infantis. Cansou-se. A corrida estava acabando, e ela era a última colocada. Xingou o tempo.

Pensou melhor, e xingou a si mesma.

Sentou-se, gemendo e praguejando. Lombalgia. Dores nas regiões lombares ou lombossacrais. Ela costumava chamar de “maldita dor dos infernos”. Hoje era difícil definir o que doía. Os dentes doíam, o pulmão doía, os pés doíam. Toda sua alma, enfim. O que não doía, latejava.

Do que se arrependia? De tudo. Principalmente, por ter sonhado o impossível. Ah, o impossível. O Olimpo. A altivez. Besteira! Hoje, sozinha. O marido morrera anos atrás. Mas as fragilidades estavam bem vivas. Sem filhos, restara-lhe a casa. A casa. Ela. E seus fantasmas.

Pensou em escrever sua história. Um registro para a posteridade. Não que alguém fosse se interessar. Mas seria seu desabafo. Pensou num título. Ocorreu-lhe um. Botou no papel: “Vida, Lutas e Derrotas de uma Guerreira”.

Se não fosse uma partícula de orgulho sobrevivente, teria escrito: “Lamentável Saco de Refugo”.

Homem Cor de Lixo

Já chega desse lixo, disse, ensandecido. Estava farto. Cansado de si mesmo. No espelho, os olhos não transmitiam nada. Nem o rosto. Nem porcaria nenhuma. Apenas uma névoa. Ele era a fétida névoa. Preferiu então, resignado, deixar que as palavras lânguidas sussurradas entre espumas de saliva o resumissem. Era o caos desnudo. Opróbrio enxuto. Tênue e vaga lembrança do que poderia ter sido. E poderia ter sido. E teria sido, se não tivesse mergulhado fundo naquele erro que um dia chamou de vida.

Homem cor de lixo

Outrora, havia esposa. E filhos. E casa. E um emprego. Outrora havia sangue em suas veias. Era muito. Mais tarde, diria, era tudo. Um tudo nada. Ao menos, aos olhos de vagante de torpe ótica. Mas naquela tarde de agosto, às 14h23min13seg, a agulha rompeu o tecido da sua pele. Rasgou a camada córnea. Atravessou cada célula da epiderme. Vazou derme e hipoderme. E quando chegou lá, bem lá, onde outrora havia sangue – lá nunca deveria ter estado –, depositou toda aquela porcaria que mudaria sua vida.

Um choque. A tensão sôfrega. As cores listadas como um arco-íris bucólico. Brutalidade. Insensatez. Os passos vacilantes. As palavras mal elaboradas. Os olhos distantes. Convenceram-no ser liberdade. Agora, um escravo. Um lixo ambulante de vagas lembranças.

A culpa. De quem era a culpa? A quem cabia, o descabimento? Apontou dois ou três. Acusou outro. Ameaçou tantos mais. No fim, odiou apenas a si mesmo. Não o ódio mortal. Ou a desesperança que faz um cara saltar de um prédio qualquer. Apenas o ódio de quem sabe onde está, tenta sair, mesmo sabendo que nunca irá conseguir. Hedionda sina. Sonda assassina.

No dia em que vomitou sobre o prato de feijão e arroz, no jantar, foi abandonado. Esposa e filhos, nunca mais. O emprego já lhe havia escapado rápido pelas mãos. De agora em diante, era ele e o lixo. Bem assim, ele e o lixo. Mas foi difícil definir quem era quem.

Hoje era um homem de meia idade, aparentando 60 anos. A bem dizer, aparentava ser um defunto. Os cabelos brancos e ralos na testa rasgada pelas marcas da depressão. Os olhos perdidos navegando sobre um corpo esquelético, uma massa branca e ressequida que não desenvolveu. Da boca, corriam os filetes. As espumas se mantinham solidificadas em cada canto. A saliva lhe desenhava o queixo. As palavras não ouvidas. Lânguido, tentou dizer algo mais. Mas preferiu baixar a cabeça, como fizera nos últimos cinco anos, e derreteu-se na amargura de um tombar de corpo, que nem ruído fez. Leve como o vento. Leve. Levado embora pela brisa.

O corpo nu estendido no banheiro só viria a ser descoberto pelos vizinhos depois de nove dias.


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