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Crônicas corrosivas e gestos de amor

Category: Crônicas Tristes

Crônicas Tristes da Literatura Corrosiva

Crônicas Tristes e Curtas - Literatura CorrosivaSob a penumbra, um silêncio ecoa em um peito decadente. Feridas eternas magnetizadas na insistência em viver. Respirar. Rastejar. Já não é a mesma presença. Já não é a mesma carência. Nem a mesma forma atônita de se crer, reter, reconsiderar. Em meio ao manto, sob nuvens negras, Crônicas Tristes se desenham em papel rasgado. Em bytes, refazem-se depressivas e moribundas.

Aqui remanescem Crônicas Tristes em momentos onde o agora torna-se eterno, num rastejar sem fim. Sôfrego. Calado. Cansado. Velhos momentos, uma velha densidade fria, reimpressos em Crônicas Tristes. A cortina que se fecha. A ferida que se abre. A criação poetizada e calcificada nestas palavras que o silêncio insiste em rimar.

Me ouça. Me destempere. Me reflita. E me acompanhe nestas tardias Crônicas Tristes:

Biografia de um Homem Comum

Tão trivial foi sua vida que sequer existem justificativas para revelar seu nome. Destacou-se entre os átomos do planeta como não mais do que um suspiro – mal seus pés tocaram o chão, já era hora de dizer adeus à plateia de dois ou três, e voltar ao pó. Quando as cortinas se fecharam, os dois ou três bocejavam.

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Sem Título

Escolha um emprego. Escolha um carro. Escolha uma vida. E depois, resigne-se. É a vida, feita de escolhas e consequências. Um passo aqui para um efeito lá. Pode parecer estimulante. Pode parecer desafiador. Ou, às vezes, deprimente.

Por isso, o homem decidiu não escolher coisa alguma. Esta foi sua escolha. Sem razões definidas, sem explicações aparentes. Ele não precisava de escolhas para ser feliz. E não precisava ser feliz para continuar vivendo.

Autodenominava-se O Homem Invisível. Mas não era invisível, apenas existia. Em dado momento, chegou a se questionar: existia realmente? Fazia parte de um plano? Integrava um todo? E se ele não passasse de uma personagem em um livro?

A vida continuava como um marasmo de cores nada vibrantes. Um emprego desestimulante em um escritório qualquer. Sem família, sem raios de sol, sem perspectivas. Tão somente, ratos e restos.

E dia após dia questionava-se, duvidando de sua existência. Era uma pessoa real com sangue, músculos e vértebras? Ou não passava de rabiscos num papel?

Começou a olhar ao redor com desconfiança. O que via era a realidade ou apenas produto da mente de um escritor? Os detalhes à sua volta denunciavam que tudo era irreal. Seu universo não passava de esboços mal definidos escritos no papel. Ele não passava de um personagem deprimido de um livro que certamente não teria um final feliz.

Consciente disso e insatisfeito com seu rumo, decidiu ir atrás do seu autor. Do escritor que lhe privava alegrias. Por que ele lhe dera uma vida tão enfadonha? Por que não lhe conferira alguma fragrância, momentos de alegria, ao menos uma partícula ígnea de bem-estar? Em vez disso, preferira descrevê-lo apenas com o tédio como componente principal.

Na busca, alimentado pelos pensamentos inquietantes, o Homem Invisível se viu dominado pelo ódio. Perdera o controle. Escapara das direções estabelecidas pelo seu autor. Nesta altura, improvisava. Agia por conta própria, contrariando as descrições do autor. O Homem Invisível começou a ganhar forma. Cheiro. Cor. Logo, visibilizou-se. Um ser atuante e perceptível.

Agora, era uma pessoa real. E como tal, poderia se vingar daquele que o trancafiou num mundo sem perspectivas. O Homem Invisível só precisava de uma faca e um pouco de tempo para encontrar seu autor, seu facínora sem coração, e realizar sua vingança.

Encontrou-o numa quinta-feira, 19 de Julho, o pseudo-escritor distraído em seu computador, escrevendo mais uma crônica sobre sua personagem desalentada.

O autor ainda nem havia dado título à crônica. Mas parecia rir. Ria da vida funesta com que fustigava o pobre coitado, personagem sua, criatura sua.

Aproximou-se por trás do autor, sem ser percebido. O Homem Invisível salivava vingança, execrando suor e raiva pelos poros.

Ergueu a faca, e antes que o autor terminasse a frase…

INTEIRAS METADES FRACIONADAS

Era eu mesmo. Num despertar bestialógico. Cansado de noites mal dormidas, de eras mal vividas. Cansado de estar cansado de estar cansado. Era-me eu. Era-lhe eu.

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VIDA – DE ONDE VEIO ESTE SENSO DE HUMOR DOENTIO?

O encanto lhe dosava a face na proporção com que lhe convinham os sonhos. Dia metade, dia todo, a verdade suavizada pelo clamor visceral de suas entranhas.

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ELA, O MONSTRO

Tinha esvaído suas esperanças em homens que a trataram como aquilo que sempre procurara desmentir: sua qualidade estativa. Julgava-se humana. Capaz. Sentimentos e qualidades em cada poro. Mas eles a moldaram em figura estatuária, uma boneca feito de lixo. Uma alma triste e sua corrosiva hirteza. Trancou-se entre quatro paredes. Privou-se de luz, de vozes, de promessas. Fora convencida de que não fazia parte da raça humana. Construíra espaços, mas nunca os alcançara. Sonhos de concreto feitos com papel. Esperança de aço montada com areia do mar. Acima do peso, a fala lenta e pesada, as espinhas proliferando e deformando seu rosto. A vítima. Mais uma vítima. Mais um monstro criado pela sociedade exigente. A guerra deformou a poetisa. E a garota que um dia já sonhara, agora suava e tremia, pensamentos mórbidos. De lúdica a voraz. Seu amor não correspondido regurgitado num ódio impulsivo. Se ela era o verme, então, estava na hora de devorar o intestino dos funestos mortais.

Ela, o Monstro

Como se constrói um monstro? Zombaria e desprezo. Não se precisa muito mais do que isso. Ela, o monstro. Caminhava na escuridão. O olhar focado no nada. Os olhos vazios e cheios de rancor. Suor por todo seu corpo. A pele rígida e pálida pulverizada em textos reflexivos. Não lhe era natural. Fora construída. A falta de amor fora substituída pela ânsia de estímulos. Desta feita, estímulos de um vermelho vivo.

Uma alma, um soldado. Pesticida em suas veias. E finalmente, um vulto na escuridão. Dois, aliás. Risadas. Há quanto tempo ela não ria, verdadeiramente? Sorriso esporádicos e obrigatórios sempre lhe foram uma insistência ácida. Agora, aqueles sons lhe pareciam um rogo maldito, preces infortunosas. Uma gargalhada. Após um grito. Um flash viscoso saltando de uma garganta entreaberta. Uma queda lenta. Um tombar surdo. E o outro vulto, estático. O espanto lhe paralisando os membros. Um filete de luz solitária de uma janela qualquer, revelou-lhe o rosto. Um jovem, o olhar espantado não escondia a embriaguez. Um vencedor. Aqueles que chegam ao mundo num berço de ouro, e o que não conquistam por herança, o conseguem com seu corpo e fala macia.  Era perceptível sua dúvida: gritava? corria? ou esperava sua vez? No hesitar, foi-lhe imposta a terceira opção. A lâmina em sua mão reluziu antes de abrir a garganta do belo jovem, e pode divisar, por um instante, seu esôfago envolvido pelos nervos recorrentes. O sangue ganhou o ar saltando vigoroso do sulco traqueoesofágico. Decorou-lhe a mão inerte. Ela não tremia. Fora bem construída. Detalhes cuidadosamente montados. Seus criadores deveriam se sentir orgulhosos.

Continuou a caminhar pela escuridão. Haveria outros pelo caminho. O monstro ansiava pelo encontro com cada um deles. Até que fosse parada. Se fosse parada. A esta altura, já se sentia imortal.

As noites eternas lhe seriam pouco, pensou.

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