Pergunte ao elemento debruçado sobre a mesa, com aquela aparência decadente e frígida, respiração cadenciada, sobre Camila Helena, e ele lhe dirá que os céus fizeram silêncio, que a primavera contorceu-se de inveja, e que o mar se declarou perdidamente apaixonado no dia em que ela nasceu.

Apague seu cigarro. Repouse seu copo sobre a mesa. E preste atenção no que vou dizer: ninguém sobrevive a um olhar de Camila Helena. Pra ser sucinto, ela pode fazer apenas duas coisas com você: te dar atenção ou te ignorar. Na prática, as duas coisas levam ao mesmo fim: ela vai te destruir. Se duvida, pergunte ao infeliz debruçado sobre a mesa, acariciando o pires dá décima xícara de café que tomou naquela madrugada fria. Ele pode te dizer em palavras frias (como ele) como veio a colocar seus pés sobre o gelo frágil (como ele) e confiar num tal despertar traiçoeiro (como ela) lhe afagando os cabelos numa manhã de sol.

Crônica Camila Helena - Arte: Nimalan Tharmalingam

A propósito, o elemento debruçado sobre aquela mesa sou eu…

A mosca repousa no pires. Olha para mim. Olhar lacônico. O dela? Também. Imagino que não seja tão divertido ser uma mosca. Viver entre lixo, deve ser deprimente. Eu que o diga. Onde estava? O olhar lacônico. O meu, quero dizer. Olho para a mosca com tristeza. Não se consegue ser alegre após 49 horas seguidas acordado. Duvida? Experimente. 49 horas, 9 minutos e 25 segundos. 26. 27. Corda-bamba. 29. Mosca-amiga. 31. Vai passar, mosquinha. Ela dá com os ombros. Como se dissesse: é a vida, camarada. Não espere demais dela, e ela não te cobra. Ela dá 2 passos em minha direção. Os olhos brilham. Os da mosca. Os meus continuam ali, dançando lá e cá. A mosca se prepara para falar. Silêncio. Calem-se. “Dá pra colocar um pouco mais de açúcar nessa porcaria de café?”.

Foi uma gosma quase branca, um amarelo suave, pegajoso, consistente, que esvoaçou do abdômen dela. Acertei-lhe um belo dum tapa. Daqueles certeiros, que se alastra em ecos repulsando paredes ao redor. Minha mão ficou vermelha – forte impacto. Mão vermelha com uma tira longa e delgada resultado da mistura suculenta dos intestinos, gânglios e túbulos da mosca abusada. Aprendi com meu pai. Se quiser me esmurrar, pode escolher: lado direito, esquerdo ou queixo? Mas não mexa com meu café. É preciso valorizar o que nos completa.

E por falar em completar, percebo que está vazia. Minha vida? Não, a xícara. Tente acompanhar o que estou dizendo e me poupará de explicações desnecessárias. 10 minutos. Mosca despedaçada. Brinco com a gosma grudada em minha mão. Se era fêmea, ali um caldo do ovipositor. Se for macho, aedeagus. Fora isso, eu e uma xícara vazia. Vamos resolver isso agora.

Faço um sinal para ser atendido. Mas a garçonete não me vê. Aí fico com aquela cara idiota. Disfarço. Coço a cabeça. Todo mundo disfarça nessas horas. Sempre coçam a cabeça. Eu também. Mas nem precisava. Não há nenhuma alma calejada naquela pista. Naquele porcaria de bar, digo. Ou lanchonete. Ou qualquer espelunca onde se serve café. Que horas são? Não sei. Tarde demais para deitar. Tarde demais para levantar. Meus olhos ardem. A mosca se contorce. Está viva ainda, a desgraçada. Paro de coçar a cabeça na hora que a garçonete me olha. E aceno. Mais um café, por favor. Mais um? Não sei se ela disse isso ou se foi o olhar dela. Ou talvez nenhuma das duas coisas: estou vendo e ouvindo coisas. Louco? Fique acordado 49 horas, 10 minutos e 37 segundos, 38, 39, e verá onde o louco se esconde.

Estou cheirando os restos mortais da mosca, percebendo um cheiro, digamos, acre, quando a garçonete se aproxima. Parece impaciente. Qualquer um fica impaciente com um imbecil como eu. Sabe o último cliente que nunca vai embora? Ela me xinga, eu sei. Idiota, palerma, imbecil, ou qualquer outra coisa que faça parte do repertório de palavras ofensivas dela. Mas não diz. Apenas pensa, eu sei.

Eu poderia ir embora, também sei. Mas preciso estar ali. Quando digo que preciso, quero dizer que PRECISO. Eu, meu café, meus restos de mosca. Você pode me achar um maluco, mas se você a visse, me daria razão. Não é pelo café que estou ali. Estou ali por ela. Por Camila Helena. Sinto o perfume dela espantar o cheiro acre deixado pelos intestinos da mosca em minhas narinas. Quando ela se recurva, meu corpo paralisa. Estagnado, observo-a. O corpo levemente inclinado, a pele alva, o suor que secara, mas deixara seus cabelos artisticamente grudados um ao outro, em sua testa. Alguns grãos de farinha na ponta do seu nariz. Chego a esboçar um movimento. Tocar o nariz dela. Tirar-lhe a farinha. Tirar-lhe o pó. E aquela solidão que se esconde naqueles olhos esfomeados. Nossa solidão, a minha e a dela, são irmãs.

– O que é isso? – ela entoa suas palavras apontando para o meu dedo.

Ergo o dedo com o que restou da abusada.

– Isso? É… creme. – Levo o dedo a boca, e o lambo. É salgado. Levemente salgado. Anotem: mesêntero e proctodeo de moscas são salgados. Mas isso eu já sabia faz tempo.

– Você não vai pra sua casa? – Ela pergunta, não resistindo a angústia do último cliente que não vai embora.

Por que ela quer ir embora? Por que tanta pressa? Para chegar em sua casa, e se lembrar que não há ninguém esperando por ela? Para olhar para a mesa vazia, e se lembrar de um tempo que se fora, e que nunca mais voltará? Para se lembrar de que sua vida é tão frágil quanto a minha?

– É o último – digo, enfim. No dia seguinte, voltarei àquela espelunca, para vê-la novamente. Como todos os dias, como todas as noites.  Eterna obsessão. Eterno elemento das mesmas crônicas tristes.

Neste instante, outra mosca pousa na mesa, e me encara. Como um homem de princípios, decido avisá-la:

– Se falar mal do meu café, eu juro que te engulo.

continua…

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