Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

UM PRÍNCIPE PARA SANDRA

Procurava o homem perfeito. E nunca considerou isso demasiada exigência. O que Sandra precisava era de alguém que preenchesse suas necessidades, suas ranhuras. Que acalmasse suas intempéries. Que aquecesse seu frio interior. E homens medíocres jamais conseguiriam isso.

As amigas julgavam-na insana. Perdia oportunidades fantásticas de ser feliz por causa de ninharias, de detalhes que não fariam diferença no produto final.

Um Príncipe Para Sandra

Não foi ao encontro com Douglas porque ele gaguejava quando estava nervoso. Não quis namorar Sérgio porque ele não cozinhava. Não noivou com Chico porque ele roía unhas. E não casou com Antenor porque ele roncava.

– Sandra, você está procurando algo que não existe – aconselhavam, as amigas. – Vai acabar morrendo velha e sozinha por causa dessas neuras absurdas.

Não adiantava. “Antes só do que mal-acompanhada” era o seu lema favorito. Quando uma amiga lhe apresentava um rapaz, ela já examinava o coitado de cima a baixo, com aquele sombrio olhar inquisidor que botava medo em qualquer um. O último, Lucas, até conseguiu fazer o impassível coração da moça bater um pouquinho mais rápido. Mas, isso antes dele abrir a boca e dizer:

– Cara, você é a mulher mais linda que eu já conheci.

Dispensou o sujeitinho na hora. Jamais passaria vida ao lado de um homem que a chamava de “cara”. Isso é tratamento de bandido, justificou-se mais tarde.

Quando ninguém mais acreditava que Sandra fosse casar, apareceu um príncipe encantado. Absolutamente perfeito, como ela sempre se permitira sonhar. Lindo, romântico, rico, gentil e.. perdidamente apaixonado por ela. Jantavam nos restaurantes mais chiques da cidade, dançavam nas boates mais badaladas, viajavam para os destinos mais procurados. Sandra não se cansava de dizer para as amigas:

– Estão vendo? Estão vendo?

Elas torciam o nariz e ficavam quietas. Falar o quê?

Até que um dia Romeu terminou com ela, sem mais nem menos. Com a maior frieza do mundo, pediu desculpas, disse que precisava de mais espaço para respirar, que a culpa era dele, e todo esse papo furado que sol e lua testemunham a milênios.

Ficou arrasada. Não somente pelo fato de ter sido abandonada por aquele que julgara que se tornaria sua companhia na varanda, enquanto assistiriam os netos brincando no quintal, mas por contemplar a franca e assustadora possibilidade de morrer velha e sozinha.

Após muito refletir, concluiu que as amigas estavam certas. Abdicou de todos seus princípios, e chamou Lucas para jantar. E acredita ter tomado a decisão certa.

Hoje, casados a 20 anos, ela ainda se arrepia quando Lucas mordisca sua orelha e sussurra em seus ouvidos:

– Cara, você é a mulher mais linda que eu já conheci.

 

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3 Comments

  1. Quall e o autor dessa crônica?

  2. Daniel Vidigal Duarte Souza

    27 novembro, 2015 at 10:41

    Parabéns. Muito bom!

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