Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Universo Rafaela

Relatório da ONU aponta que, até 2030, população mundial deve chegar a 8,5 bilhões de Rafaelas

Aquele deveria ser mais um dia banal na vida de Rafaela, sem quaisquer elementos que a levassem para fora da cansativa normalidade. E teria sido se ela não tivesse se deparado com a visão mais aterradora de sua vida, logo após atravessar o saguão do prédio onde morava.

Em nenhum momento, desde que colocara os pés para fora da cama, Rafaela desconfiara do inferno que estava para vivenciar na próxima hora. E que este pressagiaria a sua morte.

Apática, tomou banho. Café da manhã. Dentes escovados. Uma roupa qualquer escolhida aleatoriamente – o trabalho que ela tanto odiava não merecia caprichos.

Da sala do apartamento até o elevador, os pés foram se arrastando. Afinal, ela carregava duas toneladas de angústia sobre os ombros. Enquanto descia, ficou de costas para o espelho do elevador – a morbidez dos seus olhos lhe causticava a alma.

Chegou ao saguão, e até ali, não cruzara com ninguém. Melhor assim. A garota de corpo recurvado, se encaminhando para o pior emprego do mundo, não tinha qualquer intensidade latente em sua alma que lhe impulsionasse desejar “bom dia” a estranhos. Especialmente pelo fato de não lhe fazer qualquer diferença se estes mesmos estranhos estariam vivos ou mortos pelas próximas horas.

Mas quando colocou os pés na rua, a anterior Rafaela inexpressiva, estarreceu-se.

A multidão indo e vindo não lhe causou qualquer espanto – estava acostumada em se deparar com centenas de seres mórbidos, toda manhã.

O fato de todas as pessoas serem mulheres poderia ter gerado alguma estranheza, mas também não foi isso o que fez seu coração falhar duas ou três batidas.

O pavor instalou-se no corpo de Rafaela no exato momento em que ela percebeu que cada uma das centenas de mulheres que circulavam ao seu redor tinham exatamente o seu rosto.

O mesmo rosto, os mesmos olhos, a mesma boca. O nariz fino. A testa estreita. Até a pinta que carregava discretamente próxima a orelha. E aquele semblante perdido que ela estava acostumada a exibir nos últimos anos. Tudo exatamente igual.

Ficou paralisada diante das centenas de Rafaelas indo e vindo, que se distinguiam umas das outras somente pelas roupas. Rafaelas a pé, Rafaelas de carro e moto, e até uma Rafaela guiando um ônibus com dezenas de Rafaelas passageiras.

Em pânico, deu um grito rouco, sufocado, chamando a atenção de duas ou três Rafaelas que passavam por ali. Uma delas perguntou:

– Você está bem, moça?

Um quase infarto lhe acariciava o peito quando ela correu prédio adentro, voltando em desespero ao seu apartamento.

Suava. Suor correndo pelo seu rosto e corpo recém-banhado. Tremia intensamente. O universo parecia cambalear.

Correu até o banheiro. Avançou sobre cápsulas de dexedrine. Diversas delas engolidas em uma fração de segundos.

Voltou a sala e fechou a cortina sem olhar para fora. Pânico. Tremor. Coração desejando intensamente cessar aquele descompassado tum-tum-tum.

Ela ligou a TV e afastou-se, a ameaça desenhada na tela do aparelho: a repórter noticiava o congestionamento nas estradas, e entrevistava uma policial rodoviária. A repórter tinha seu rosto. A policial, também.

Desesperada acessou a internet pelo tablet, ao mesmo tempo em que começou a esvaziar uma garrafa de vodca. Acessou um site de notícias e confirmou, aterrorizada, que todas as pessoas nas fotos tinham o seu rosto.

– O que… o que está acontecendo? – balbuciou, a esta altura, já salivando.

Voltou ao banheiro.

Esvaziou duas cartelas de fluoxetina sobre as mãos, e que só conseguiram descer goela abaixo com três ou quatro goles de vodca. Aproveitou a demanda, e despejou um vidro de pemoline na boca, já definitivamente lânguida.

Voltou a sala, satisfeita ao perceber que não mais tremia. Aos poucos, o desespero se aquietava. Ela sentou-se no chão, quase desabando. Já não sentia muita coisa. Já não enxergava detalhes. Já não sabia quem era ou quem um dia fora.

E antes que tudo se apagasse e o mundo desaparecesse para sempre de sua vista, ainda ouviu a policial Rafaela advertir as motoristas Rafaelas para que não bebessem antes de dirigir.

 

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2 Comments

  1. Estou gostando muito dos textos deste autor.
    parabéns, escreve bem!

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