As pernas cambaleavam. Trôpego, seu sinistro e tenso olhar se perdia no vazio. Chegando aos 35, já parecia sentir o peso dos 80 lhe fustigando impiedosamente o lombo.

Ao longo da vida, sempre estivera apoiado na Esperança. Um amanhã suave. Um amanhã melhor. O amor verdadeiro lhe esperando na próxima esquina.

Mas os dias se ressecaram, a flacidez perpetuando a pele desgastada. Agora, o olhar enrijecido não enxergava mais o futuro. Nada via além de alguns poucos centímetros caóticos em sua frente. Uma luz lúgubre contornando a escassez de cores e formas.

Tentou escrever um poema de amor. Os primeiros versos diziam:

Meu semblante verte sangue

Minha espinha me desconstrói insano

E então percebeu que suas rimas não teriam nada de romantismo. Por isso, descontente e estagnado, desistiu.

Havia tanto amor em seu peito, porém, um amor que nunca fora dividido. Uma vida inteira na espera da pessoa especial que seria seu alvo incondicional. Tanto amor mantido, obrigatoriamente, em estado letárgico. Anos e anos em desuso, ressecamento das artérias, oclusão das sensações.

Amor em desuso, eternamente estocado, certo dia, venceu o prazo de validade.

Deteriorou-se.

E a desesperança fez-se morada. Não havia mais estímulos. Não havia mais intensidades como força motriz. Os pensamentos não mais planejavam uma vida a dois. Era só ele, ele e aquela velha estrada vazia que percorrera toda a vida.

Certo dia, saiu de casa e nunca mais voltou. Apesar das buscas de parentes e amigos jamais foi encontrado.

E nem poderia. Afinal, enquanto se arrastava inerte pelas estradas, nem ele mesmo sabia quem era ou onde se encontrava.