Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

DDA É A MÃE!

Quando se olha no espelho, você só repara nessa carapaça decadente que envolve seus músculos e órgãos desgastados, ou vai além?

Vou lhe dizer o que faço. Olho para meu rosto. Tá lá. No espelho do meu quarto. O que há atrás do olhar lânguido, das olheiras, da pele ressequida e cansada de tantas inúteis primaveras? Lá se esconde o lobo frontal. Controla minhas ações, meus movimentos, a estratégia. Se vou adiante, um passo atrás, ou se devo fincar os pés aqui. É o grande responsável. Por vezes, o grande culpado. Investi em poupança ao invés de em debêntures? Péssimo investimento? Maldito lobo frontal.

DDA é a Mãe - Crônica Humorística

Os lobos occipitais me fazem delirar. Estímulos visuais e essa coisa toda. Pegam aquela matéria monumental e entalham em minha memória. Sabe aquela morena, os cabelos revoltosos ao vento, seu caminhar como a dança de uma bailarina sob doce sinfonia? Pois é, que morena! Bendito occipital!

Há os temporais, também. E os parietais. Isso tudo junto pesa 2% do meu corpo. Mas recebe 25% do sangue que é bombeado pelo coração. Funciona a contento. Estou convencido que sim. Mas nem todos. Nem todos, eu digo. E reafirmo.

Meu terapeuta não vai com minha cara. Com a carapaça, digo. E por extensão, nem com meus lobos. Tem sempre uma doença pronta para me presentear. Parece carregar algumas na manga. Eu chego lá, digo algo, e ele saca alguma disfunção tão rápido quanto John Wayne sacava uma pistola. Psicopatologias. Não estou feliz com minha carapaça, e ele diz que tenho transtorno dismórfico corporal. Me atrapalho numa leitura qualquer, e tenho dislexia. Invejo alguma habilidade animal, e ele vem com licantropia clínica. E a última foi culpa da carteira. Na verdade, culpa da minha distração. Distração não é doença. Ou é, e eu perdi metade do filme? Onde está a carteira, eu me perguntava. Nem cá, nem ali, nem lá. Desisto. Fui ver, dentro da geladeira. Que maravilha! Contei pro tragicômico – que ideia a minha também! – e o que ele disse?

– Você tem DDA.

– Quem?

– DDA. Para ser mais exato: Distúrbio do Déficit de Atenção Sem Hiperatividade.

Pronto! Coloco a carteira na geladeira por distração, e tenho essa tal DDA. Era o que faltava. Mas até que saiu barato. Do jeito como ele me soma patologias, foi milagre me diagnosticar “SEM hiperatividade”. Tá certo que não foi exatamente um incidente isolado. Já coloquei sorvete no micro-ondas. E sou incapaz de manter uma conversa por dois minutos sem me distrair. Mas sou um homem muito ocupado. Milhões de coisas na cabeça. Turbilhões. Estresse. Essas coisas. Isso não é doença. Isso é falta de praia. Isso é falta de…

Onde eu estava?

Ah, eu falava da morena. Rebeca. Que nome! Não dá pra ter um nome desses e não ser monumental. Que morena! Um metro e setenta. Cabelos negros e esvoaçantes. Olhos grandes e magnetizantes. Que me olham. Nos olhos dela, corre um letreiro: “Eu Sei Que Seus Occipitais Estão Atordoados”. E como estão, baby! E como estão!

Jantar. Eu e ela. Tremo. Quem não tremeria? Até a chama da vela é trêmula sobre a mesa. Mas meu terapeuta disse ser fobia social. É mesmo um fanfarrão! Ela estende a mão sobre a mesa. Não toca a minha. Estende a mão e olha ao redor. Espera que eu tome a iniciativa. Isso se chama “charme”. Eu? Bem, felicidade em cada poro. Quem não estaria? Mas o terapeuta me alertou:

– Felicidade tem de ter os pés no chão, Manolo. Felicidade sem razão aparente é um dedo no gatilho.

Distúrbio bipolar. É o que ele diz. Se é invadido por alegrias sem razão, é bipolar. Terapeuta pé-no-saco. Mas não é esse o meu caso, obviamente.

Que caso?

Enfim, onde eu estava?

Ah, a receita.

É preciso primeiramente fritar o camarão e então deixar escorrer. Após isso, refogue em fogo alto com cebolinha e gengibre. Depois é só servir.

Como? Eu não lhe falei sobre a receita de camarão? No que você estava pensando na última meia hora que gastei dois litros de saliva lhe ensinando essa receita centenária de minha família?

A propósito, quem é você?

3 Comments

  1. Gostei ,esse personagem parece ser neurótico …..

  2. Laís Hariani

    17 abril, 2014 at 15:00

    esse foi uns dos textos que mais gostei. Tem um toque de loucura, e ao mesmo tempo logica.

  3. Sou encantada com quem consegue colocar humor nos escritos e você arrebentou. Chorei de rir.
    Poderia dar umas dicas.

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