Quando a gente se assusta com a própria imagem no vidro do armário de cozinha, é porque já passou da hora de mudar de vida.

Com Sandra Dakota, não seria diferente. Morava sozinha. Sem marido, sem prole, sem família. Parentes, devia ter alguns. Que moravam na mesma cidade, talvez dois. Certeza de estar vivo, só um. A não ser que morrera nos últimos dois meses, desde o último dia em que se encontraram na rua, e trocaram um “Oi” obrigatório, quando não conseguiram se fingir de despercebidos. O que era mesmo? Um primo? Provável. Nome? Aí já era pedir demais.

Seu emprego: uma cela. Um cubículo onde se espremia entre dois seres de planetas diferentes. Os dois conversavam entre si. Mas ela nunca opinava. E o que opinar? Conversa de homem não tem consistência, dizia. Questão de honra, orgulho pessoal, não participava nelas. Nem um comentário. Nem para dizer que estava ali, que tinha um parecer, que discordava do que diziam. Falavam sobre futebol e mulheres. Às vezes, pra variar, falavam de mulheres e futebol. De futebol, ela só entendia o que era gol. E isso quando o locutor esgoelava. De mulher, entendia tudo, mas nada do que interessaria aos dois depravados.

E os seres extraterrestres eram fumantes. Quando retornavam da “pausa para o cigarrinho”, estavam envoltos no fedor que embrulhava seu estômago. Isto, por sua vez, a obrigava à “pausa para o oxigênio”. Os dois seres, quando não falavam, nem fumavam, apenas tossiam. Mas ela preferia tosses à conversa vazia. Tosses lhe afagavam os ouvidos como sinfonia.

Quanto ao chefe, ele era uma figura ausente. Distante do estereótipo de patrão psicótico, irritadiço com cada palpitação da sua classe subalterna. Fechava-se em sua sala, e fechava-se, invariavelmente, em si mesmo. Falava pouco. Nem o essencial. E quando nem o essencial vem à tona, tudo vai mal. Inclusive a empresa.

Quanto a ela, sentia-se só. Aquela sensação de inutilidade. A vida se esvaindo aos poucos, para torturar. Quando se é jovem, tudo é eterno. Dizem que faz parte do crescimento. Besteira! Quem cresce com puerilidades, estagna-se, mente torpe, disfunção da percepção da realidade. Perda de tempo. Quando se percebe que nada é eterno, aí a foice já chegou no pescoço. Era a sensação que a envolvia. A foice estava ali, começando a romper os tecidos. Logo logo, atingiria os esterno-mastóides, artéria carótida, a veia jugular. Ela não gostava de pensar nisso. Na brevidade de sua vida – vida breve. Nem nessas símiles e metáforas horripilantes. Mas não tinha jeito. Um dia ou outro, ela sentia que estava morrendo, embora tivesse a teimosa e desagradável impressão de que ainda não havia nascido.

Ela decidiu mudar de vida no dia em que a luz acabou. Estava diante do espelho, escolhendo a cor do batom. Sairia. Sozinha, que fosse. Mas sairia. Bastavam os dias enclausurada naquele cubículo, entupindo-se do fedor do cigarro. Hoje, ela sairia. Um presente para si mesma. Por isso, escolheu a cor do batom. E então… o escuro a envolveu. Praguejou. Acabar a luz logo agora? Caminhou pela casa. Apalpando. Batente. Parede. Estante. Outro batente. Pia. Gaveta. Velas. Pia. Fogão. Fósforos. Uma tentativa, e o fósforo ignescente. Quando acendeu a vela, viu sua imagem refletida no vidro do armário de cozinha. Tomou um susto. A surpresa do momento. E do movimento. A imagem distorcida, refletida, contornada pelos tons laranjas, e provocando um vermelhidão nos olhos. As sombras que se depositavam artisticamente em volta dos olhos, sobre o nariz, pouco acima do lábio superior, fizeram-na ver um monstro. Mas não era exatamente um monstro.

Era ela.

E quando a gente se assusta com a própria imagem no vidro do armário de cozinha, é porque já passou da hora de mudar de vida.

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Meditara muito durante a noite. E a conclusão lhe veio, submissa: mudar de vida. Não parecia ser tão simples, é verdade. Mas, que droga! Coisas simples não são exatamente conquistas. No máximo, são dádivas. Por isso, precisaria se esforçar. E a primeira coisa a mudar, era sua atitude.

Chegou ao serviço no dia seguinte, dessa vez, uma hora adiantada. Estava produzida como nunca antes. Arrumara-se como se estivesse indo para o primeiro encontro. O costumeiro batom coligiu com rímel, delineador, e um blush em tom mais terroso – segundo ela, para criar profundidade. Soltou os cabelos. Trocou o tamanco por salto alto. A miçanga multicolorida comprada de um hippie deu lugar à gargantilha de prata. Seu perfume esbarrava nas paredes, e produzia um eco olente para sua grata satisfação. Trocou o caminhar arrastado e displicente de colegial, pelo de uma mulher segura de si. Trocou o olhar lânguido por outro fatal, que não usava havia anos (se é que uma vez o usara).

Na empresa, deu sequência à sua determinação. Após mudar de atitude, precisava mudar de ambiente. Chegou à porta do cubículo. Paralisou-se – como uma sobrevivente do holocausto diante de uma desativada câmara de gás Zyklon B. Ali dentro, deixara verter a intensidade de sua vida. Cinco anos. Cinco malditos anos! Como ainda lhe restava fôlego para continuar? Difícil responder, pensou. Para entrar ali, precisaria de fôlego renovado. Respiração diafragmática. Você consegue! Um passo, depois outro, e estava dentro. Arrastou a pequena mesa e o computador para a sala do chefe. Também levou todas suas coisas. Finalizada a tarefa, suspirou cansada. Nessa hora, desesperou-se. A aparência! Por Deus, isso não! Procurou o espelho na bolsa, tremendo como um alcoólatra em abstemia. Enfim, o espelho. Ufa! Intacta. Sem sequer pontos de suor lhe aflorando à pele. Ainda assim, garantiu-se, e retocou a maquiagem.

Ao chegar, o chefe, pura surpresa. Que faz aqui?, perguntou ele. Ela simplesmente se levantou e foi até ele. Passou as unhas – e somente as unhas – sob o queixo do chefe aturdido – agora, com cada centímetro da pele arrepiado –, e exclamou:

– Vou te ajudar a ganhar dinheiro como nunca antes, bebê.

E ajudou. Na verdade, fez tudo sozinha. Mas usou o “ajudar” para fazê-lo sentir-se dono das mudanças que nasceram na empresa, a partir daquele dia – os homens, ela dizia, precisam sentir-se dono das ideias, ou simplesmente se opõem a elas. Arrogância imbecil, fazer o quê? Por isso, desta vez, deu-lhe o crédito. Mudou a decoração, funcionários, política empresarial, política econômica. Até pensou em mudar o chefe, mas isso ainda estava fora da sua alçada.

O rendimento da empresa cresceu. Duplicou. Triplicou. No fim do ano, decidiu cursar uma faculdade. No embalo, curso de línguas. Uma, outra, e ainda outra. Quatro anos depois, comprou a sociedade da empresa. As vendas para todo o estado viraram vendas para todo o país; estas se equalizaram, enfim, em exportações. Chineses ao telefone todos os dias. Viagens. Sandra Dakota na capa de revistas. Prêmios. Entrevistas. Em uma delas, foi-lhe perguntado:

– E qual a razão de tanto sucesso em sua carreira profissional?

Pensou antes de responder. Pensou muito, a propósito. Costumava ser direta. Desta vez, porém, pensou durante 15 segundos. Quando respondeu, a sinceridade lhe aflorava a pele:

– Às vezes, para conseguir nos enxergar, a gente precisa que falte a luz elétrica.

Ninguém nunca entendeu.

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