Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

PRIMEIRO ENCONTRO

No seu primeiro encontro romântico com uma garota, levou junto a mãe. Rapaz criado sob os mimos da mãe viúva e de duas tias solteironas, não se sentia seguro nem para assinar o próprio nome. A ausência de qualquer uma das três figuras femininas fazia com que Alfredo perdesse até a fala.

A independente Paloma, que se produzira para o grande encontro com tamanha vivacidade, agora olhava para a cena berrante com uma estranheza perturbadora.

– Oi Paloma, essa é minha mamãe.

Após uma eternidade para recuperar o fôlego, Paloma manteve o decoro e não tocou no assunto. Trocou dois beijinhos com o Alfredo, dois beijinhos com a mãe e se sentou à mesa do restaurante. Durante o jantar, a mãe, sob os tufos de cabelos brancos e uma pele desgastada, falava sem parar. Até de boca cheia. Falava sobre receitas, o clima, a violência da cidade, e sobre cada um dos programas de TV, desde os Bom Dia Qualquer Coisa até os Boa Noite Coisa Qualquer.

Crônica - Primeiro Encontro

Em dado momento, a mãe foi ao banheiro. Delicada como uma duquesa, disse sem rodeios:

– Dá licencinha que vou ali no banheiro dar uma urinadinha, mas já volto. Vocês esperem eu voltar pra conversar que não quero perder nadinha. – Era só o que faltava.

Foi só a figura embalsamada desaparecer, e Paloma disse entre dentes:

– Alfredo, você tá louco? Por que você trouxe sua mãe no nosso encontro?

– Ah, Paloma, me desculpe, mas eu não podia deixar a mamãe em casa. Ela tem medo de ficar sozinha.

– Medo de ficar sozinha? Medo de ficar sozinha? E o que eu tenho a ver com isso?

– Mas, o que você queria que eu fizesse?

– Eu queria que… – Falar e bufar são duas coisas difíceis de se fazer ao mesmo tempo. – Eu queria que você tivesse feito qualquer coisa, qualquer coisa: deixado ela sozinha, levado ela pra casa do vizinho, acertado ela com uma pá e enterrado no fundo do quintal, menos ter trazido ela com você pro nosso encontro.

– Puxa, Paloma. Como você é insensível. Até parece que nunca teve uma mamãe.

– Para, para. Ela não é sua “mamãe”.

– Como não?

– Ela é sua “mãe”. Você já tá crescidinho demais pra ficar com essa de “mamãe” daqui, “mamãe” dali.

– Na verdade, eu costumo chamar ela de “mamãezinha”, mas achei que você ia me achar meio infantil.

– Oh, você infantil? Imagina, Alfredo! Um homem que traz a “mamãe” num primeiro encontro não tem nada de infantil.

– Eu não gosto desse seu cinismo.

– Homens infantis fazem outras coisas: fazem xixi no penico, usam shampoo de bebê, e só dormem com a luz acesa.

Alfredo ficou embaraçado. Tentou desviar os olhos, mas o encabulamento o entregou.

– Eu não acredito, Alfredo. Eu não acredito. Qual dessas três coisas você faz ainda?

– Ééé…

– Todas elas

– Não, todas não. Eu não durmo com a luz acesa. Porque a luz incomoda a mamãe.

– O quê??? Você dorme com sua mãe?

– E com as minhas tias, também. Mas por elas, poderia deixar a luz acesa.

– Com as suas…? Não, não. Pra mim, chega. Adeus.

– Paloma, espera. Espera.

Apesar das súplicas de Alfredo, ela se levanta e desaparece de sua vista.

Quando a mãe volta, percebe o filho sozinho e triste, e pergunta:

– Que foi, meu bebê? Que cara é essa?

– Mamãe, tenho uma notícia triste pra te dar. A Paloma terminou com a gente.


SOBRE O AUTOR

Juliano Martinz é escritor, biógrafo e criador do site Literatura Corrosiva.

24 Comments

  1. Mendigo

    at

    kkkkkkkk ,muito bom !

  2. Nathália

    at

    hauahuahuahauhauhauhauahauahauahauhaauh A última frase fechou com chave de ouro kkkkkkkkkkkkkkk
    Perfeito!!! Parabéns!!!!

  3. ana carla

    at

    nossa parabéns muito criativa a sua cronica . Adoreii!!!!

  4. karina

    at

    qual o autor??
    muito legal amei a cronica me ajudou mt para o meu trabalho

  5. marciela soares

    at

    Perfeito!!!
    Adorei esse texto…

  6. warne kennedy

    at

    Uma das melhores que já li. Muito bom mesmo.

  7. Emanuel

    at

    Muito boa,usarei em trebalho escolar,haha,valeu. :}

  8. Maria Fernanda

    at

    Nossa, amei, muito legal o texto, PARABÉNS! Me ajudou muito em um trabalho escolar…

  9. ZAYNE

    at

    KKKKKK TAVA PESQUISANDO UMA CRONICA HUMORISTA PARA A ESCOLA E ACABEI DE ENCONTRA KKKKKK

  10. Isaac Ferrer

    at

    Bem amarrada, criativa, parabéns!

  11. Gabriela P.

    at

    Ameei ! bem criativo , amanha tenho prova de seleçao vou basear minha cronica na sua !! bjs

  12. flavia alessandra

    at

    muito boa amei

  13. mila

    at

    Nunca ri tanto toda minha vida. kkkk. Excelente!

  14. Bruna

    at

    Adorei!!!

  15. ana ligia

    at

    achei muito engraçado a mae falar vou dar uma mijadinha kkkk

  16. Isadora Da Cruz Fonseca

    at

    Gostei bastante dessa crônica!!! Me ajudará bastante no trabalho da escola. Alguém pode me dizer qual a crítica que essa crônica faz? Ajuda por favor

  17. Marcio Roberto Lins Costa

    at

    Ótima Crônica, valeu!

  18. Rhimom

    at

    É… não me tirou risos, mas você escreve bem. Ou talvez eu não tenha senso de humor.

  19. Paty

    at

    Eu amei esse texto.É um dos melhores que eu já li😂😂😂😂

  20. Paty

    at

    😂😂😂a última frase como já disseram,fechou com chave de ouro kkk
    Sem palavras,sem palavras👏👏👏

  21. Milena emanuele batista do remedio

    at

    😂😂😂😂😂 a última frase eu gostei kkkkkkk

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