Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Sismo em Pandora

É o que conta a história: no dia 31 de dezembro de 1980, houve um pequeno tremor de terra na pacata Pandora. Algo similar, dizem os moradores, nunca se ouvira falar. E tal tremor jamais se repetiu. É o que conta a história: no dia 31 de dezembro de 1980, houve um pequeno tremor de terra na pacata Pandora. Algo similar, dizem os moradores, nunca se ouvira falar. E tal tremor jamais se repetiu.

Naquele dia, toda Pandora tremeu. Nada que provocasse estragos gigantescos, danos irreparáveis, muito menos, pessoas feridas. As consequências mais acentuadas do tremor foram bibelôs despencando de estantes, algumas garrafas de champagne estourando antes da virada do ano, além da aceleração cardíaca dos seus 15.000 habitantes. Fora isso, nada de mais grave.

Mas o dia entrou para a história. Ficou registrado na mente daqueles que vivenciaram terríveis segundos de grande sobressalto. Para muitos, foi definitivamente “assustador”, o que fez com que alguns mais fanáticos anunciassem o fim do mundo.

Mas o mundo não acabou, então. Tampouco Pandora – aos poucos, a cidade voltou à sua rotina: lenta, pacata e deprimente.

O tremor de terra ocorrido na cidade de Pandora, conforme os registros do Instituto do Epicentro Nacional, durou menos de um minuto. Ocorreu no dia 31 de dezembro de 1980, precisamente às 14h07.


No dia 31 de dezembro de 1980, às 14h07, o bebê Alfredo da Silva Lopes Filho abriu sua boca, após a incisiva palmada do médico em seu traseiro rechonchudo. Diante disso, o pequenino Alfredo berrou com todo seu vigor, forçando seu pulmão a começar a trabalhar. Havia tanto intensidade em seu grito que o médico e enfermeira se assustaram. O bebê chorava com grande vigor, e seus gritos ecoavam pelos corredores.

E foi bem neste momento que o médico, que ainda segurava o bebê pelos pés, apertou-os com força. Foi um aperto inconsciente assim que percebeu que toda a sala de cirurgia começava a tremer. O médico, assustado, protegeu o bebê Alfredo em seu braço forte, ao mesmo tempo em que usou a outra mão para se agarrar à cama onde repousava uma esgotada nova mamãe. Todos na sala de cirurgia balançavam com suaves solavancos, como se estivessem a bordo de um navio em águas calmas.

A enfermeira gritou apavorada dizendo que todos morreriam. A mãe só insistia para que protegessem seu bebê. E o médico não conseguiu pensar em nada inteligente para dizer naquela situação.

De repente, o terremoto parou. Encerrou-se de forma tão súbita quanto surgira na vida daquelas personagens.

Houve um silêncio entre todas as figuras dentro da sala cirúrgica. Como se todos aguardassem por mais uma onda sísmica. Mas, nada aconteceu. Apenas silêncio. E foi justamente este silêncio que chamou a atenção do médico. Onde estavam os gritos estridentes do bebê que ele segurava?

Foi então que o médico percebeu. O tal balanço misterioso da terra acabara servindo de embalo para o pequeno bebê. Como se estivesse sendo ninado, o pequenino Alfredo parou de chorar e, neste momento, estava devidamente mergulhado em um sono tranquilo e sereno.

1 Comment

  1. Lilian Ferraz

    27 junho, 2019 at 12:15

    Um interessante entrelaçamento entre o tremor, singular, e o grito estridente do bebê, que combinou com um “embalo” que levou ao silêncio e calma que dominava a cidade até então… uma ótima linha construtiva literária. Parabéns

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