Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Coelho Efervescente

Noite passada, tive um sonho. Andava sobre duas pernas. Comia uma coisa amarela retirada de um pacote barulhento. Eu tinha um semblante caótico. Não, não foi um sonho. Era um pesadelo. No pesadelo, eu era humano

Chego do trabalho. Cansado. Mas grato. São poucos os leporídeos com as oportunidades que alcancei. Abraço Mila, minha esposa. Sinto sua pelagem grossa e macia que me afaga ternamente. Ela preparava o jantar: ensopado de trevo e capim – meu favorito. Ela deixa a panela e se senta ao meu lado, no momento em que descanso meu corpo latente no sofá.

– Como foi seu dia? – ela pergunta.

– Normal. – Isto significa, bom. Muito bom.

– Tenho novidades.

– Mesmo?Coelho efervescente

Arght.

Levanto a pata, sinalizando silêncio.

– O que foi? – Ela pergunta.

– Ouvi um barulho estranho.

– Onde?

– Agora. Veio ali, de fora.

– É a terceira vez, hoje.

Olho para a porta. Posso confiar em minha audição apurada? Ela me trai. Mas pelo que minha esposa disse, não parece ser uma simples impressão.

Mila diz, atrás de mim, voz trêmula:

– Melhor dar uma olhada.

Acato sua sugestão. O centro do mundo não está tão longe assim. O velho alerta encefálico.

Pata ante pata, lentamente chego à porta.

Assim que a abro, vejo um vulto nobre, intenso e cálido. Um vulto vermelho que desaparece logo em seguida, na imensidão da escuridão que deixei para trás.

Fecho a porta. Estou tenso.

– Quem era? – Mila.

– Não sei. Não era dos nossos.

– Nossos?

– Lagomorfos.

– Mas…

– Não sei. Foi muito rápido. Só vi um vulto. Ele tinha calor. Era vermelho. E tinha muito calor.

– Você está me assustando.

Volto a sentar ao seu lado.

Ergo as duas patas sinalizando “deixa pra lá”.

– Me conta.

– O quê?

– A novidade.

– Eu…

Subitamente, ela fica em silêncio. Olhos estáticos. Estranho silêncio. A boca prenunciando movimentos metálicos. O horror no grunhido vocálico.

– Mila!

Ela não responde.

Vejo o horror em seu rosto. Vejo…

Haharg. Harghh… – o som atrás de mim.

Agora, reconheço. É um regougar.

Não há tempo para me virar. Nem correr. Apenas contemplar a fração ínfima da vida restante.

A raposa avança sobre meu corpo e me dilacera.

No último instante, não me preocupei com a dor, ou com Mila, ou com qual era a novidade.

Mas deu um aperto no coração saber que não provaria aquele ensopado de trevo e capim.

4 Comments

  1. Muito bom kkkkkkk

  2. Luiz Henrique

    24 março, 2017 at 22:07

    hahaaaaa gostei!

  3. Qual editora e onde essa crônica foi escrita “cidade”?

  4. Fantástico!

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