Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

TEUS MEDOS, MEUS MEDOS

Contos crônicas sobre o medo - Humor

Foto: George Crux

Medo é contagioso. Contagia como um inferno. Pelo menos em casos como o meu, em que minha coragem já possui baixíssima imunidade. Dizem que compartilhar seus medos pode lhe fazer trazer benefícios. Pelo contrário, faz com que o outro se sinta pior. Há pessoas que se ouvirem sobre uma remota possibilidade de um meteorito cair sobre sua cabeça, passarão o resto do dia a vigiar o céu, de 5 em 5 minutos.

Foi assim comigo, dezembro passado, espremido entre um trêmulo oriental e a pequenina janela do avião. Procurava me ajeitar no espaço reduzido para um cochilo tranquilo, quando o sujeitinho do lado pronunciou a maldita frase:

– Essa porcaria vai cair.

Um homem-bomba? Olhei de lado e vi que o coitado estava se borrando. Percebendo logo que não se tratava de um suicida, perguntei:

– Primeira vez?

– Tô mais preocupado se vai ser a última.

Procurei sorrir e confortá-lo:

– Relaxa. Viajar de avião é mais seguro que andar de carro ou a pé.

– Ah é? Caiu um  semana passada, você viu?

– Sim. Dos mais de 500 mil que levantaram voo naquele dia – Chutei uma estatística qualquer.

– De que adianta 499.999 chegarem ao destino, se o MEU resolver cair?

Eu dei risada e completei:

– Ei, não seja egoísta. Não é seu, é NOSSO avião. Se você se esborrachar, eu vou junto.

Ri novamente, mas ele não achou graça. Ficou me olhando com uma expressão reprovadora pela piada fora de hora, e o que me restou foi ficar com aquela expressão tosca. Tratei de voltar logo ao campo da conversa séria:

– Escute. Procure respirar fundo, e mantenha a mente em coisas positivas. Você é casado?

– Quer saber se vou deixar viúva?

– Ei cara, não exagere. Escute: é normal sentir medo. Você precisa apenas controlá-lo. Feche os olhos e…

– Fechar os olhos? Só falta me pedir pra dormir.

– Não seria uma má ideia.

– Sabia que a dor é maior quando você sofre um impacto enquanto está dormindo?

– Não.

– Quando você está acordado, e sofre uma lesão, você contrai os músculos, e isso minimiza a dor. Dormindo, além do susto, você está com os músculos relaxados e isso intensifica o sofrimento. Se for pra me esfarelar lá embaixo, quero estar de olhos bem abertos.

– Mas se você virar pedaços enquanto está dormindo, nem dará tempo de sentir dor.

Ele se inclinou pro meu lado e sussurrou, como se estivesse contando um segredo, a voz lúgubre:

– O cérebro continua enviando sinais de dor por alguns segundos. Você sofre como um porco sendo esquartejado por um machado.

– Onde você ouviu isso?

– Um programa lá sobre essas coisas de cérebro e tals. Tinha um médico dessas coisas lá falando isso.

De repente, perdi a vontade dormir.

Instantes depois, ele continuou:

– Olha como ele balança.

– Mas isso é a turbulência.

– Mas tá balançando demais. Isso não é normal.

– Será?

– Eu vi uma pesquisa não sei aonde dum cara lá que falou que não sei porque que balança e cai. E o cara era especialista.

– Especialista em…?

– Ah, nesses troços de avião.

– Era mesmo?

PhD.

– Putz.

Foram 20 minutos, os mais longos de minha vida, até que para meu alívio e sobrevivência de todos,  o avião pousou sem problemas. Na saída, o japa atormentado ainda arrematou:

– É, dessa vez escapamos.  – E pela primeira vez em nosso desagradável encontro, sorriu. Eu –  sério como um búfalo.

O psicótico deve ter ido pegar um táxi, pela expressão de alívio. Quanto a mim, ainda tinha que pegar uma conexão. E as palavras do cidadão me acompanhavam.

Na outra aeronave, já acomodado, não estava com sono, nem com vontade ler, ou qualquer coisa que o valha. Assim que levantamos voo, olhei para um tranquilo senhor, sentado ao meu lado. Percebendo que eu não estava lá muito bem, ele me perguntou:

– Está com algum problema, filho?

Após engolir em seco, arrematei:

– Não sei não, cara. Mas acho que essa porcaria vai cair.

8 Comments

  1. Joao Luiz Lima

    20 outubro, 2011 at 22:05

    Não é querendo ser chato não mas, no final eu ri pra caramba!! kkkk
    Ótimo texto! Carry on!

  2. Wérlen M. dos Santos

    23 outubro, 2011 at 18:24

    Muito bom seu texto.
    Dei boas risadas.

  3. Kkkkkkkkk muito engraçado

  4. Muito boa crôncina….

  5. muito legal essa cronica

  6. Excelente! Amo crônicas! Parabéns!

  7. Kkkkkk! Multo show!

1 Pingback

  1. TEMPO | Corrosiva

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