Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

O Conquistador

Contos e crônicas de humor sobre conquistadores

Foto: Ramzi Hashisho

Decidiu comprar um livro sobre como conquistar as mulheres. Taciturno, tortuoso, não lidava bem com elas. O pai, machista, o ensinara a tratá-las na base do tapa. A irmã, feminista, o ensinara a dizer sim para tudo o que elas dissessem. E até hoje, 35 anos nas costas, não fora capaz de conquistar um grande amor. Ao inferno com conselhos de pai e irmã.

Comprou o livro de um especialista. “O Conquistador”, de Michelin Lucká. Que nome! Que sobrenome! 1048 páginas de sapiência amorosa derramado por cada entrelinha. Pulou o prefácio. Prefácios nunca dizem nada. Só enchem páginas, tomam tempo, e enriquecem escritores. Não tinha tempo a perder. Afinal, era um desesperado ansioso por colher cada conselho randômico ali distribuído, que mudaria sua vida amorosa por completo.  ALL e DLL – Antes (e Depois) de Ler o Livro. Sua vida seria assim demarcada. Cobriu as páginas com uma voracidade selvagem em dois dias. Salivou a cada conselho, a cada página que o conduziria a uma nova existência.

No terceiro dia, estava pronto. No terceiro dia, foi a caça…

O especialista dissera: “Vista-se bem. Confira. Reconfira. Peça opiniões. Mulheres gostam de homens que se vestem bem. Se for pra sair com alguma camisa amarelo-cagado que seu avô te deu ano passado, fique em casa e vá assistir TV. Lembre-se: Vista-se muito bem”.  Patético até o osso, foi à balada de terno.

No bar, chegou balançando os braços. Isso demonstra segurança, dissera o especialista. Nada de mãos no bolso, movimentos curtos, passos miúdos. Isso é coisa de frouxo. Machos dominantes se movimentam exagerada e desnecessariamente.

Parecendo mais um boneco biruta de posto de combustível, chegou ao balcão e pediu uma bebida. Gritou, na verdade. Lembrava-se do que havia lido: “Perdedores falam pra dentro. Vivem fazendo as pessoas dizerem: hã? quê? como?”  Por garantia, esgoelou ao pedir um martíni.

Deu mais umas balançadas epilépticas e olhou de lado, para uma morena arrebatadora. Tinha olhos flamejantes pra burro, pensou. Um inferno de bonita. Daquelas que fazem o cara esquecer toda a lição de casa. Mas conseguiu se lembrar do conselho: “Sempre faça barulho. Quando falar, grite. Quando pensar, grunha. Quando bocejar, gema. Quando não estiver fazendo nenhuma dessas coisas, comece a batucar uma mesa, balcão ou o que estiver na frente”.

Coçou a cabeça, e gemeu; coçou o saco e grunhiu; se espreguiçou, e atroou um longo “ooouuuuuuuuuaaaaaaaiiiiiiaaaaaaaiiiii” bem rouco, parecendo um javali dominante da floresta. Olhou para a morena – correção: morenaça -, tentando imitar o olhar de James Bond.

“No primeiro contato que tiver com uma mulher, nunca diga ‘oi’. Isso é coisa de perdedor. Fale no mínimo 3 ou 4 palavras. Fale frases. Mulheres gostam de homens que falam frases. Nada de interjeições imbecis. Se for pra ficar na base do ‘legal, uhum, puxa, q coisa’, melhor voltar pra casa e comer farinha láctea”. 

– E aí, gata, que que rola?

– Quê???

“Se a mulher perguntar ‘quê?’ com uma expressão de quem acabou de presenciar alguém vomitando, suas chances estão no fim. Se quiser continuar vá em frente – já lidei com muitos idiotas teimosos como você -, mas vou avisando: nesse ritmo, acho melhor ligar pra sua mamãe e pedir pra voltar a morar com ela”. 

– Posso te pagar uma bebida?

– Eu já tenho uma – disse, apontando para o copo, evidentemente desinteressada ou fazendo tipinho. Sinceramente? Ela não estava fazendo tipinho.

Lembrou-se que o especialista havia dito sobre fazer as mulheres rirem. Mulheres gostam de caras que as façam rir. Uma sacada engraçada era o que ele precisava agora.

– Pois eu ainda não tenho uma bebida. Me paga uma? – E riu. Ele, claro. Ela, séria.

“Se você fizer uma piada e a mulher fizer uma expressão de búfalo em época de seca, com o sol a pino, em pleno verão africano, pode levar este livro de volta na livraria e pedir reembolso. Trabalho com perdedores, mas você já passou da conta”. 

Mas ele não estava a fim de se entregar tão facilmente. Tinha nas mangas um grande trunfo, o grande conselho do sábio que lhe dera forças para estar ali. “Seja sincero. Isto derrete o coração de qualquer durona”.

– Escute, eu… eu não sei lidar muito bem com as mulheres, entende? Até comprei um livro pra aprender um pouco sobre a arte da sedução, mas confesso, acho que não levo jeito pro negócio. A única coisa que sei é que você é de longe a mulher mais linda dentro deste bar, e se for pra levar um fora, quero levar um fora seu.

Ela sorriu. Pensou no que dizer. Isso é bom. “Mulheres quando pensam no que vão dizer é sinal de que…”. De que…? de que…? Ah, dane-se. É sinal de alguma coisa.

– Escute querido. Se está aplicando o conselho de algum especialista, te aconselho a trocar de escritor. Esse aí com certeza é charlatão. – E voltou-se para a bebida.

Quanto a ele, magoado, voltou pra casa. Ainda sozinho. Ainda solitário. Para o dia de amanhã, não sabia muitas coisas, nem tinha esperanças. Mas ao menos tinha duas certezas.

Iria à livraria para devolver o livro; e no caminho de volta, aproveitaria pra comprar mais uma lata de farinha láctea.


SOBRE O AUTOR

Juliano Martinz é escritor, biógrafo e criador do site Literatura Corrosiva.

11 Comments

  1. Mauricio Santos de Jesus

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    kkkkk cara ri muito na parte “Mulheres quando pensam no que vão dizer é sinal de que…”. De que…? de que…? Ah, dane-se. É sinal de alguma coisa. D+!CARA VC TEM O DOM!!kkkk

  2. Fernando Ambrosio

    at

    Muito obrigado, amigo. VOu usar essas dicas hoje mesmo

  3. Isaac Ferrer

    at

    Genial!!! Maravilhoso, porém, o finalzinho…
    Parabéns!

  4. Silvio Xavier

    at

    Gosto muito de ler crônicas, principalmente essas que parece que vai terminar com algum lance espetacular e acaba terminando de um modo bem simples, assim como na vida acontece.

  5. Ingrit Silva Sampaio

    at

    Kkkk…. adorei…. Pior que eu já vi isso….. triste…. kkkk

  6. David Smith

    at

    Apesar de ter gostado, achei que iria surpreender no final, pois o lance da sinceridade foi como marcar um gol decisivo no final do segundo tempo, pois tudo anterior a isso iria levá-lo inevitavelmente a ir comer farinha láctea na casa da mãe dele (previsível), mas seria arrebatado à glória, com a última tentativa usando a estratégia da sinceridade e, entre nós, o elogio realmente mexeria com um coração feminino.

    Gostei bastante das analogias… rsrsrsrs… Parabéns!!

  7. convitevip

    at

    Gostei muito do texto, parabéns me surpreendeu com o fim simples e rotineiro da vida deste pobre Taciturno, tortuoso. Aprendemos ao menos que algo sempre funciona a sinceridade e o respeito. A final, respeito gera respeito!

  8. Vivi Chanel

    at

    Excelente crônica.
    Se me permite, a opinião de uma mulher que tem 27 anos de praia é que o homem que sabe conquistar uma mulher é definitivamente o homem que tem atitude, iniciativa, que é esperto, saca as coisas, tem a sensibilidade de perceber o terreno em que está pisando, e que fala as coisas certas na hora certa. Independentemente da sua aparência, por que quando o cara age como Homem com H maiúsculo, nenhuma mulher presta atenção se a cor dos olhos, pele ou cabelo dele não são de sua preferência!
    Beijos…

  9. Glória

    at

    Confessa, Juliano, que também leu “O Conquistador” e que tem tirado maior proveito dele do que o seu pesonagem, principalmente no quesito “fazer as mulheres rirem”….rsrsrs. Muito boa!

  10. Nellorien Kalyonir

    at

    Tenho amigos que se identificariam com o texto! Parabéns, muito bem escrito.

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