Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

O ÚLTIMO DIA DE VIDA DE LEVI ANTUNES – Parte III

– Quando eu era criança, eu tinha um sonho: salvar o mundo.

Laura se sentiu melhor ao ser trazido à sua atenção, o fato de que aquela estranha figura, um dia, já fora uma criança. Por pouco tempo, afinal. Perdera a infância antes que pudesse começar a desfrutá-la. Antes que pudesse se entender, se definir, existir e coexistir. Perdera os pais num incêndio. Dali, uma criança traumatizada. Medo de tudo, e do nada. Dificuldade em se relacionar. Queimaduras em todo o corpo. Queimaduras em cada desejo. Desde então, tinha pesadelos recorrentes. Sempre incêndios. Fogo. Sua camiseta branca amalgamando-se com a pele frita. A fumaça cinza da sua carne lhe vedando as narinas. Ele buscara por ar naquele dia, como o buscara em cada dia vivido desde então.

– Para uma criança, tudo pode ser resolvido. Tudo será resolvido. Até que o mundo resolve nos mostrar sua verdadeira face. E os super-heróis voltam para os quadrinhos. – Era quase um homem poético, mas no fim, era apenas um homem atormentado. – Qual o seu maior medo? – perguntou, do nada.

Laura olhou ao redor. Uma lanchonete. Mesa para dois. Um sanduíche para cada. O que estava fazendo ali, afinal? Respirou.

– Acho que o medo da maioria das pessoas. Medo de não ser feliz, de não realizar meus sonhos.

– Eles estão interligados?

– Eles?

– O sonho e a felicidade.

– Sim, acho que sim. Acho que são uma coisa só.

– Tem medo da morte?

– Quem não tem?

Ele sorriu. Um sorriso estranho. Tudo o que vinha dele era estranho.

Ela:

– Você falou que sonhou com o incêndio. Mas não era exatamente esse incêndio, era?

– Faz diferença?

– Você disse que sempre tem pesadelos desde que seus pais…

– Você estava no sonho.

– Eu?

– Não era você, exatamente. Mas era você. – Ele deu uma pausa. Olhou ao redor. Na verdade, olhava para si mesmo. – No dia do incêndio, em que perdi meus pais, fui arrancado de dentro da casa por um bombeiro. Eu não me lembro do rosto dele. Nem sei se usava capacete, se tinha barba, não me lembro sequer se era homem. A única coisa que me lembro era de uma garota, no meio da multidão do lado de fora, que nos olhava. Me olhava. Devia ter minha idade. Era loira como você. Tinha olhos claros como o seu. E parecia assustada, como você. Desde então, passei a ter pesadelos com incêndios, e garota sempre está lá. Sempre. Até hoje. Como se quisesse me ajudar. Como se quisesse fazer toda a diferença. – Ele parou. Talvez, lágrimas em seus olhos. Talvez… – Você não é exatamente a garota do sonho, mas… eu sei que é você.

– Eu não posso salvar ninguém. Não consegui salvar ninguém hoje.

– O que você poderia fazer afinal?

– Eu não sei.

– A gente sempre tenta se perdoar. É uma reação natural, uma defesa. Quem não se perdoa, se apaga de uma vez.

– Eu também sonhei com esse incêndio essa noite.

– Esse?

– Sim. O incêndio no shopping.

– Milhões de pessoas sonharam com incêndio essa noite. Outras com maremotos, ou terremotos. Algumas sonharam que tinham superpoderes, que ganharam na loteria, que eram meio gente, meio animal.

– Só uma coincidência?

– Como tantas outras que ainda teremos de encarar.

Ficaram em silêncio. Observando-se mutuamente. De repente, ele, Levi, já não era tão assustador. Talvez fosse apenas o assustado. A criança que acorda dum pesadelo, e se descobre sozinha num quarto escuro, sem coragem de levantar, ou de chamar pelos pais. Talvez ele fosse como ela, e estivesse apenas a procura de um pouco de ar para respirar. Agora, ela sabia, não havia o que temer.

Então, de forma espontânea, Laura lhe sorriu.

Quando viu aquele sorriso, Levi pensou: Ainda há belezas nesse mundo a espera de serem descobertas.

Depois de se despedirem, Levi voltou ao apartamento onde morava. O ar estagnado ali dentro fê-lo enjoar. Caminhou até seu quarto. Um caminho longo para uma vida tão curta. A carta de despedida estava ali. Repousava. Olhava para ele, abria os braços e perguntava: E agora, Levi, o que você fará? Pensou em Laura. Pensou no seu sorriso – o mais lindo que já vira em sua vida. Pensou no ar que sentira entrar em seus pulmões. Talvez devesse dar um tempo para que o universo lhe brindasse alguma saída. Alguma opção. Sabia muito bem que não fora assim que esse conto começara. Não era assim que deveria terminar. Mas ele era livre, e tomaria as suas próprias decisões.

Voltou a se olhar no espelho.

Experimentou um sorriso.

Gostou do que viu.

E arrematou:

– Daqui pra frente é comigo!

F I M

1 Comment

  1. Laís Hariani

    17 abril, 2014 at 15:38

    Linda

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

© 2016 Corrosiva

Theme by Anders NorenUp ↑