Escritora compulsiva e com um acúmulo de distúrbios emocionais, tinha o hábito de começar a escrever seus livros sempre com uma frase trágica. Independente do desenrolar da história, a primeira frase, precisava de um impacto lúgubre. Sempre fora assim. Possuía 7 romances publicados, todos com o desencanto no princípio. Como sua vida, diria.
Numa certa manhã, fria como o inferno, como costumava dizer, julgou-se capaz de voar. Absoluto em suas ideias, vagou da cama à janela com passos lânguidos, olhar sedento, a medida que o véu da poluição contornava a silhueta da cidade podre que aprendeu a odiar.
Menina festeira apaixonou-se por sociopata. Um eclipse, uma dança solitária. Tinha os olhos azuis, ele. Mas não brilhavam. Recôndito num mundo paralelo, era senhor ali. Ela, cobria-se de regras, regrava-se posturas, roupas e sorrisos. Saltos desenfreados numa pista qualquer, pés descalços, os dedos emanando gargalhadas. Ele, avulso, olhar indireto refeito por 4 paredes. Conversava sozinho, …
Era eu mesmo. Num despertar bestialógico. Cansado de noites mal dormidas, de eras mal vividas. Cansado de estar cansado de estar cansado. Era-me eu. Era-lhe eu.
Estava farto de livros de auto-ajuda. Cansado de frases de efeito que entulhavam Facebook. Extenuado de e-mails em massa com mensagens positivas, melosas, otimistas. Seja um conquistador. Seja um vencedor. Seja o rei do mundo… blá, blá, blá. No fundo, achava que tudo não passava de uma tentativa de negar a beleza da simplicidade das …
De nada adianta teus vis apelos. É frágil tua intempestividade, teus lábios secos. Tua fama decai, teu anelo se esvai. É a pele morta, teu toque sem folículos pilosos. É o agreste em teus olhos, é um selo em tua boca. Roxa. Falsa. Palavras pútridas. Dançando no escuro. Com estranhos. Com fantasmas. Reverenciando teus atos …
Desde criança, um estranho hábito: colecionar crônicas. Quando criança, eu pensava ser sonhos. Assim os descrevia: “eu coleciono sonhos”. Uma época onde as letras ainda não haviam se convertido em bits. Na biblioteca da escola, na pública, na particular de casa. Cópias a mão. Gostava de crônicas curtas. Fácil de ler. Fácil de copiar. O …
O encanto lhe dosava a face na proporção com que lhe convinham os sonhos. Dia metade, dia todo, a verdade suavizada pelo clamor visceral de suas entranhas.