Seu nome era Diógenes, e vivia em Estocolmo, na Suécia. Apesar de ter vindo de boa família, educado segundo os padrões mais rígidos da hierarquia a qual pertencia, com o tempo, desenvolveu um estranho comportamento.

Ainda era um jovem independente, morando sozinho, quando mergulhou de cabeça no isolamento social. Tinha alguma renda, e passou a viver dela, já que abandonou o emprego. Passava a maior parte do tempo dentro de casa. A internet era sua única janela para o mundo, incluindo para as compras online. Não avistava estrelas, não se expunha ao sol.

Diógenes em EstocolmoO isolamento disparou outro comportamento consequente: o desleixo total. Não existia mais autocuidado, não havia mais higiene em seu lar. Passou a acumular compulsivamente lixo por toda a casa. Colecionismo da pior espécie: caixas, latas, embalagens, garrafas. Não jogava nada fora. E não as organizava, também. Tudo era acumulado de forma aleatória em cada metro quadrado da casa.

De entre os entulhos, certo dia, Diógenes foi dominado por uma estranha sensação. De certa forma, aquele isolamento total precisava ser interrompido. O acúmulo de lixo lhe pareceu estático demais. Não havia intensidades, não havia pulsação.

Por isso, após 6 meses de total isolamento, Diógenes saiu pelas ruas do seu bairro, em Estocolmo.

E se sua existência era estranha até então, haveria de piorar.

Quando estava na esquina de sua casa, com o manto da noite lhe caindo suavemente sobre o corpo enrijecido, avistou uma bela jovem. Parecia ter sido extraída de uma literatura clássica. Desta vez, Diógenes não queria embalagens ou garrafas. Ele precisava do coração pulsante de uma linda mulher.

Diógenes sequestrou a moça, levando-a para sua casa e a mantendo aprisionada ali. Não queria resgate. Queria apenas ouvir sua respiração entre o lixo que o acompanhava, havia meses. Cuidou dela como pode. Conversou com ela como pode. Tentava convencê-la de que nunca lhe faria mal. Com o tempo, ela pareceu acreditar nisso, embora esboçasse a sensação de que nunca sairia viva dali.

Contrário aos prognósticos, semanas depois, Diógenes a libertou. Simplesmente destrancou a porta e pediu para ela sair, se assim ela quisesse.

E a jovem foi embora, os passos vacilantes, alternados por olhares desconfiados sobre os ombros, como se certificando de que não seria seguida ou golpeada pelas costas.

Para surpresa de Diógenes, a jovem voltou no dia seguinte. E não tinha a companhia de policiais, nem de parentes enfurecidos. Apesar de abatida, a mulher tinha um sorriso no rosto.

Depois de um longo silêncio, Diógenes a convidou para um café.

Com um olhar apaixonado, a jovem de Estocolmo aceitou.