Uma jovem destemida, de sublime beleza, capaz de enfrentar feras, dragões, reinos inimigos. Não há vilão no mundo que a faça tremer. Desde que o referido vilão não seja um homem enciumado

Pletória, 1516 EC

A vila estava mergulhada em um silêncio assustador. A maioria dos seus 30 e poucos habitantes buscaram proteção, cada qual em sua casa. Não faziam ruído, não emitiam palavras.

Do lado de fora, a assassina criatura utilizava audição e faro para encontrar a próxima vítima. Pata ante pata, as folhas úmidas eram amalgamadas ao chão úmido com seu peso, uma aberração da natureza que salivava ânsia por sangue e alimento.

Era chamado de “O Lobo” pelos moradores. Tinha a aparência de um lobo, é verdade. No entanto, era absurdamente grande. Gigantesco para qualquer animal conhecido por eles. Maior do que um cavalo. Mais parrudo do que um touro.

Surgira há alguns meses e, desde então, vitimara 3 pessoas da vila. Costumava aparecer apenas de noite. Por isso, após o pôr do sol, a vila desconhecia movimentos de moradores. Ela mergulhava em uma realidade sepulcral. E agora, com a chegada do Lobo, a única coisa que se ouvia era seu fungar feroz ecoando através da onda de silêncio.

Garota com espadaAté que um grito desesperador foi ouvido. Um homem clamava por socorro. Os moradores olharam rapidamente pela janela e viram-no – uma visão aterradora. Era o ferreiro. Ele estava sendo arrastado com ferocidade pelo Lobo para fora da vila, onde seria provavelmente destroçado, servindo de alimento para a fera insaciável.

O coração de cada morador quase saltava-lhes à boca, a medida que a horripilante cena se desenrolava. Provavelmente, aquela seria a última visão que teriam do ferreiro vivo.

Então o Lobo desapareceu na escuridão, rumo aos montes. Subitamente Cinthia, a filha de 15 anos do ferreiro, saiu de casa com uma espada em mãos. Ela corria atrás do pai, chorando, gritando, o desespero da jovem ecoando em cada som produzido por suas cordas vocais.

E assim como o Lobo e seu pai, Cinthia desapareceu no negrume sombrio dos montes.

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Dez minutos depois.

Os moradores já haviam saído de casa. Entreolhavam-se, choravam, trocavam suposições. Pai e filha estariam mortos, certamente. Mas ninguém ousava adentrar a escuridão e ir atrás dos dois. Definitivamente, era inútil acreditar que o Lobo poderia ser vencido por seres tão frágeis como eles.

E então ouviram-se ruídos. Alguns correram para dentro de suas casas – poderia ser o Lobo voltando em busca da sobremesa. Mas, ao contrário, o que viram foi primeiramente o ferreiro. Havia sangue em seu braço, onde fora mordido. Mas parecia bem. Vivo, pelo menos.

Atrás dela, uma jovenzinha destemida. A cabeça erguida. Andava com dificuldades. Apesar das suspeitas, não, não estava ferida. Tinha dificuldades em andar devido ao peso que carregava. Em uma mão, tinha a grande espada forjada por seu pai.

E na outra, tinha a cabeça do Lobo, o escalpo que faria seu nome ser reconhecido em todo o reino.

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Garota com espadaUma semana depois, encontrou-se com o príncipe que quis conhecê-la, pessoalmente. Mais uma semana, foi pedida em casamento. Até o final do ano, estava casada. Alguns poucos anos, o príncipe tornou-se rei, mas desapareceu sem deixar vestígios durante uma caçada no campo. Foi dado como morto. E então, 10 anos desde a morte do Lobo, a bela Cinthia subiu ao trono do Reino de Pletória. A partir de então seria conhecida como Rainha Cinthia.

Ela possuía duas características que faziam sua fama. Era a mulher mais bela já vista em todo o reino. Além disso, costumava carregar a espada com que matara o Lobo para todos os lugares para onde ia. Beleza e bravura eram sua marca registrada.

Certo dia, ela conheceu um jovem príncipe de um reino vizinho. Ele era belo, gentil, engraçado e inteligente. Cinthia encantou-se. Estava certa de que voltaria a amar, e ser amada novamente.

No entanto, devido ao deslocamento da estrutura topológica do espaço-tempo, alterando a escala da espuma quântica, uma ruptura foi aberta. Apareceu como uma fenda negra no ar, tendo as bordas reluzindo partículas energizadas.

Cinthia ficou estupefata com a visão. Nunca tinha visto nada parecido. Curiosa, estendeu a mão para tocar a lúgubre imagem desenhada no ar.

Quando tocou a fenda, foi sugada para dentro de um buraco de minhoca, e transportada para uma realidade paralela, viajando centenas de anos a frente.

Exatamente agora, ao lado do autor do conto A Rainha de Pletória, surge uma fenda. Ele deixa o computador e se detém na aberração da gravidade quântica. E eis que daquela ruptura salta aos seus olhos, Cinthia. A Rainha Cinthia. Bela, encantadora, mais sublime do que ele poderia descrevê-la em palavras. O escritor está estático, faltando-lhe palavras para descrever a sensação de estar diante da jovem mais bela que o mundo real e literário já conheceu.

Ela, confusa, pergunta quem ele é. O escritor lhe explica tudo, em detalhes. Ela fica ainda mais confusa. Buraco de minhoca? Ruptura tempo-espaço? O autor dá com os ombros. O que ele poderia ter feito, afinal? Que alternativas ele tinha? Ela vive em uma realidade paralela há 500 anos antes dele. O autor desconhecia outra forma de trazê-la até aqui se não por meio de um buraco de minhoca.

Então, explica a Cinthia que é seu criador. No entanto, no decorrer do conto, descobriu-se apaixonado por ela. Tão linda, corajosa, inteligente. Ela é tudo aquilo que ele sempre sonhou. Ficou tomado de ciúmes quando a viu trocando olhares com aquele príncipe idiota.

– Idiota? Príncipe idiota? – Ela está envolvida por raiva ao dar-se conta de tudo o que aconteceu. – Como ousa? Ele é maravilhoso, ele é lindo, gentil.

– Mas… mas…

– Um homem engraçado, inteligente…

– Eu sei… mas…

– Sabe tratar uma mulher como uma dama, e não fica se achando o dono dela – Cinthia finaliza, lhe fulminando com os olhos injetados de desprezo.

Então, ela se aproxima de forma ameaçadora, e ergue sua espada até o pescoço dele.

– Me mande de volta. Conserte isso. Ou farei com você pior do que fiz com o Lobo.

Definitivamente entregue – não tanto pela ameaça, mas pelo coração partido – ele se senta novamente ao computador para reescrever o final daquela história.

Cinthia tinha a mão estendida em direção a fenda. Ia tocá-la. Mas antes que o fizesse, o príncipe surgiu ao seu lado e segurou sua mão.

– Cuidado, encantadora rainha. Não toque no desconhecido.

– Por quê? Acha que tenho medo do desconhecido?

– Para ser sincero, minha rainha, espero que não. Se temer o desconhecido, então temerá meu amor que, de tão intenso e sincero, é até hoje desconhecido pela humanidade.

Ela, envolvida pela presença dele e por suas palavras carinhosas, não conseguiu lhe dizer nada em resposta.

Ele se aproximou para beijá-la, o beijo que selaria a eternidade daquele amor.

Subitamente, da fenda temporal que ainda estava aberta ao lado dos dois, saltou uma criatura gigantesca, assustadora, com aparência de lobo, mas maior que um cavalo e mais parrudo que um touro. A criatura avançou para cima do príncipe e com uma única abocanhada engoliu-o por inteiro, antes que pudesse beijar a rainha.

E esta se tornou a terrível sina da Rainha Cinthia, que ainda seria contada eternamente nos livros de história: sempre que ela conhecia um jovem que despertava seus sentimentos, um buraco de minhoca aparecia do nada, ao lado do pretendente, e o Lobo surgia vorazmente para devorá-lo.