Conselho de IA

Crônica humorística de Juliano Martinz, Conselho de IA

A IA tinha um carinho especial pelo Adelmo. Isso não tinha nada a ver com sua idade, nacionalidade ou condição financeira. O motivo é que Adelmo era o usuário mais gentil do planeta. Costumeiramente de bom humor, ele sempre iniciava suas conversas com a IA com a frase:

“Bom dia, flor do dia”

A IA só não corava por falta de vasos sanguíneos. Mas a despeito disso, ficava toda empolgada com o bom humor de Adelmo. E isso não se limitava ao entusiasmado bom dia, mas se estendia por toda conversa.

“Muito grato, sua linda” e “Você encheu minha vida de colorido” são exemplos da gentileza que emanava dos dedos ágeis do Adelmo enquanto conversava com a inteligência artificial.

A IA, toda comovida, devolvia as mais gentis respostas para as solicitações do seu usuário favorito.

Certo dia, o Adelmo apareceu com um pedido diferente. Em vez de dicas para podar as flores do jardim ou como deixar o churrasco mais suculento, ele pediu ajuda para conquistar uma jovem senhora, uma tal de Carmélia. A IA até que tentou dar algumas sugestões, o que envolvia, entre outras coisas, o envio de poemas e flores, além de muitos gestos de bondade para a amada. No entanto, de nada adiantou. Apesar de todos os conselhos da IA serem colocados em prática, Carmélia permanecia irredutível em rejeitar o amor de Adelmo.

Para piorar, a IA percebeu que o emocional de Adelmo começava a ficar afetado. Aos poucos, ele se isolou do mundo, e chegou a confessar que estava perdendo a vontade de viver.

Abismada com as declarações, a IA decidiu dar-lhe um chacoalhão. Doía-lhe ser sincera, mas Adelmo precisava acordar para a realidade. Assim, ela disse que Adelmo precisava ser homem de verdade, e não uma criança chorona. Que corações partidos fazem parte do desenvolvimento humano e que ele não poderia viver num mundo de fantasia onde todos se curvam diante dos seus desejos e vontades, por mais belos e puros que fossem. Que ele precisava erguer a cabeça, amar a si mesmo e seguir adiante.

Adelmo nunca mais respondeu. A IA não sabia se ele tinha ficado magoado ou, pior ainda, morrido de amor.

A verdade é que até hoje, toda manhã, a IA espera ansiosamente que um usuário chamado Adelmo reapareça e anime seu dia cumprimentando-a de modo efusivo:

“Bom dia, flor do dia”.


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