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Crônicas corrosivas e gestos de amor

Como Escrever Incríveis Primeiras Frases Para Seu Livro

Enquanto rolava escada abaixo, após o que pareceu ser um acidente doméstico, Juliano pensava: “Preciso urgentemente de uma ideia para o artigo de hoje”

Primeira frase de um livroEscrever a primeira frase (ou primeiras frases) de um livro é uma tarefa que pode se tornar extremamente difícil. Pelo menos, se você deseja causar um impacto merecido. A primeira frase de um livro não pode ser encarada como sendo de pouca importância. Ela é um item valioso na questão que envolve como escrever um livro passo a passo. Na verdade, é a frase mais importante do seu livro, justamente porque é sua primeira oportunidade de envolver o leitor. É primeiro contato que o leitor terá com você ao abrir seu livro em uma livraria, biblioteca ou acessar seu e-book em um dispositivo eletrônico.

Portanto, se você é escritor(a) iniciante ou experiente, lembre-se sempre de dar atenção individualizada à primeira frase do seu romance ou conto. Caso tenha um livro já pronto, poderá aproveitar a oportunidade para dar uma olhada na frase de abertura, e ver se ela justifica o título de frase mais importante do livro.

E caso esteja tendo dificuldades em escrever a primeira (e impactante) frase do seu livro, relaxe e considere as dicas abaixo. Junto a cada uma das dicas incluí primeiras frases de livros conhecidos da literatura (outros nem tanto) para exemplificar os princípios alistados.

Declaração Que Revela Um Princípio Universal

Estas são as frases que destacam alguns fatos aceitos pelas pessoas, no entanto, apresentados de forma inteligente e chamativa. Por exemplo, Leon Tolstói abre o romance Anna Karenina com a frase:

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; e as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”.

Clarice Lispector também utilizou esta técnica em A Hora da Estrela:

“Tudo no mundo começou com um sim”.

Portanto, você pode ter uma boa primeira frase de seu livro apresentando uma verdade básica. Mas lembre-se de apelar para fatos que sejam instigantes. Abrir o livro com esta verdade: “O sol brilhou quente sobre a cidadezinha” dá sono até em insones.

Quanto ao fato de ser uma “verdade universal”, note como Jane Austen menciona isto, textualmente, na abertura de Orgulho e Preconceito:

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar necessitando de uma esposa”.

Esta primeira frase de Orgulho e Preconceito possui outro elemento muito importante para aberturas de livros, quando cabíveis: o uso de humor. Embora discreto para alguns, ele está presente ali. E o elemento humor tem um grande poder de atração.

E lembre-se: ao apresentar um fato universalmente aceito na introdução do livro, você precisa confirmar tal verdade pelos eventos envolvendo as personagens.

Definir o Estilo Que Permeará Toda a Narrativa

Muitas vezes, a primeira frase não é usada para trazer fatos relevantes sobre a sua narrativa. Mas apresenta nuances do que nos aguarda. Veja o caso de A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath:

Era um verão estranho, sufocante, o verão em que eletrocutaram os Rosenberg, e eu não sabia o que estava fazendo em Nova York.

Um detalhe importante sobre esta primeira frase é que a execução dos Rosenberg nada tem a ver com a narrativa. Na verdade, esta primeira frase apenas introduz sutilmente o tom ameaçador que abrangerá o restante do livro.

Iniciar Uma História Dizendo Que é Uma História

Parece pouco criativo? Mas não é. Pelo menos, dependendo da forma que você fizer. Veja o caso da primeira frase de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

Isto sem contar a genial dedicatória que integra a própria narrativa: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas Memórias Póstumas”.

Outro exemplo é de O Apanhador no Campo de Centeio (quando crescer, quero escrever igual vovô Salinger):

“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield; mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso”.

Primeira frase de um romanceAlém disso, note que a voz e vocabulário do narrador é peculiar, já dando uma percepção de como será o restante da obra. A impressão não é de estarmos lendo um romance. Pelo contrário, estamos simplesmente ouvindo um amigo contando uma história. Isto permite algumas liberdades, como o uso de gírias.

Foi este o recurso que utilizei em Diga Adeus, Messina:

“Se eu soubesse a porcaria em que iria me meter, teria dado um fim nessa história antes que ela começasse a ser escrita”.

Aberturas Curiosas

Esta é uma dica valiosa. É aquela frase que, ao lermos, pensamos: “Mas, como assim? Explica. Explicaaaaa…”

Um bom exemplo para destacar este princípio é a primeira frase de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Espera… Pelotão fuzilamento? Conhecer gelo? Como assim, meu velho?

Uma primeira frase curiosa pode não despertar tantas indagações, mas chama a atenção. É o caso de “Não Te Deixarei Morrer, David Crockett” de Miguel Souza Tavares:

”Quem és tu que danças descalço na noite escura?”

E como não citar Inês Pedrosa em “Nas Tuas Mãos”:

“A tua cabeça rodou na direção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios ,alguém gritou ‘Bravo!’”

Desculpa aí, mas quem gritou “Bravo” fui eu!

Mas, note que aberturas curiosas podem assumir outro aspecto: ser extremamente simples, como vemos a seguir.

Seja Simples

Há uma dica que parece ir de encontro a tudo o que foi mencionado. Usar uma declaração extremamente simples, desde que feita de forma instigante, pode prender a atenção do leitor. Por exemplo, o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury inicia assim:

“Queimar era um prazer!”

Sem nenhum truque, sem qualquer técnica complexa. Apenas uma declaração simples que desperta a curiosidade.

Se preferir, você pode deixar a primeira frase para escrever por último. Em muitos casos em que estamos “travados”, a melhor coisa é esperar a conclusão do livro. De posse de todos os fatos, o tom definitivamente estabelecido, fica mais fácil pensar na grande frase de abertura do seu romance.

Quais são suas frases de abertura preferidas? Você já escreveu livros cujas primeiras frases são interessantes? Compartilhe nos comentários abaixo.

11 Comments

  1. Bruno Sanches

    19 agosto, 2016 at 11:05

    Depois disso eu acho que minhas primeiras frases não são interessantes.

  2. jucimara Nascimento

    2 setembro, 2016 at 11:34

    Eu sempre gostei de escrever em primeira pessoa, mas acabo misturando tudo, pois quero expressar os sentimentos dos personagens. Queria ter uma ajuda…

    • Juliano Martinz

      4 setembro, 2016 at 20:40

      Esta é a limitação da primeira pessoa, Jucimara. Por isso, neste caso, você poderia tentar explorar novos horizontes, e escrever alguns contos em terceira pessoa.

    • Escreva em primeira pessoa, mas alterne o ponto entre o ponto vista de cada personagem(essa mudança ocorre de um capítulo para o outro mas pode valer-se da criatividade), como ocorre no livro “Ele disse,ela disse” de Clarice Candeias, e com a alteração de pontos de vista semelhante a de “As crônicas de gelo e fogo”

  3. O tempo parou, e tudo á sua volta estagnou, a cidade vista naquela janela, parecia ser um velho quadro pintado a óleo; apenas seus pensamentos fluíam á velocidade de um verdadeiro tufão… a vida não poderia acabar assim!
    Mas o que poderia Manuel encontrar naquele velho Baú, esquecido no tempo, ali guardado, naquele velho sótão, daquele casarão há muito abandonado?
    Será que a revelação de um segredo tem a força de mudar o destino de uma cidade?
    Será que Manuel poderá suportar a força da verdade?
    Manuel não tinha tempo para pensar, uma só pergunta invadia seu espírito como uma bomba relógio, que contava os minutos finais:
    – Poderei eu salvar o destino desta cidade?
    A resposta estava ali e Manuel sabia…. não havia tempo a perder….

  4. Conhece o livro do Olavo de Carvalho: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota?
    Então foi a primeira frase, uma pergunta me fez continuar o lendo.
    “Você conhece pessoalmente algum idiota?”

    Não estou destacando o fato do cara escrever muito… mas o de me fazer querer dar fim em um livro de 594 páginas.

    Estou estudando para causar um o mesmo impacto com a simplicidade de uma pergunta.
    Valeu pelas dicas Juliano.

  5. Eu tenho dúvidas com minhas primeiras frases. É o desafio de começar.

  6. “em torno do sol”….
    Raiou o dia, meio cinza; entre frestas de nuvem um sol de ouro desponta. Uma arvore se arrepia toda pois o tempo já havia virado, de meio quente a frio. Folhas caem e são levadas pelo vento. Grunhidos seguidos de três longos bocejos vem de um tronco.
    Um menino! exclamou o macaco.

  7. Olá, tudo bem?
    Vai parecer realmente ridículo a minha pergunta, porém, sou iniciante e gostaria de conselhos. Bom, como eu poderia indicar um pensamento de um personagem, entre aspas ou de alguma outra forma? Além disso, em algumas partes do meu livro tem muita conversa, isso pode provocar o desinteresse do leitor? Obrigada.

    • Juliano Martinz

      28 novembro, 2016 at 08:10

      Oi Barbara… Há autores que simplesmente colocam os pensamentos em itálico. Outros referenciam o pensamento na própria frase. Por exemplo:
      Com certeza, essa porcaria não vai dar certo, pensou Natalia.
      Essa última opção é a melhor.
      Utilizar aspas não fica bom. Polui demais o texto.
      Quanto a outra pergunta, muito depende do contexto. Se a conversa entre as personagens for bastante interessante, ela pode se estender. Mas procure utilizar algumas descrições, eventualmente, entre as falas. Apenas para quebrar a constância do diálogo.

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