Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Os antissociais I

– Alô?

– E aí?

– Fala, grande.

– Que tá fazendo?

– Nada. Debaixo das cobertas.

– Hum. Sei.

– E você?

– Na mesma.

– Um saco, hein!

– Pois é. Liguei pra isso.

– Isso o que?

– Ah, sei lá. Tédio dos infernos.

– Pra variar né?

– Vontade acabar com isso tudo.

– Vai se matar?

– Não, anta. Vontade acabar com esse tédio.

– Vá ler um livro.

– Outro?

– É, um saco!

– E como! Já foram três essa semana!

– Putz.

Os Antissociais

– Tá afim de sair?

– Nem. Pra onde?

– A festa da facul.

– Ah, nem vou. Tô debaixo das cobertas.

– Só sair daí.

– Nem… Só saio daqui amanhã cedo.

– Eu tô afim de ir.

– Você vai?

– Não disse que vou. Disse que estou afim.

– Mas você vai?

– Ah, sei lá.

– Fazer o que lá, cara?

– Fazer o que aqui?

– Vá ler um livro.

– Putz… Você não se incomoda com isso, cara?

– Isso o quê?

– Ficar dias e dias enfiado nesse quarto. Você é um ser humano ou uma ameba?

– Ó quem fala.

– É disso que estou falando.

– Eu não sou uma ameba.

– Amebas são mais sociáveis, isso sim.

– São?

– Devem ser. São mais populares que nós, pelo menos.

– Se são. Você vai?

– Pensando. Dá medo.

– E eu não sei?

– Vai ter gente estranha pra cacete lá.

– Muita gente, isso sim.

– E estranha.

– E como! Você vai?

– Se você for, eu vou.

– Eu não vou.

– Por que não?

– Nem a pau. Muita gente. Gente estranha.

– A gente se enturma.

– Certeza?

– Bom, acho que não. Mas a gente tenta, pelo menos.

– A gente tentou ano passado, lembra?

– É.

– No que deu?

– Sujeira.

– Nem isso. Não deu foi em nada, isso sim.

– É.

– Os dois largadões lá no meio sem saber o que fazer.

– É.

– Olhando um para a cara do outro. No mesmo lugar durante duas horas.

– Se ao menos a gente soubesse dançar.

– E quem ia querer dançar com a gente?

– Pior. Fiascaço.

– E como!

– Melhor deixar essa ideia pra lá, né?

– Melhor mesmo.

– Mas, o que eu faço nessa porcaria de sábado?

– Ah, sei lá. Faça o mesmo que eu.

– OK.

Desligou, e foi ler um livro.

Um saco!

11 Comments

  1. Yasmin Costa

    at

    Muito legal e engraçado, gostei.

  2. KAKAKA

    at

    Gente , qual é esse tipo de crônica?

    • Célio

      at

      Crônica narrativa humorística.

    • Ilana da Silva Sodré

      at

      Não me considero antissocial, mas esse texto definiu bem o meu último domingo. Um tédio horrível, nada pra fazer ( mesmo com diversos livros esperando para serem lidos, séries implorando para serem assistidas e textos incompletos nos cadernos).

  3. Eduardo

    at

    Gostei muito… bem a minha cara !!

  4. luiz henrique

    at

    Parecido muito comigo. adorei

  5. isabella capelari

    at

    kkkkkkk muito engraçado se parece muito comigo! :)

  6. joão pedro

    at

    gostei muito dessa crônica,ela me ajudou muito a acabar com o tedio,basta ler um livro!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  7. Yka Louback

    at

    Nossa adorei kkk parece que copiaram a minha conversa , ficou igualzinho. excelente

  8. Ednildo Hipólit

    at

    Genial!
    O bom é que hoje em dia, com a internet e as redes sociais, nem sempre quem está dentro do quarto o dia inteiro está sozinho. Pode estar interagindo com os amigos.
    Acho que aquele que ainda fica só debaixo das cobertas mesmo, deve estar com algum problemas, tipo depressão.

  9. marcelo smith

    at

    Eu acredito, que estamos vivendo uma geração bastante largada em relação dos pais sobre a contuta de seus filhos “em outros tempos” não era admissivel ,permitir que o jovem passe o dia inteiro em casa sem
    nenhuma ocupação !!!

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