Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

LADY JANE

O coração da jovem parecia tempestuoso, cálido ao toque das palavras dele, quando ele a chamava pelo nome. Não eram palavras especiais, mas se tornavam especiais quando cruzavam a fronteira do seu órgão muscular, desfilando por entre aurículas e ventrículos. Chamejava com a consistência inconstante daquele ritmado destoar que só deste gosto provaram os que amaram ao menos uma vez.

E com a mesma aguçadura com que lhe infligiam as palavras tocantes, foi-lhe arrancado o ar quando ouviu, da mesma boca, a boca dele, o amor por outra mulher. Sob o rugir tempestuoso das palavras em seus ouvidos, se confundiram a acidez e o destempero. Inerte, calou-se. Calou fundo a verdade que esfriou seu calor. Por ora, fugiu-lhe a vida. O sangue achou que não precisava mais correr. O ar sossegou. O pulmão aquietou. O corpo abjurou.

Lady JaneCaminhou rumo ao nada, embora, estivesse estagnada. A inércia a conduzia. Diluía. Fragmentos de mulher aqui, ali, acolá. Caminhando ao nada, ao nada chegou. E como nada encontrou, continuou. Ainda hoje, vagueia pelas estradas, a procura do seu lugar. Caminha por estradas, pontes, desertos, fronteiras. Mas quem a observa ao longe percebe, pobre mulher, ainda continua parada no mesmo lugar.

1 Comment

  1. André Catapreta

    26 agosto, 2013 at 15:18

    Gostei muito do texto. Parabéns!

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