Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Construindo Verônica

Ela nasceu primeiramente como uma névoa, se é que pensamentos distraídos de escritores possam ser assim definidos. Não tinha um corpo, nem um rosto. Não tinha nome, nem trejeitos ou tom de voz. A primeira característica dela, emanando como um raio de sol da névoa noética do seu ator, foi seu passado: levada ainda criança, junto com os pais, para um campo de concentração nazista. Fora separada deles, e nunca mais os viu. Ponto.

E agora?

Com esta característica judia, ela começou a ganhar formas. Um rosto longo, fino, a pele clara e suave. Tinha um olhar triste, com bolsas, levemente inclinado às bordas externas.

Seria atraente? Com certeza. Ela buscaria vingança. E como tal, precisaria de atributos que lhe facilitassem alcançar seus objetivos. A beleza contribuiria para isso. Assim, ganhou longos cabelos cacheados, lábios capazes de se contrair em um arrebatador sorriso. Mas seria baixa. Precisava fugir um pouco do clichê de mulher bonita e alta. Livros estão cheios de mulheres assim. Seria bonita, sem dúvida, mas seria baixinha. E não poderia ser criada sem um corpo atraente. Os longos vestidos realçariam cada contorno cuidadosamente elaborado em seu corpo.

Crônica construindo verônicaE teria força moral, claro. Precisava ser inteligente, vivaz. Planos seriam levados do papel à prática por uma mente e corpo ativamente interligados. Para isso, não poderia ser uma mulher sensível. Os anos que passara nos campos de concentração, a perda prematura dos pais, tudo isso criou cicatrizes emocionais que embruteceram seus sentimentos. Por esta razão, um adendo: ainda teria um sorriso arrebatador, mas não exatamente natural. Via de regra, não sorria. Só quando o sorriso se tornava uma arma para atingir seus objetivos.

Que maravilha! Já não era mais uma névoa. Agora tinha um rosto, um corpo, um passado e um objetivo. A esta altura já poderia ganhar um nome. Um nome forte acima de tudo, combinando com a personalidade que acabara de vir ao mundo. Laura seria uma boa opção. Mas não era suficientemente ameaçador. A personagem precisava ter um nome que reverberasse nos ouvidos quando fosse pronunciado. Paola? Ainda distante. Filipa? Sem chance. Até que enfim surgiu Verônica.

Bravo! Bravo! Bravo!

Verônica era perfeito! Combinaria com seu semblante, com seu passado, com sua ânsia por vingança.

O surgimento dela no livro seria diferente. Em vez da cansativa descrição física, ela já apareceria em ação. Elegante, entraria em um banco. O dono seria um banqueiro que enriquecera durante a segunda guerra, quando este se aliou aos nazistas, e colaborou com a carnificina de judeus.

A primeira frase de Verônica precisava ser “a frase”. Impactante. De tirar o fôlego. Uma frase que de imediato mostraria aos leitores quem ela era: forte, inteligente, sagaz.

Qual frase? Seria melhor uma pergunta. Personagens confiantes confrontam seus antagonistas com perguntas inquietantes. Algo como:

– Se lhe perguntassem a origem da sua fortuna, o senhor coraria?

Coraria? Muito fresco. Não combina com a força de Verônica. Que tal algo mais corrosivo?

– Se lhe perguntassem a origem da sua fortuna, quantas voltas seu estômago daria?

Boa, mas ainda assim, soa confuso. Alguns leitores poderiam não entender.

Mas afinal, como ela conseguiria este encontro exclusivo com o banqueiro nazista? Ela não seria uma cliente rica. Então, como teria acesso a um homem tão poderoso? Teria encontrado com ele por acaso no banco? Inverossímil. Talvez fosse uma jornalista que publicara notícias embaraçosas sobre o banqueiro. Meio clichê. Então, ele a vira em uma festa e se apaixonara por Verônica? Demasiada conveniência revela pouca criatividade do escritor.

Droga! Porcaria de personagem complicada. Talvez deveria deixar de lado essa coisa de vingança. E também abandonar essa coisa repetitiva de judeu traumatizado por nazistas. Poderia tentar algo diferente, mais atual. Até meio científico.

Verônica trabalharia em um laboratório que estudava meios eficientes para dar um fim seguro para lixos hospitalares. Exposta aos resíduos de um material desenvolvido ilegalmente e em segredo, ela começaria a sofrer mutações. E se tornaria uma aberração.

Mas não seria legal uma linda mulher passar por isso. Melhor se fosse uma mulher comum, sem muitos atrativos. Ou melhor ainda: seria um homem. Isso, um homem. Alto, comum e com um nome banal. Perfeito! Ele atenderia pelo nome de Tadeu.

Bravo! Bravo! Bravo!

 

borda

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2 Comments

  1. Prezado Juliano.
    É sempre prazeiroso ler seus escritos.
    Parabéns.

  2. Sarah Fernandes

    27 janeiro, 2016 at 17:29

    Se fosse possível bater palmas e você escutar do outro lado da tela, então considere aplausos calorosos!
    Incrível como me senti mais próxima.. Sendo eu mesma a criar Verônica e logo mais Tadeu.
    Parabéns!!

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