No final desta crônica, Larissa abandona Flávio, se muda para o Marrocos, casa-se com um marroquino e enriquece com criação e venda de camelos. Quanto a Flávio, ele olha para um avião voando acima de sua cabeça e…

Era um olhar que implorava. O olhar de Flávio, pulsando sentimentos, conjugado com lágrimas cuidadosamente rearranjadas acima da bolsa lacrimal, cruzava a mesa e fulminava Larissa. Jantar a luz de velas. Ele estendia a aliança. O pedido de casamento. Me deixa cuidar de você até envelhecermos juntos. Era intenso. Era romântico. Mas ela não podia aceitar. Ela tinha um motivo. Na verdade, o mais forte motivo que poderia latejar em seu coração apertado.

– Flávio – ela procurava escolher as palavras certas para aquele momento incerto –, eu não posso aceitar.

– Por que não?

– Eu não posso, meu querido.

– Mas, você não me ama?

– Amo.

– Então…?

– É que… Eu não queria estragar tudo.

– Estragar? Mas como?

– Te contando tudo.

– E eu não mereço saber?

– Ok. Mas… é que… eu sei como essa história termina.

– Como assim?

– Me contaram o final da história, Flávio. Da nossa história. Estragaram tudo.

– E ela história acaba?

– Eu vou te abandonar… Sinto muito, querido.

– Me abandonar? Mas você disse que me ama. Por que me abandonaria?

– Não sei quais serão minhas razões. Só me contaram o final. Mas com certeza teremos algumas reviravoltas nesse roteiro.

Flávio estava desconcertado.

– Mas… e como termina, exatamente?

– Eu termino indo embora para o Marrocos.

– Marrocos? Marrocos? Mas que inferno você vai fazer no Marrocos?

– Eu não sei. Eu não sei. – Ela estava agitada. – Como vou saber? Eu nem sei direito onde fica isso. – Larissa deu uma longa pausa. – E tem mais…

– O quê?

– Eu vou casar com um marroquino. E vamos ganhar a vida com comércio de camelos.

Flávio deu uma risada nervosa.

– Isso não faz sentido.

– Eu sei que não. Eu esperava outro final. Nós dois juntos, felizes para sempre… Nunca pensei em ir pro Marrocos. E camelos? Meu Deus, eu nunca vi um camelo em toda minha vida.

– Maldição. Isso é spoiler.

– Eu odeio quando acontece. Povo sem noção. Estragaram tudo.

– E o pior… o pior é esse final horrível.

– Sinto muito, querido. Também odiei o final. Totalmente sem graça.

– E o que acontece comigo?

– Eu não sei. Você fica olhando para um avião.

– Que avião?

– Um avião comum, sei lá.

– Eu vou atrás de você?

– Não sei. O final fica em aberto.

– Se fico olhando para um avião, provavelmente vou atrás de você. Talvez tenha continuação. Nossa História II.

– Acho difícil. Nossa história não tem conteúdo para isso. É mais provável que esteja simbolicamente olhando para mim, uma despedida.

– Odeio isso: finais em aberto.

– Eu também.

– E odeio malditos spoilers.

– E eu então?

Melancolicamente, ele voltou a guardar a aliança no bolso. O casal fez um temível e praticamente interminável silêncio, até que Flávio perguntou:

– Larissa, e o que fazemos agora?

– Só me contaram o final. Então, daqui pro fim, o que acha de a gente tentar improvisar?