Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Homem de Isopor

Era um homem de isopor, esfarelado isopor. Torpor emocional, patético inspirar e expirar. Como se as engrenagens não se considerassem, como se os elos se desfizessem em simples argolas.

Homem de isopor postado ante sua própria sombra. Sombra a oeste, sob seus pés, agora leste. Até o dia seguinte, quando reaparecia, naquele sempre decadente oeste. Contou um, dois, três, atire-se antes que lhe seja atirado. Um, dois, três, a coragem se desfazendo na covardia do lado oposto, ou em uma desgostosa coragem e sua incapacidade em se salvar.

Homem de isoporQuando ela o viu pela primeira vez, não exatamente o viu. Foi apenas um relance. Ele se camuflava no anonimato das paredes desgastadas, bege claro, reboco, bege claro, infiltração, mancha desconhecida.

Ela, inconsolável diante das lembranças de um falso amor, rompido semanas atrás, perdia-se no frenético girar do liquidificador. Até que o homem de isopor se desloca, se aproxima, quase carregado pelo vento. Ela lhe diz seu nome, ele sorri farelos brancos que a brisa se encarrega de dispersar. As horas passam. O sol leva suas sombras de oeste a leste enquanto ela conta sua história. Até que ele abre a boca de poliestireno e derrama suas análises e conclusões. E o homem insensível descobre uma vocação: seu dom em consolar.

O plástico em mutação. Transfigura-se em carne e sangue. O sorriso não mais esfarela, e as palavras dele a enchem de esperança. Comovida com suas palavras, ela estende a mão e toca em seus braços.

E arrepia-se com o calor daquela pele macia e corada.

 

borda

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3 Comments

  1. um romance que se apresenta só final… muito bom… até

  2. Mt bom! Maravilhosa estória!

  3. Thiago Oliveira

    17 janeiro, 2014 at 09:14

    Muito bom. Parabéns..

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