Ícone do site Corrosiva

DISCALCULIA E DISLEXIA – UMA HISTÓRIA DE AMOR

Menino com discalculia conheceu menina disléxica. Encontros casuais que reservam impactos múltiplos e eternos. Olhos atentos a detalhes por outros desprezados, se cruzaram. Ele não sabia precisar quantos foram os olhares, e a menina não podia descrever o que eles diziam. Mas eram muitos e não falavam pouco.

Nas conversas, avançados na entrega de gêneros, ele evitava dados matemáticos.

– Há quanto tempo me observa? – Ela.

– Humm… Muito tempo.

– Muito? Muito quanto?

– Ahn, muito muito. Digo, parece que foi ontem. Como se o tempo congelasse quando a beleza se eterniza em nossa frente.

Ela sorria. Tocou seu rosto. Ele retirou o papel do bolso, ainda trêmulo e estendeu-lhe. Ela passou os olhos por cima, visivelmente embaraçada, e devolveu-lhe.

– Pode ler para mim?

– Minha letra é tão ruim assim?

– Não, eu só me atrapalho um pouco, às vezes. Pode ler para mim?

Ele leu:

– “Paro o tempo com minhas mãos. Ele me obedece. Sou rei, quando te vejo. Sou rei. Os ciclos que aguardem. O tempo que tire suas férias. Preciso me aquecer na chama que flui do teu olhar. E não posso me incomodar. Não me incomodem. Sou rei, e enquanto estiver com minha rainha, não me interrompam. E assim, consuma-se. Ninguém ousa me desafiar enquanto componho canções com o som de sua voz”.

A menina apaixonou-se sem palavras. Mas fazia questão de enumerar as intensidades que retumbavam em seu peito em somas e múltiplas sensações. Já ele não conseguia contar os dias até encontrá-la. Mas era capaz de ler, traduzir e registrar as notas que deslizavam pelos lábios dela, instantes fracionados antes de beijos que se eternizavam. Beijos que duravam eras, embora ele não soubesse dizer quanto tempo. Beijos de um sabor adocicado que ela não seria capaz de descrever no papel. Na falta de fórmulas, o menino abusava das descrições. Na falta de palavras, ela enumerava suas múltiplas alegrias. Equacionava em precisos momentos a intensidade de um amor que saltitava de seus poros.

As brigas nasciam e renasciam de suas limitações, embora o tempo lhes ensinara a se entenderem e se aceitarem.

– Você está 30 minutos atrasados. Não se deixa a namorada plantada 30 minutos na frente de um cinema.

– Mas eu mandei mensagem dizendo que ia me atrasar.

– Eu vi, mas, mas, a mensagem estava confusa.

– Confusa? Eu só disse que ia me atrasar bastante, só isso.

– Bastante? O que é bastante pra você? O que é bastante pra mim? Por que não diz quanto tempo vai se atrasar e fica tudo mais claro?

– Você sabe que não sou bom com números.

– E você sabe que não sou boa com palavras escritas. Da próxima vez, me ligue. Não gosto que me mandem mensagem.

Casaram-se numa data que ele jamais foi capaz de se lembrar. E lembrar pra quê? Tudo o que ele precisava ele tinha: o mesmo amor com que a amara desde que lhe escrevera o primeiro poema, embora até hoje, ela ainda não tenha entendido.

Sair da versão mobile