Afranegildo Lustosa nunca deu motivos para ser lembrado por outros. Era apenas uma pessoa comum, embora, o ostracismo do seu dia a dia o colocava muito abaixo deste nível. Mas, assim como acontece com qualquer um, desejava ser importante para as pessoas.

Sem amigos, sem parentes, sem rumo. No meio do nada, perguntou-se: como saber que sou importante para alguém?
A resposta não foi a mais inteligente, mas foi a única que surgiu. Recorreu ao Google e digitou “Afranegildo Lustosa” no campo de busca. Para seu desgosto, o resultado foi uma deprimente expressão:

‘Não foi encontrado nenhum resultado contendo todos os seus termos de pesquisa”

Crônica Pesquisando AfranegildoPalidez. Invalidez. Sordidez. Uma amálgama de estados e sentimentos que o arrastou ainda mais para o fundo do poço. Se você não está no Google, você não existe, concluiu.

Para complicar, não possuía perfis em Facebook, Twitter, Instagram ou outras redes sociais. Em resumo, era o vazio absoluto com um nome pra lá de esquisito.

Em uma certa manhã qualquer, daquelas que prometem tédio e vazio caóticos, voltou ao Google. Novamente, na expectativa de boas notícias, tornou a realizar a deprimente pesquisa por seu nome. Os resultados, dessa vez, fizeram seu coração falhar algumas batidas.

Havia pelo menos 200 links contendo seu nome. Os títulos e descrições das páginas variavam, mas o contexto era sempre o mesmo: “Procura-se Afranegildo Lustosa por assalto a banco”.

Sem acreditar no que lia, notícia após notícia, Afranegildo era apresentado como o líder de uma quadrilha de assaltantes. No último ano, segundo as páginas dos sites que explorava com afinco, a quadrilha havia sido responsável por mais de uma dezena de assaltos. Milhões e milhões de reais arrancados dos cofres em assaltos cinematográficos.

Afranegildo ficou entorpecido, anestesiado. Como aquilo era possível? Será que tinha crises de personalidade múltipla? Estaria ele sendo vítima de uma pegadinha?

As respostas não viriam tão facilmente, com certeza. Aquela situação era de um surrealismo estonteante. Enquanto estava absorto nas razões e porquês, ouviu as viaturas da polícia cercando sua casa. Clicou no botão “Voltar” do navegador para retornar à página de resultados do Google. No momento em que foi algemado, sorriu ao ver os diversos links citando seu nome.

Afranegildo foi condenado a 20 anos de prisão.

Tornou-se até famoso na cadeia. Afinal, das centenas de presidiários ali, era o único que parecia feliz, exibindo um sorriso sincero dia após dia no seu rosto iluminado.