Toda mulher linda tem uma amiga feia. Extremos de um espectro. Às vezes, brutalmente gordas, em outras, avassaladoramente magras. Espinhas, dentes tortos, estrabismo são adendos opcionais. Em todos os casos, são as conselheiras. O anjinho (ou diabinho) montado no ombro da beldade lhe dando conselhos sobre o que fazer, e o que evitar no seu mundo de popularidade e bel-prazer. O que leva mulheres lindas a terem sempre uma amiga feia? Parece ser algo próximo a uma compensação. Uma boa ação para com aquelas que não tiveram a honra genética de serem agraciadas com contornos melhores definidos.

Mas há casos em que as lindas mulheres transferem sua amizade e confidência para homens – igualmente feios, grotescos e horripilantes. Estes fazem o mesmo papel das primeiras. No entanto, carregam um fardo adicional: a paixão pela melhor amiga. Na impossibilidade de conquistar a principesca colega, objeto eterno de seus sonhos mais românticos, eles se contentam em ser o ombro amigo, a voz da razão, aquele que oferece o lenço enquanto diz: “Chore a vontade hoje, porque amanhã, tudo vai dar certo”. Sim, tudo vai dar certo! Ele vai voltar para você! Vocês vão se casar e serão felizes para sempre!

Crônica Bela e a FeraBobagem! No fundo no fundo, o ombro amigo, a voz da razão, o parceirão que oferece o lenço, torce e se contorce para que tudo dê errado para elas. Pelo menos, no tocante ao assunto “relacionamento”. Se não podem tê-las, que ninguém mais as conquiste. São os amigos feios que choram fel e transpiram bílis. Se eles pudessem (uma única chancezinha, por favor), levariam o objeto de seu ódio, os galanteadores bonitos e atléticos, para Marte – mas não sem antes trucidarem os bonitões com uma motosserra, por garantia.

É uma triste sina, afinal – ser amigo de quem se ama. Para alguns, um consolo. Para outros, pior castigo. No fundo, alguns destes desafortunados acreditam em mudanças, em milagres. Existe uma teoria entre eles de que o impossível, a cada dois mil anos, se torna possível. Como um cometa Halley, porém, mais demorado e paciencioso. E de repente, ela, a pureza reformulada em contornos femininos, a realização dos seus sonhos mais cintilantes, olha para o estranho cidadão, corcunda, gago, magrelo, cheio de espinhas, que sempre lhe ouviu e apoiou, e sussurra com sua voz suave como véu: “Agora está tudo tão claro para mim. Você é o homem de minha vida”.

A propósito, pelo que andei pesquisando, a última vez que isto ocorreu foi há dois mil anos atrás. Em outras palavras, esperanças renovadas.

Ouviu amiga?

 

borda

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