Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Sonho Lúcido

Desde que conseguia se lembrar, possuía este invejável dom: durante os sonhos, tinha consciência de que estava sonhando.

Sonho lúcido ou qualquer coisa parecida. Diferentemente dos demais reles mortais, ao sonhar sabia que era um sonho, o que lhe dava autonomia (e autoridade) para fazer o que bem quisesse, sem pensar em tolas consequências.

Às vezes, demorava alguns instantes para perceber a estranheza do universo incoerente ao seu redor, mas quando percebia, assumia total controle sobre os acontecimentos. E então exalava soberania em cada fração (in)consciente. Já havia mergulhado do alto do trigésimo andar, e após plantar o crânio no asfalto, saíra assobiando tranquilamente como se nada tivesse acontecido. Arremessava carros além da estratosfera com um simples movimento das mãos. Derrubava edifícios com um pequeno sopro. E reconstruia outros com a mesma intensidade. Mas o que preferia fazer era voar. Amava voar. Talvez pelo medo de altura que tinha no mundo real, voar era-lhe sempre desafiador. E nem sempre era fácil. Às vezes, a metafísica onírica lhe passava a perna, e ele passava horas e horas saltitando, sem conseguir alçar voo.

Correr era outra insana impossibilidade. Nunca conseguira correr em um sonho. Agonizava, contorcia-se, praguejava, mas não conseguia ir além de um caminhar lento e moribundo.

A reação das pessoas com quem sonhava, muitas vezes, deixava a desejar. No mundo real, erguer um automóvel com apenas um braço conquistaria espaço na mídia. No mundo dos sonhos, para seu desapontamento, tal ato magnífico era muitas vezes ignorado por personagens incoerentes que não se incomodavam com incoerências.

A despeito de uma decepção ou outra, em suma, era seu melhor passatempo. Perfeito e irrestrito alento. Toda noite, quando se deitava, estava excitado com a perspectiva de assumir poderes absolutos em seu próprio mundo, irrealidade real, onde poderia ser tudo o que humano algum jamais sonhou alcançar. No mundo real, era pele e osso de uma podridão execrável. No mundo dos sonhos, era um deus.

Sonho Lúcido

Seus problemas começaram quando passou a mergulhar tão fundo nos seus sonhos que perdeu a noção da irrealidade. Antigamente, conseguia diferenciar o real do irreal pela inconsistência ao redor. Costumava fazer testes bastante simples para se certificar de que estava sonhando ou acordado. Se via um elefante voando, a dúvida se dissipava. Se nada de muito estranho acontecia, ele tentava mover objetos com o pensamento. Adicionalmente, mudanças abruptas de cenário também lhe davam a certeza de que estava deitado em sua cama, babando tranquilamente.

No entanto, como diferir o real do irreal quando, ao ver um elefante voando, se perguntava: “Elefantes voam no mundo real”? E se você não fosse capaz de responder a esta pergunta? Como saber o que é sonho, o que é realidade?

Certo dia, estava atrasado para o trabalho. Corria pelas ruas infestadas de neuróticos como ele, uma desesperada tentativa de não perder o próximo ônibus. Porém, antes de alcançar o ponto de ônibus, para sua surpresa, viu um cachorro de quatro patas. Cachorro com quatro patas? Pontos de interrogação começaram a lhe esbofetear. Ele tinha certeza de que já tinha visto cachorros bípedes. Qual dos dois era real? Qual dos dois apenas um sonho?

Bípedes? Quadrúpedes? E agora, como saber? Precisava pôr a realidade à prova. Tentou voar, saltitando pelas ruas, sem conseguir – isto já lhe havia acontecido dezenas de vezes em outros sonhos. Poderia estar acordado, pulando como um idiota, ou sendo trapaceado pela metafísica rebelde dos seus sonhos. Pensou em levitar algum objeto com a força do seu pensamento, mas antes que pudesse fazer tal teste, uma pomba passou voando em sua frente. Ele sorriu, aliviado. No final das contas, não estava atrasado porcaria nenhuma. Estava definitivamente sonhando. Pombas não voam no mundo real. São como as galinhas. Por isso, não teve qualquer medo de atravessar a rua sem olhar para os lados – e por que deveria temer algo em mundo onde ele era um deus?

Trinta minutos depois, uma testemunha comentava sobre o atropelamento fatal naquela manhã.

– Pobre coitado. Ele parecia tão feliz. Atravessou a rua sem olhar, saltitando como num filme da Disney, como se pudesse voar.

 

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9 Comments

  1. Sem dúvida o sonho é muito mais confortável e leve…e nossa realidade dura como pedra. Ah seu conto me fez uma ponte com o Murilo Rubião….

  2. Uma vez tive um sonho lúcido, mas fiquei com tanto medo que acabei desejando acordar, e de fato, acordei. Não sei porque, mas essas coisas me assustam demais. Sempre fico pensando que vou ficar presa no mundo dos sonhos ou algo do tipo… hahaha.
    Conheci o blog a pouco tempo mas já li a maior parte dos textos, e confesso que me bateu uma pontada de inveja, pois você escreve de forma perfeita. Para nós, leitores, se torna difícil até mesmo encontrar as palavras corretas para te elogiar, visto que nenhuma delas parece suficiente.

  3. adorei, passou a ser um dos meus textos favoritos.
    Deve ser porque me identifico muito com esse personagem, vivo no mundo dos sonhos.
    Mais não perde o senso de realidade ainda.

  4. Thiago Barbosa

    2 julho, 2014 at 00:27

    Adoro sonhos lúcidos! Porém, para mim, eles não são mais que frações de segundos, pois quando percebo estar sonhando eu tenho a tendencia de acordar quase que imediatamente. Ainda assim são sonhos adoráveis, visto que é inefável ter autonomia – ainda que por breve espaço de tempo – em um mundo só seu. Alguém por ai compartilha desta minha viagem?

  5. Gostei muito do texto! Sonhos lúcidos é um tema que me interessa muito e achei super legal o modo como abordou a questão da realidade e dos sonhos, sem vilanizar as viagens conscientes ao mundo onírico, tratando apenas de um cara que sonhou demais e esqueceu onde ficava o mundo real. Final trágico, mas fiquei feliz de encontrar esse texto para ler.

  6. Eu tenho uma paixão por sonhos e gosto de escreve r sobre eles (tanto que meu livro e meu blog são sobre o tema) sua abordagem foi muito boa e conto está muito bem escrito, parabéns!

  7. Muito bom esse texto.

  8. Bernardo matsinhe

    28 junho, 2015 at 16:27

    Impressionante o texto

  9. Foi uma experiência tão boa que me vi contigo nesse sonho! Parabéns

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