Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

Imaturo, Eu?

Acordei assim hoje, maduro, responsável. Estranha estranheza este estranhamento. A princípio, nada que acusasse a diferença. Mas, então, os primeiros problemas da manhã começaram a surgir – aqueles que socam teu estômago com uma ferocidade inigualável. O que eles esperavam de mim? Praguejar, esmurrar a parede, gritar em lágrimas: “Eu desisto”, e pedir para deixar o show? Afinal, foram décadas assim… por que mudar?

Mas, assim, hoje, do nada, nada fiz. Só o que quis. Não sob improvisos, mas tudo após uma cuidadosa reflexão. Um pensamento elaborado, uma sóbria avaliação. A derrota, esta traidora, costumeiramente me sorrindo e dizendo “bom dia verme, senti sua falta”. Depois de meia hora, digo: “hein?”. Ela odeia ser ignorada. Ainda assim, fingindo-se controlada (ela pensa que me engana), ela repete a frase e me espera chorar. Vai esperando… Aí, (espante-se), devolvo o sorriso (mas com aquele cinismo que gelaria tua espinha) e solto: “sua companhia é tão inútil que me envergonha ter de lhe responder”.

Uau… Na hora, senti o gosto amargo na boca. Que porcaria é essa? Que porcaria…? Mas, ela – ah, derrota irredutível – ela não desiste fácil. Parecendo imbatível, me cobra: “Onde está a criança chorona que costuma correr para debaixo da cama ao som dos primeiros trovões?” … O que digo? Saca só: “Está se preparando para dar-lhe um bom chute no traseiro”.

E o amargo se espalha definitivamente em minha boca. Estômago em polvorosa. Intestino delgado desvirtuado, já nem sabendo o que sobe e o que desce. Estranha sensação. Triste abreviação. Um mote prenunciando uma desconhecida e assustadora nova vida. O medo do que novos horizontes trarão, do que a coragem e o destemor revelarão.

Nesta hora, pesando prós e contras, corro para debaixo da cama e começo a chorar. Para minha surpresa, o amargo se dissipa. O estômago se aquieta e o intestino faz as pazes comigo.

Ah, como é bom estar de volta!

Crônica imaturo eu

(Crédito Foto: Scott Liddell)

 

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