17 de Janeiro

As pessoas acordam todos os dias querendo mudar suas vidas. Promessas. Pactos. “Hoje nascerei”. Mas não mudam. Não nascem. Nem renascem. De uma atitude revolucionária, condensam-se em modos passivos. Parecem cientes do gelo fino sob seus pés. Aquele mesmo que parece trincar abaixo de mim enquanto essas mal traçadas linhas se expandem. Um movimento mal calculado, e num segundo – pensam elas –, podem ser engolidas pelas águas congelantes. Por isso, adiam sonhos. Congelam planos. Seus objetivos estampados apenas nas crônicas pequenas que guardam no fundo de uma gaveta empoeirada e infestada de traças. O medo domina a mente. A mente estagna o corpo. E o corpo cria limo. Como pedras que nunca rolam.

Poderia se tratar de um grande passo. Mas a mente o liquefaz numa queda no abismo. Poderia ser uma estrada para um lugar melhor. Mas a mente a pulveriza com a sensação de que estamos perdidos e com frio.

Então que tal dar férias ao medo e encarar seus limites? Não é a pergunta que não cala. É o medo que não a deixa resolver-se.

Por isso, hoje, a manhã surgiu no horizonte com um aspecto diferente. As luzes da alvorada procedem de minhas veias. Os gostos se prolongam em minha boca. A imagem dela rejuvenesce a cada nota que meus ouvidos capturam. Hoje acordei e decidi mudar minha vida. Pode parecer se tratar de um passo em falso. Um falso ato. Pode parecer se tratar de uma queda no abismo.

Mas para mim, parece tratar-se de um grande passo.

(Crédito Foto: Robin Liang)