Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – PRÓLOGO

“A arte de escrever não causa dor. Nasce da dor.”
– Michel de Montaigne

2003

Os três vultos chegaram ao cemitério logo após a meia-noite.

Uma fria neblina repousava sobre eles enquanto eram observados pela jovem mulher, a curta distância. Três vultos. Três homens. Três fantasmas deslizando laconicamente sobre a terra úmida. Lápides escuras surgiam em meio à pesada neblina, formando um corredor de túmulos à direita e à esquerda.

Eles eram velhos conhecidos, uma intensa vivência em comum. Porém, nem mesmo os interesses compartilhados justificavam qualquer disposição para iniciarem uma conversa. Três figuras mergulhadas em um sepulcral silêncio, rompido apenas pelo caminhar no chão molhado, coberto de folhas.

E ela era a companhia deles, embora mantivesse certa distância. Não se aproximou, nem disse coisa alguma. Sabia muito bem a importância do momento para aqueles homens. Afinal, um dos vultos, um dos fantasmas, era seu marido. E estranho quanto possa parecer, ele carregava um case com um violão.

Ela já entrara naquele cemitério em outras ocasiões, esporadicamente. Uma lista pouco notória de falecidos: uma amiga da mãe, a esposa de um colega do seu pai, um tio brigado com a família. Pequenas frações de lembranças sem significado algum.

Mas no caso de seu marido, a história era completamente diferente. Ele costumava lhe dizer que aquele cemitério fizera toda a diferença em sua vida. Uma história contada e recontada milhões de vezes, cada qual devidamente ensaiada como se fosse a primeira, recheada de novos detalhes, íntimas intensidades.

Ele dizia ter bem vivo em sua mente a primeira vez. Era apenas um adolescente sonhador, ainda perdido no abismo da falta de um sentido na vida. Tremera como uma criança na ocasião, embora acompanhado dos três amigos. Achara uma loucura quando um de seus amigos dissera que era ali que costumava passar suas horas de diversão.

A segunda visita ao cemitério fora muito mais significativa. Os mesmos personagens, os mesmos corpos recurvados em busca de ar. Nesta ocasião, nascera os quatro homens que viriam a inspirar um jornalista a escrever: “Dois em cada três jovens no mundo conhecem esses garotos”. Ali conheceram Jeremias Knoxville, o imigrante americano que controlava grande parte das jazidas de diamante do estado na década de 50. O mesmo local que guarda os mortos, dera vida a uma lenda que sobreviveria através das eras. Ali, nasceram. O sol se cansara da infame lua. Enfim, vivos.

Porém, dos quatro mitos, um deles já era uma lenda morta. E os três sobreviventes eram os vultos que caminhavam à sua frente. Eles escolheram entrar ali depois da meia-noite, como nos tempos antigos. O que tinham a fazer era algo particular demais para ser observado por visitantes curiosos.

Chegaram finalmente perto de um túmulo. Ela aproximou-se, o coração acelerado. Mal podia acreditar que dentro daquele túmulo havia um homem com tamanha força intelectual, e que agora, se encontrava num estado totalmente inerte. A brevidade da vida era algo que a fazia seu estômago revirar.

O silêncio continuava imperando entre eles. Mas de certa forma, ela não conhecia silêncio tão cheio de significado.

O homem a quem amava colocou seus braços sobre os ombros dos amigos, um gesto similar ao feito dias antes no Long Island Bar. Eles se mantiveram naquela posição, imóveis. Há poucos segundos eram como fantasmas. Agora pareciam três estátuas fúnebres.

Os olhos dela se voltaram para a lápide. Abaixo do nome, data de nascimento e morte dizia a epígrafe:

“Sou o coelho caçado impiedosamente em campos escuros
Mas, às vezes, sonho que sou o caçador”

Lágrimas vieram aos olhos dos amigos, mas seu amado permaneceu impassível, embora ela soubesse o quanto aquilo doía dentro dele.

– Fomos os melhores, irmão. – Seu marido começou a discursar. – Os melhores que o mundo já conheceu. Ninguém poderia imaginar que chegaríamos até aqui. Nem nós mesmos. Mas você nos mostrou o caminho, você nos deu a direção. Todos tivemos uma participação, é claro, mas não teríamos conseguido metade se você não tivesse entrado em nossas vidas. Você nos deu fôlego quando estávamos mortos. – Ele parou de falar um pouco como que escolhendo as melhores palavras. – Somos uma equipe. Somos membros que fazem parte de um corpo. E assim como prometemos na última vez em que estivemos aqui: se um de nós parar, todos param. E assim será. Não vamos seguir adiante porque o corpo perdeu um de seus membros. Estamos aleijados. Sem você, irmão, não iremos a lugar algum.

Ele tirou o violão de dentro do case que carregava em suas costas e sentou-se no chão. Logo em seguida, seus companheiros sentaram-se também. Os três se entreolharam, como que procurando gravar bem em suas memórias aquele momento, porque seria a última vez em que estariam juntos. A última reunião dos quatro jovens.

Depois de um instante, ele começou a dedilhar uma suave canção.

– Esta é para você – disse, laconicamente, para aquele que repousava no túmulo.

___

Eram olhos verdes de um brilho sombrio e sem vida. Todos os fantasmas apareceram de uma só vez. Ela se via entregue às profundezas do vazio e da ausência de calor. Tudo o que ela via no espelho era a figura de um ser derrotado, um moribundo esperando a morte chegar.

Veraline sabia que aqueles eram seus últimos minutos de vida, e por isso tentava se lembrar de algum dia perdido no tempo em que fora feliz; mas tudo o que conseguia se lembrar era de momentos de tristeza, solidão e medo. Os instantâneos de felicidade se afogavam no oceano de pesadelos traumatizantes. Ela sentira medo durante a maior parte de sua vida. Não podia confiar nas pessoas. Não sabia como confiar nelas. Vivia isoladamente em seu próprio deserto, causticada pelo desprezo do universo para com o fracasso de sua vida. Ninguém chorava por Veraline.

Ninguém.

Veraline se tornara uma pessoa bem diferente do que seus pais desejavam. Eles sempre a exibiram como uma princesa da alta sociedade. Mas hoje ela estava anos-luz da expectativa deles. Quem poderia imaginar que a linda, inteligente e ambiciosa Veraline terminaria sua vida daquele jeito?

Ela desejava ter uma segunda chance, mas agora era tarde demais.

Veraline estava em seu apartamento em Astoria. Em sua frente, tinha a edição corrente da revista Rolling Stones. Na capa, observou os quatro homens que conhecera na infância. Entre eles, o único homem que a amara de verdade em toda sua vida. Hoje, ele não tinha mais aquele olhar taciturno, aquela expressão estranha que fazia com que colegas de escola dissessem: “Este garoto não é normal.”

Lamentar. Agora era tarde demais para lamentar.

Veraline tirou os olhos da revista e se olhou no espelho. Lágrimas corriam pelo seu rosto. Ela estava magra e com olheiras – as drogas e o álcool estavam acabando com sua vida. Para piorar sua situação, ouvia sons e vozes diariamente. A loucura correndo em suas veias. Insana Veraline.

Reconstituindo seu breve passado, Veraline não era capaz de dizer onde exatamente começara a errar – só sabia que era tarde para corrigir os erros.

Ela soltou a revista e apanhou um revólver carregado, colocando-o na altura da têmpora.

Antes de puxar o gatilho, Veraline pediu que Deus a perdoasse.

Ir para CAPÍTULO 1

 

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5 Comments

  1. Excelente historia,fiquei na vontade de seguir lendo. Lástima que é parte da historia.

    • Juliano Martinz

      16 fevereiro, 2016 at 23:17

      Este é o prólogo, Nelson. Os demais capítulos serão postados nos dias a frente. Obrigado pela visita!

  2. Adorei o prólogo… Espero que todo o resto seja tão bom quando ele. Ansioso para ler o resto da história.

  3. Sou aficionada por Prólogos e Epílogos. Não são recursos tão explorados… recebi do capitulo quatorze em diante, então vim a trás do inicio.
    Comecei a ler a Lenda só hoje mas já gostei…

    • Juliano Martinz

      10 outubro, 2016 at 20:54

      Somos dois, Sephora. Se o livro tem prólogo e epílogo, é um ponto a mais para despertar minha curiosidade.

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