2003

A arma estava colocada na altura da têmpora.

Ela ouvia vozes em todo o redor. Estava completamente louca. Ela reconhecia isso. Ficara os últimos dias trancada dentro do seu apartamento. Não atendia ao telefone. Não atendia a porta. Comia pouco. Drogas e bebidas alcoólicas. Um cérebro em decomposição.

“As coisas que você tem e que dá tanto valor são efêmeras, Vera”.

As vozes que ouvia aumentavam a cada dia. Diziam coisas que ela ouvira durante toda sua vida. Frases que ela mesma dissera. “Fique longe dele, seu maluco.”. Tudo repetido constantemente em sua cabeça. Ouvia com tanta nitidez que era como se estivessem ao seu lado, lhe dizendo pessoalmente. Ouvir aquelas vozes produzidas pela sua mente conturbada deixava-a amedrontada e nervosa.

“Veraline. Você está aí?”

Vozes. Imaginação. Como diferenciar? Ela nunca sabia quando era realidade e quando era fantasia. Só sabia que era atormentador. A tortura tinha de ter um fim. A tortura teria um fim.

“Sei de sua dor, sinto sua dor, saro sua dor”.

Ela colocou o dedo no gatilho.

“Nós vamos arrombar a porta”.

Tudo o que ela queria era consertar o erro.

“Quer conhecer o paraíso, Vera? Me dê uma chance e te mostrarei como ele é lindo”.

Mas era tarde demais.

“Não faça isso!!!”

– Deus, me perdoe. – E puxou o gatilho.

Um tiro. Alguém em cima dela. Seu corpo arremessado violentamente para o lado. King Jeremy na capa da Rolling Stones. Muita dor. Dor nas costas. Não deveria ser na cabeça?

Tudo escureceu.

___

– Seu nome. Lembra-se do seu nome?

– Veraline.

– Sabe por que está aqui, Veraline?

– Sei. Sou dependente química. E depressiva.

– Sabe como veio parar aqui?

– Sim. Quase me matei. Alguém do Resgate do Corpo de Bombeiros me salvou. Escapei por pouco. O tiro passou a poucos milímetros da minha cabeça. – Ela deu uma pausa. – Preciso de tratamento. Estou sendo tratada. É por isso que vim para cá. Por causa do tratamento.

– Você se lembra dos eventos anteriores ao que você acaba de me dizer? Seu passado, sua família, sua infância?

– Tenho vagas lembranças. São lembranças incertas.

– O que sente ao ter essas lembranças?

– Nada. São indiferentes. Se são vagas, são dispensáveis.

– Há alguma coisa que não lhe seja vaga neste momento?

Veraline pensou antes de responder:

– Só há uma coisa de que tenho realmente certeza: vou me recuperar. – Ela deu uma pausa e encarou a mulher vestida de branco em sua frente, um olhar bem próximo de maligno. – Veraline sempre vence.

___

Quando o último acorde foi soado, Andreas percebeu que agora, definitivamente, tudo estava acabado.

Ele, Aquiles e Fábio acabavam de fazer a última reunião do King Jeremy, sentados em frente ao túmulo de Elou. Passava da meia-noite naquela madrugada fria. Aquela foi, sem dúvida, a última reunião dos quatro amigos.

Eles se levantaram após entoarem juntos uma canção em homenagem a Elou. Fábio e Aquiles secavam as lágrimas. Andreas não tinha lágrimas para secar. Só uma intensa dor, um vazio imenso dentro de si. O frio da madrugada se confundia com o frio vigente em seu peito nu.

Ele voltou-se para os amigos.

– Para onde vocês vão?

– Vou para Londres amanhã cedo – respondeu Aquiles.

– Vou passar uns dias em Buenos Aires – falou Fábio. – Preciso de uns dias para saber o que farei daqui pra frente. Também viajo amanhã cedo.

– Bem, se é assim, acho melhor a gente se despedir aqui mesmo, porque amanhã não levanto antes do meio-dia.

Eles se abraçaram e trocaram palavras generosas como: “Obrigado!”, “Não teríamos conseguido sem você”, “Você é o melhor”, etc.

– Estarei em Londres em um mês, Aquiles. Eu te procuro. E você Fábio, vê se toma juízo e se cuida.

– Pode deixar, irmão.

– Eu te ligo.

Aquiles e Fábio se viraram e foram embora.

Andreas observou os dois amigos se afastando e sumindo no meio da densa neblina.

E então estava acabado. King Jeremy acabara. Ou o sonho, como preferiria dizer John Lennon. Andreas sentia-se triste. Via as costas quase imperceptíveis dos seus amigos sumindo sob a neblina, tinha seu grande amigo enterrado a alguns metros dele, e tinha a certeza de que nunca estariam juntos, novamente. O começo sempre traz a excitação de momentos que poderão ser alcançados com a persistência. Mas o fim não traz nada. Parece sempre levar algo embora.

E sempre leva.

Mas Andreas se lembrava bem do que Aquiles falara no discurso de despedida, no Long Island: “Temos a sensação de dever cumprido”. E isto resumia tudo.

Dever cumprido, coelho.

A pouca distância, estava sua esposa Suzana. Ela o acompanhara até ali. Queria estar perto do marido em todos os momentos, principalmente nos mais importantes.

Ela se aproximou olhando-o, atentamente. Andreas percebeu que ela queria dizer alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê. Em momentos assim, muitas vezes, não são necessárias palavras. Apenas a presença de quem se ama.

– Vamos pra casa, Su.

– Era exatamente o que eu ia dizer.

Ele passou a mão por sobre o ombro dela, e começaram a se encaminhar para o carro.

Enquanto caminhavam, toda a vida de Andreas passava diante dos seus olhos. Ele podia ver tudo, desde o começo. Ele podia ver a criança estranha, corcunda e feia, que era alvo de zombaria da molecada. Ainda se lembrava do primeiro dia de aula no Tomas Salvatori quando Aquiles ficara encarando-o com aquele olhar ameaçador e quando Andreas, no mesmo dia, escrevera no seu caderno: “Branca de Neve, e se o seu príncipe for um psicopata?” Ele podia ver tudo, nitidamente. Mas hoje ele sabia que não era mais o mesmo. Não era mais a porcaria de um luseriano. Não era mais a caça. Deixara de ser o coelho indefeso.

Que os caçadores abaixassem as armas porque a temporada de caça a Andreas Hugo havia acabado.

Agora, Andreas sabia que tudo o que passara na vida, de alguma forma, contribuíra para torná-lo o homem que ele gostaria de ser: maduro e digno. Sem sonhos impossíveis. Sem alvos inatingíveis. Tudo o que ele queria agora era trabalhar, cuidar de Suzana, constituir uma família. Este era o seu presente. Esta era a sua doce realidade. Este era Andreas Hugo.

E a todos aqueles que, de uma forma ou outra, ajudaram-no a ser quem hoje ele era, Andreas só tinha uma coisa a dizer:

“Ao cair das cortinas, desejamos a todos vocês uma boa noite”¹

lenda-king-jeremy-fim

 ¹ This Time – Smashing Pumpkins