Tentando apagar os seus erros, sozinho e cercado pelos muros do coração

As chuvas de Maio de 1992 foram intensas. Dia após dia – um dilúvio sem fim. Era o prenúncio de um inverno rigoroso. Ou, mal sabia Andreas, de um verdadeiro passo rumo aos seus sonhos.

Ele estava no pátio da escola. Ao seu lado, Aquiles e Alex discutiam trivialidades: esportes e outros tópicos banais. E como Andreas não tinha nada a acrescentar à conversa estúpida dos dois, ficou apenas observando a movimentação daquele povo agitado do colégio que amava gritar.

Seria muito fácil para qualquer pessoa no planeta olhar para aquela balbúrdia toda e encará-la como normal, mas não para Andreas. Ele ficava profundamente irritado quando ouvia pessoas gritando e correndo como um bando de malucos em um hospício. Tinha medo de terminar da mesma forma. Gostaria de escapar daquilo. Porque se um dia precisasse correr e gritar para se sentir vivo, preferiria estar morto.

A conversa insuportável dos dois prosseguiu até que Alex perguntou:

– E aí, roqueiro? Montou a banda que tanto falou?

– Como assim “tanto falou”? – A amargura de Andreas saltitando em cada sílaba. – Nem tenho falado sobre isso.

– Esse negócio de banda é coisa de maluco. Ninguém está a fim de coisas desse tipo, não.

Até que, de certa forma, o imbecil tinha alguma razão.

– Eu estou interessado – falou, Aquiles.

– Até você, Cego? E você sabe tocar alguma coisa?

– Eu toco guitarra.

Alex caiu na risada.

– O Cego guitarrista. Essa é boa. Deve se atrapalhar a beça. Vê tudo dobrado. Guitarra de doze cordas.

Nos anos anteriores, Andreas se divertia quando alguém zombava de Aquiles. Gostava de ver a expressão de desgosto na cara daquele cidadãozinho arrogante. Mas agora, com a amizade dos dois assumindo outro nível no universo, Andreas não conseguiu mais achar graça. Por isso, ele e o amigo limitaram-se a encarar Alex, sérios.

A reação teve um bom efeito. O mala descobriu-se deslocado e, sem graça, limitou-se a dizer um “falou”. Depois, desapareceu no meio dos insanos que continuavam correndo e gritando.

A ideia de ter Aquiles em uma parceria musical era animadora. Aquiles era vibrante em suas letras. Havia tanta dor e desprezo ali que Andreas enxergava a si mesmo em cada verso. Ele via a sintonia dos dois como Morrissey e Johnny Marr. Um casamento perfeito, daqueles que a música só consegue presenciar com intervalos de muitos anos.

E isto significava que precisavam agir sem demora. Deixou isso claro em suas próximas palavras:

– O rock está em alta, cara. Temos que aproveitar esta oportunidade.

– Mas, fica difícil fazer alguma coisa só com guitarra e baixo, né?

– Não precisamos de muito: só um baterista.

– O que acha de colar alguns cartazes aqui na escola?

– É uma opção. Mas a gente precisa ser específico. Queremos algo sério, tocar músicas próprias, essas coisas. Nada desses sem noção que querem montar uma bandinha para tocar covers uma vez por semana.

Poderia parecer um longo trajeto, mas, na verdade, havia motivo para otimismo. Até algum tempo atrás, Andreas estava sozinho na sua banda de um homem só. E agora tinha Aquiles como letrista e guitarrista. Quando menos esperassem, encontrariam o elemento que faltava para seguirem adiante.

Por mais que fosse otimista, ele só não imaginaria que isso começasse a acontecer naquele momento. Enquanto conversavam, um garoto japonês aproximou-se dos dois.

– E aí?

Andreas balbuciou qualquer coisa em resposta, que nem ele seria capaz de traduzir.

O japa continuou:

– Fiquei sabendo que você toca guitarra. É verdade?

– É… Também.

– Você tem banda?

Aquiles se adiantou, apressadamente.

Nós somos uma banda.

– Legal. Eu também tenho uma banda.

– Ah é? Bacana. Que tipo de som vocês fazem?

– Pop rock.

Andreas não gostava dessa definição. O rock precisa ser rock. Se será popular ou não, será uma consequência, não um estilo.

– Vocês compõe? – perguntou o japonês.

– Só tocamos músicas próprias.

– Sério? Cara, ultimamente a gente começou a ficar meio cansado desta história de tocar músicas dos outros.

– E por que não fazem composições próprias?

– Nós compomos. Só que … é uma porcaria.

Andreas ergueu os ombros e estufou o peito. Sentiu-se o senhor da situação.

– O que é porcaria? As letras, as melodias?

– Na verdade, tudo.

Andreas e Aquiles se entreolharam da mesma forma que Chaplin e os irmãos Marx trocariam olhares se alguém lhes dissesse: “Eu não sei fazer comédia”.

Andreas sabia o que era uma porcaria de composição. Estava muito acima disso. Ele poderia olhar do alto do seu pedestal, do ápice de seu talento para baixo e visualizar, tão longe que quase fugiria de sua vista, uma porcaria de composição. Um jovem demasiadamente avançado para seu tempo. Isto era inegável.

– Em quantos vocês são na banda?

– Quatro. Guitarra, baixo, bateria e teclado.

Andreas não deixou de sentir uma pontada de inveja.

– Eles estudam aqui também?

– Sim, todos eles.

Como não ouvira falar deles até então?

– Ok. Então, estão precisando de um integrante que componha?

– Isso aí.

– Eu componho e toco baixo, e o Aquiles escreve as letras e toca guitarra. Se quiser, a gente pode te mostrar algumas de nossas músicas.

– Legal.

– Qual o nome da banda de vocês?

– Os Aborrecidos.

Andreas não ficou surpreso. De alguma forma, já esperava por algo acima de ridículo.

– Onde vocês ensaiam?

– A gente aluga um pequeno estúdio do Davi Mateus. Conhece?

– Sei qual é.

– Uma vez por semana, durante duas horas. O pai do nosso tecladista é quem paga o aluguel. Ele banca tudo. Vocês não querem ir lá na terça, às oito da noite?

– Sim, boa.

– Lá vocês conhecem a galera. Daí a gente faz uns barulhos.

– Legal. Qual teu nome, cara?

– Rogério.

– A gente se vê na terça, então.

Andreas observou Rogério enquanto este se distanciava. Era um japonês baixo com uns dentes bem grandes. Mas não era o tipo esquisitão – características principais dos grandes gênios da música, segundo a teoria maluca de Andreas.

– O que acha? – perguntou, Aquiles.

A resposta parecia simples. Mas não era. Como quase tudo na vida, a complexidade reside nas questões mais simples.

– Na verdade, pode ser uma boa coisa. Apenas tenho medo de não termos o controle do criativo.

– Que criativo, cara?

– Sempre falamos em montar uma banda, começar do zero. As composições seriam nossas, a decisão do nome da banda seria nossa, a decisão das capas, dos videoclipes. É disso que estou falando. Controle do criativo. Nós seríamos a banda. Os outros seriam coadjuvantes. – Andreas apontou para Rogério já bem distante. – O problema é que eles já tem a banda montada. A festa é deles. Somos apenas os convidados.

– Deixa de ser psicótico, cara.

– Você que é ingênuo. Não sabe como essas coisas funcionam.

– Quando nos ouvirem, eles vão se curvar diante de nós.

– Tomara.

– O importante é a gente ter nossa banda, Andreas. Poder compor, tocar para a galera. Não é o que a gente tanto quer?

Andreas sabia que o amigo não entendia a sua posição. Mas não parecia justo que a arte que ele era capaz de criar, a partir do desprezo que recebera desde sua infância, ficasse simplesmente restrita às opiniões pequenas de pessoas sem talento.

– E outra coisa: Os Aborrecidos?! Que nome mais ridículo!

– Esqueça o nome. Eles devem estar numa situação parecida a nossa.

– Situações como a nossa geram criatividade, não retrocesso. Isso me parece mais um grupo de pequenos burgueses querendo chamar a atenção dando uma de rebeldes talentosos. Nada de muito influente. – Ele suspirou. – Apenas … garotos.

___

Os Aborrecidos olhavam para os dois com certa desconfiança.

Na terça-feira a noite, conforme o combinado, Andreas e Aquiles foram ao estúdio, e levaram seus instrumentos.

O dono do estúdio se chamava Davi Mateus. Além de alugar o estúdio, ele produzia bandas regionais, gravava seus álbuns, lançava-os no mercado. Mas não era um homem muito influente. Apenas um pequeno produtor, sem maiores pretensões.

Quando Andreas e Aquiles ali chegaram, os 4 integrantes dos Aborrecidos já estavam ensaiando. Todos pararam, imediatamente. E durante alguns segundos, que pareceram uma eternidade, olharam Andreas e Aquiles dos pés a cabeça, como se pensassem: “Essas seres monstruosos e desengonçados são capazes de compor?”

Pessoas más pensam coisas más.

Por um momento, Andreas desejou dar meia-volta e sair dali. Não gostava do modo como eles o encaravam. Mas antes de tomar uma atitude precipitada, procurou respirar fundo e espantar seus fantasmas.

– Lembra da gente?

Rogério se adiantou.

– Claro, cara. Chega aí. Vou apresentar a banda pra vocês.

E começou.

Rogério, o japonês dentuço, tocava guitarra e fazia os vocais. Eduardo, um gordinho com cara de espanto, tocava baixo. Rodrigo assumia os teclados – era um cara alto, e parecia o mais desconfiado de todos. Era o tal filho do bacana que bancava todas as despesas da banda. Tinha uma expressão arrogante. Andreas antipatizou com ele de imediato. O outro, calado e distante, era um negro corpulento, chamado Fábio – o baterista.

Todos estavam na faixa dos quinze anos, assim como Andreas. Mas, pareciam apenas garotos querendo se divertir, a exceção de Fábio que carregava uma certa angústia naquele olhar distante. Mas Andreas preferiu deixar as avaliações depois de vê-los tocando.

Andreas e Aquiles também se apresentaram. Enquanto falavam, todos os presentes faziam um silêncio assustador. Era uma estranha sensação, como se estivessem em um interrogatório.

Depois de algumas perguntas feitas de ambos os lados e de ouvirem, satisfatoriamente, as respostas, Andreas sugeriu:

– Toquem alguma coisa aí pra gente ouvir.

– O que querem? Cover ou músicas próprias?

Seja o que Deus quiser.

– Músicas próprias.

– OK. Vamos lá, pessoal.

Logo em seguida, o desastre universal começou.

Andreas procurou se lembrar, em algum ponto perdido no passado distante, de um momento em que ouvira algo tão ruim. Por mais que tentasse, não conseguiu se lembrar de nada tão assustadoramente repulsivo. A sonoridade, os arranjos, a fusão instrumental, as letras – tudo muito ruim. Rogério mentira quando dissera que suas músicas eram uma porcaria; na verdade, eram desprezíveis.

Andreas tentava isolar a interpretação de cada um deles. Rogério esbravejava, desafinadamente: “Se você não me quiser / Tem quem queira, baby / Se você não ligar para mim / Também não ligo para você”. Além disso, ele não tinha uma boa intimidade com a guitarra. Ele parecia lutar para controlar o instrumento. Até Aquiles, que ainda era um tenro aprendiz, tocava melhor que o japonês.

O gordinho do contrabaixo também deixava a desejar – o instrumento parecia ser maior do que ele, e isto prejudicava sua coordenação. Já Rodrigo, o tecladista desconfiado e metido, tocava bem. Criou uma sonoridade elegante, porém, que não combinava em nada com o que estavam tocando. O baterista Fábio também parecia saber o que fazia. Tinha talento, e tentava preencher as lacunas deixadas pelos outros integrantes. Mas seu talento ficava, no máximo, subentendido por detrás de toda aquela algazarra que zunia nos ouvidos apurados de Andreas. A melodia era uma criação inóspita de acordes inusitados. O que os Aborrecidos faziam, estava deixando Andreas aborrecido.

Quando terminaram, Rogério esboçou um sorriso orgulhoso. Embora achasse suas próprias músicas uma porcaria, parecia na expectativa de ouvir algum elogio.

– O nome da música é: “Tô Nem Aí Com Você”.

Andreas suspirou. Não sabia se ria ou chorava.

– Cara, é uma tragédia. – O idiota poderia ter sido mais gentil, é verdade. Mas a personalidade que crescia dentro de Andreas não era muito propensa a amabilidades.

– Eu tinha avisado que era uma porcaria – disse Rogério, desapontado.

– Nada que não possa ser melhorado, eu diria.

– Acha mesmo?

– É só questão de tempo. Trabalhar as músicas, os arranjos, o entrosamento. Isso se consegue com muito ensaio.

– Ouvi dizer que vocês fazem músicas próprias também – disse Rodrigo, em um tom desafiador – Mostra para nós como é uma boa música.

O garoto ficou encarando os dois. Um sujeitinho petulante esse tal de Rodrigo. Ele ainda mantinha aquele olhar desafiador. Andreas se lembrou de quando Aquiles o encarara dessa maneira assim que o conhecera. Poucas coisas o irritavam tanto quanto ser encarado.

Ele estava disposto a dar uma lição no garoto.

Andreas olhou para um violão elétrico no canto do estúdio. Embora estivessem com a guitarra, ele preferiu uma sonoridade mais acústica.

– Aquiles, use aquele violão.

Andreas ligou o contrabaixo no amplificador, enquanto Aquiles afinava o instrumento.

Depois de prontos, Andreas lançou um olhar para os seus observadores. Estavam inexpressivos, exceto Rodrigo que tinha um sorrisinho cínico. O olhar de Andreas era como o olhar de um mestre para seus seguidores.

Sem tirar os olhos deles, Andreas disse:

– Vamos começar com algo leve, como Os Muros do Coração. Pode soar estranho, eu sei. Trata-se de uma canção densa, mas executada apenas com violão e baixo. Não sei se já ouviram um som caótico como este, mas … acho que vão gostar.

– Espero que não seja uma tragédia. – A voz de Rodrigo reverberando desafio.

– Julguem vocês mesmos.

Aquiles introduziu a canção com um dedilhado. O ouvido apurado de Andreas percebeu uma certa dificuldade no amigo, mas com certeza os outros garotos eram burros demais para perceberem isso. Quando Aquiles deu a primeira batida no violão, Andreas entrou com seu baixo numa profundidade melancólica que acompanharia o restante da canção.

Andreas chegou até o microfone e começou a cantar:

Quem é que precisa estar centralizado

Convivendo com fantasmas, se sentindo assustado

Uma cara enlutada, o caos em aproximação

Tentando apagar os seus erros

Sozinho e cercado

Pelos muros do coração?

 

Meus olhos cobertos de pó

Meu sangue tem gosto de dor

E se estiver ficando louco

Não me venha por favor

Com esses grilhões de aço, uma sentença à solidão

Porque aquilo de que precisamos

É que derrubem de vez

Os muros do coração

Andreas cantou as estrofes a primeira vez, e depois de um solo quase perfeito de Aquiles, cantou-as novamente. Ao final, as batidas no violão foram se tornando cada vez menos imponentes, até que deram lugar a um dedilhado suave, e por fim, desaparecendo, deixando apenas Andreas soar seu baixo até finalizar a canção.

Quando terminaram, Andreas divisou seus observadores. Continuavam em silêncio. Até que Rogério disse, incrédulo:

– Essa música é de vocês?

– Sim. Composta em 4 de Janeiro deste ano, às dezenove horas.

– Mas … é magnífico!

– Pode crer, muito bom mesmo – disse Eduardo, o gordinho.

– Não esperava que fosse tão boa. – Rodrigo se redimia.

Mas de todos os elogios e comentários que os garotos fizeram, Andreas gostou especialmente do que o baterista disse:

– Cara, nós vamos fazer sucesso!

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