Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 8

Um homem sem sentimentos. Apenas uma cicatriz imaginária no pescoço

1992

  • O U2 inicia Zoo TV Tour que mostra a relação existente entre o rock e a TV;
  • O Pavement lança seu primeiro álbum, Slanted and Enchanted, e se torna uma revelação no rock alternativo. A displicência dos integrantes durante as apresentações e a desafinação do vocalista Stephen Malkmus fazem do Pavement um grupo único, no início da década de 90;
  • Francis Black dá uma entrevista a BBC decretando o fim do Pixies, deixando os outros membros da banda perplexos, já que ainda não haviam sido informados. Francis diria, anos depois: “Eu não queria passar 30 anos excursionando com os mesmos caras como se fosse um U2 alternativo”;
  • Em uma visita à Guitar Shop, uma loja de instrumentos musicais, a cliente Fernanda Takai deixa uma fita K7 com algumas de suas canções para um dos sócios-proprietários;
  • No dia 14 de Fevereiro, Rivers Cuomo, Brian Bell, Matt Sharp e Pat Wilson formam, em Los Angeles, o Weezer. Eles começam a compor algumas músicas e tocam em pequenos clubes locais.

Ele mudara. O antigo Aquiles estava morto, e um novo havia ocupado seu lugar. O velho Aquiles não tinha cicatrizes; o recém-nascido tinha uma no pescoço, deixada pelas unhas afiadas de Veraline. Na verdade, o discreto arranhão provocado pelo ataque de Veraline não deixou nenhuma cicatriz. Nada visível, ao menos. No entanto, invariavelmente, quando ele dizia seu nome, tocava o pescoço. Um movimento automático iniciado desde aquele dia traumático.

– Sou Aquiles Lucká! – E levava a mão ao pescoço.

O que acontecera naquele dia resultara em suspensão de três dias para Aquiles, Veraline e mais dois alunos que se envolveram na confusão. Desde então, Aquiles e sua ex-princesa nunca mais trocaram palavras – o que, na prática, não mudou muita coisa. O que havia mudado, de fato, era que Aquiles se transformara em um novo homem.

Um homem sem sentimentos. Um homem sem lágrimas. Apenas uma cicatriz imaginária no pescoço. Ao mesmo tempo, dera vida a um ser diferente, um jovem insensível que não se preocupava com o que acontecesse além do raio de um metro. Poderia ser uma ausência emocional passageira. Ou talvez passasse a ser a sua característica de personalidade mais imediata.

E nas horas vagas, o homem sem sentimentos passou a ler tudo o que fosse colocado à sua frente. Tornara-se um viciado em leitura: contos, romances, poemas, letras de música, manuais de usuário, bulas de remédio. Tudo aquilo que o mundo oferecia registrado em formato escrito, ele consumia.

E, consequência direta ou não deste novo hábito, passara a escrever muito. Acatara o conselho de Andreas e passara a expressar tudo o que sentia no papel. Literatura em forma de contos e crônicas. Pensamentos soltos e versos rimados. Expressões sem métrica ou lógica mas que, ao mesmo tempo, pareciam definir exatamente quem ele era e o que pensava.

Havia uma acidez e melancolia que caracterizavam tudo aquilo que ele escrevia. Era sua identidade, e era claramente percebida no papel. Tinha vida própria. Pulsava angústia e solidão, gritando ao mundo seu vazio interior.

Aquiles havia descoberto subitamente algo em que ele era bom. Talvez ali residisse a oportunidade de sua liberdade. Talvez a ascensão ao primeiro lugar.

Por outro lado, Andreas tinha um talento incrível: tocava muito bem, e tinha o dom de compor melodias muito boas. Não é preciso muito para perceber que ali se formava um casamento notável: Aquiles tinha o talento para escrever e Andreas, para compor.

E a ideia de montarem uma banda amadurecia aceleradamente. Embora um bom letrista, Aquiles só arrancava alguns poucos acordes no violão. Por isso, Andreas começou a dar-lhe aulas particulares. Quando não estavam em aula, os horários eram preenchidos com o desenvolvimento das habilidades musicais de Aquiles.

Dos encontros, das conversas e planos surreais sobre o futuro da banda que nem chegara a nascer, frutos começaram a se tornar visíveis. Certo dia, Aquiles entregou um poema para Andreas e disse:

– Coloque música nisso aí.

Levou menos de 24 horas. No dia seguinte, Andreas pegou seu violão, pediu para o amigo se sentar e anunciou:

– Ouça isso.

Naquela tarde, Aquiles, o homem insensível, se emocionara. A melancolia da letra, a melancolia da música, a melancolia da voz de Andreas – perfeição sublime.

Ele disse ao amigo a única frase que poderia ser dita naquele momento:

– Cara, nós vamos arrasar!

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borda

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2 Comments

  1. :( Continua

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