Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 7

Humano e sincero reduzido a restos e células mortas

A vida, definitivamente, não era a mesma – estava deficiente, manca, uma tosca aberração. A estranheza corria nas veias de Aquiles, e ele sentia os ossos cada vez mais frágeis.

Apesar dos encontros diários com sua musa no colégio, a história desgastante se repetia: Veraline continuava evitando-o. Na verdade, parecia temê-lo. Como se ele fosse uma ameaça, um maníaco. E a sensação de rejeição consumia o garoto. Ele se decompunha em restos e células mortas.

Andreas, por outro lado, parecia acreditar ser capaz de despertar um artista dentro de Aquiles. Que a decadência é apenas o estado que precede à criação. E seu discurso sobre inspiração, inclusive sobre sua recém-composta música, deixou Aquiles curioso. A sensação de estar no mesmo barco furado, de certa forma, unira os dois inimigos. Precisariam reunir forças para escapar do fato de estarem prestes a morrer afogados. Não fora uma simpatia automática. Mas, na luta pela sobrevivência, pareciam ter feito um acordo de paz, como os realizados eventualmente por nações antagônicas, visando um bem maior.

Seria possível que Andreas tivesse alguma razão? Seria possível que tamanha lentidão mental, que abrigava aquele corpo decadente, poderia esconder alguma genialidade criativa?

Parecia difícil acreditar.

Era uma triste realidade. Mas Aquiles, com apenas 16 anos, já havia perdido a fé em si mesmo.

___

Era intervalo.

Aquiles e Andreas, as duas estranhas figuras estavam isoladas. Aquiles, soturno e calado, observava Veraline com a amiga, Márcia. Andreas deve ter percebido seu olhar suplicante, pois comentou:

– O ser humano é maluco. Depende do amor, sofre por amor, morre de amor. Acho que você está no último estágio.

Aquiles levou quase dois séculos para responder, lacônico:

– Eu morreria por ela.

– Você é só um idiota que não sabe o que diz. – Uma longa pausa. Se Andreas esperava um comentário, um protesto, Aquiles devolveu-lhe apenas o silêncio. Então, ele continuou: – Essa menina é muito estranha. Pertence a outro mundo. Por que não tenta algo mais real, como a Márcia? – Ele apontou para a jovem ao lado de Veraline. – Ela é uma morena e tanto.

– Essas coisas, a gente não escolhe, cara. Simplesmente, acontece.

Márcia parecia ser uma garota legal, é verdade. Eles já haviam trocado algumas palavras, e ela parecia sempre propensa a conversar com ele. Não o rechaçava, como a amiga. Mas, e o que isso importava, afinal? Aquiles respirava Veraline, pulsava Veraline, sonhava Veraline. Seu humor variava de acordo com o que determinava sua amada. Se ela estava feliz, Aquiles se empolgava. Se estivesse deprimida, Aquiles se condoía. Se ela não fosse na aula, Aquiles entrava em pânico. Ela era seu reflexo, seu impulso, sua projeção. Onde quer que estivesse, ela sempre seria o medidor de seu humor. E o ponteiro veralinesco apontava claramente: nuvens negras até os últimos dias de vida!

Foi quando a impactante cena cortou o devaneio de Aquiles. Como que surgido do nada, de modo súbito, Marcos, o ex-namorado de Veraline, surgiu ao lado dela.

O coração de Aquiles falhou uma batida. Seu sangue estagnou-se por alguns segundos. O ar chegou a… espere, que ar?

– O que ele está fazendo aqui? – perguntou.

Andreas respondeu, mas ele não entendeu. Sua mente estava concentrada na inusitada cena diante dos seus olhos, Marcos e Veraline conversando. O que aquela ameaça queria com ela?

Seja lá o que fosse, logo, uma tensão começou a corroer a nuvem que repousava sobre o “casal”. Veraline começou a gesticular. Seus gestos, seu rosto – era uma discussão. De certa forma, Aquiles sentiu-se aliviado. Seu subconsciente chegou a cogitar a possibilidade de aquele encontro terminar em beijos e abraços.

O calor da discussão cresceu. Marcos também começou a gesticular. Márcia se afastou. Curiosos se aproximaram. Aquilo não terminaria bem.

Quando Marcos agarrou Veraline pelo braço, ela gritou:

– Me larga… Eu te odeio!

Quando deu por conta de suas pernas, Aquiles percebeu que elas o levavam na direção da confusão.

Veraline tentava se libertar. Gritava ofensas. Mas, Marcos não a soltava. Agarrou-lhe com duas as mãos. Veraline começou a chorar.

Sua princesa chorava.

De repente, no meio do tumulto, uma voz invadiu a confusão:

– Solta ela.

Aquiles demorou alguns instantes para reconhecer que se tratava de sua própria voz. O que afinal ele estava pensando?

Marcos ouviu, mas ignorou. Uma boa deixa para Aquiles ficar na dele. Mas machucar Veraline não era a melhor maneira de colocar juízo nele.

E, exatamente por isso, Aquiles avançou.

– Falei pra soltar ela – esbravejou, empurrando Marcos, que finalmente a soltou.

Agora seria o momento onde Marcos, filhos de bacanas da cidade, protestaria contra a ação indelicada de Aquiles, e recorreria a frases tipicamente usada em momentos tensos assim, como “você tá louco?”. Bem, na teoria, seria isso. Mas quem disse que as coisas sempre seguem o protocolo?

A reação de Marcos foi de revide. Ele foi na direção de Aquiles e o empurrou.

– Fica fora, vesgo, ou vai sobrar pra você.

O que Aquiles faria agora? Arranharia Marcos como já fizera com Andreas? Estava há dias sem cortar as unhas. Uma arma mortal que Marcos desconhecia.

O que ele fez, pelo contrário, entraria para a história. A narrativa daria para entreter filhos e netos, se um dia viesse a tê-los.

Marcos, que era mais velho e maior, jamais poderia imaginar que um vesgo esquelético pudesse reagir desta maneira. A verdade é que Aquiles avançou (com os punhos fechados), e desferiu um soco. Foi dado meio às cegas, é verdade, mas encaixou de forma profissional. O soco atingiu o queixo de Marcos em cheio, e o barulho foi assustador. Apenas um soco, e o enorme Marcos foi ao chão. Aquiles sentiu-se arrepiar ao ver o grandalhão sentado no pátio do colégio. Chegou dar um suspiro de êxtase.

Mas, o que poderia ser mais surpreendente do que ver Marcos no chão? A resposta veio rápido. Veraline, parecendo mais louca do que nunca, avançou para cima de Aquiles, agredindo-o:

– Fique longe dele, seu maluco.

O que aconteceu em seguida, não seria possível descrever com precisão. Foi tudo muito rápido e confuso. Aquiles se lembrava apenas de que, enquanto se protegia de Veraline (por que ela o atacava??), alguém mais entrou na briga. Marcos já estava de pé, e foi para cima de Aquiles. E alguém empurrou outrem. Socos e tapas, uma tentativa de se proteger e atacar. E foi então que Aquiles viu um enorme punho crescendo, crescendo e crescendo até atingir seu rosto em cheio. Ele sentiu seu corpo ser jogado para trás.

Caído.

Nocauteado.

Eu só gostaria de fechar os olhos e esquecer de tudo.

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2 Comments

  1. Quando chegou a continuação fiquei doido.

  2. Esse livro e mto bem escrito, sério!

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