Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 6

O coelho apanha o seu cetro e sonha em ser rei. Dará o mundo uma chance ao coelho solitário?

Uma fração de esperança repousou sobre o ombro da criança cansada, e ela acreditou que talvez, um dia, finalmente deixasse de ser o coelho. Quando Andreas terminou o último verso de sua primeira música, batizada “Nosso Caos, Nossa Vida”, ele teve uma maravilhosa sensação de conquista e poder.

Sentado em sua cama, empunhando seu violão – seu símbolo de poder –, ele tentava dar vida aos seus sentimentos de rejeição. Tentava colocar poesia e pureza em sua vida medíocre, pincelar com cores vivas o abismo onde resfolegava.

Mas Andreas não era um bom letrista. Esforçava-se em traduzir dor e angústia para o papel, mas havia barreiras entre a ânsia e o progresso. A dor crescia dentro dele, mas só encontrava escape através de melodias. Mas não era suficiente. Não mesmo. Ele precisava gritar sua dor através das letras. Ser plenamente compreendido. Verbalizar cada espasmo de angústia. Até o momento, no entanto, apenas pequeníssimas frações de sua dor renasciam no papel.

Este era apenas o primeiro passo para se colocar sob os holofotes onde acreditava seriamente ser o seu lugar. Ainda precisava encontrar pessoas dispostas a lutar pelo mesmo sonho, e conquistar o mundo. E isso não seria nada fácil.

Andreas decidiu apelar para Aquiles:

– Cara, quero montar uma banda. E rápido. Você toca algum instrumento?

– Quê? – perguntou Aquiles, com uma boçalidade que dava vontade esmurrar o desgraçado.

– Perguntei se toca algum instrumento?

– Eu gosto um pouco de violão, mas só sei arranhar.

– Como assim arranhar? Há graus diferentes de arranhar?

– Sei lá. Eu toco um pouco. Às vezes melhor. Mas nem tanto.

Se tocasse tão bem quanto se expressava, seria um desastre.

Manter um diálogo com o infeliz nos últimos tempos estava difícil. Depois que caíra em amores por aquela loira metida à soberana, o cara vivia num outro mundo. Dirigir-lhe a palavra sempre resultava em respostas como: “hã?”, “hein?”, “quê?”. Vivia dizendo que estava amando. Para Andreas, ele estava apenas balbuciando bobagens sem sentido. Era somente um moleque querendo posar de adulto.

Referindo-se à noite em que fora rejeitado por Veraline, Aquiles apelou para o epítome do melodrama:

– Eu morri, cara. Aquilo que existia de vivo dentro de mim, já não existe mais. Tudo acabou. O que importa se toco violão ou qualquer outro instrumento?

Andreas aproveitou para tentar converter Aquiles para sua causa.

– Você é só um garoto, mas já sabe que o ser humano sempre procura alguém para preencher o vazio. E acreditamos nisso. Mas a realidade é cruel, meu velho. Sinto lhe dizer, mas não há ninguém esperando por mim ou por você.

– O que resta, então?

– Somente lembranças de sonhos que nunca vivemos. Somente a solidão.

– Você não está falando coisa com coisa.

– Somos os luserianos, Aquiles. Os últimos, os esquecidos, os descartáveis. – Andreas se posicionou como se discursasse para uma nação. – Mas não deixe que suas lágrimas sejam o reflexo da derrota, da entrega. Lute contra essa ideia de que somos descartáveis. Faça com que seu sofrimento se torne matéria-prima para a arte. A arte da desilusão. Deixe que o mundo todo ouça a sua voz, e sabia que você existe.

Aquiles o encarava.

– Mas que droga é essa, Andreas? Fumou? O que está querendo dizer?

Era a deixa que Andreas esperava.

Ele então despejou seus sentimentos e pensamentos de forma tão enfática e vívida quanto pode.

___

Andreas era apenas um jovem depressivo, atormentado por seus próprios fantasmas. Quando era humilhado na escola, geralmente, tinha vontade de acabar com tudo. Certa vez, ficou socando a parede até a mão sangrar. Escrevia coisas no caderno que só tinham sentido para ele. Palavras insanas, palavras mórbidas. Talvez fosse um louco. Ou apenas um verme em busca de direção.

Mas, a música poderia resgatá-lo. Ter uma banda, caras legais e talentosos tocando com ele – este era o estímulo de que tanto precisava.

Enquanto isso, ele continuava vivendo no seu mundo particular, enquanto o desprezo de todos a sua volta servia-lhe de inspiração para compor suas canções. E quando chegasse a hora, faria com que todo o seu sofrimento ganhasse vida, e todos se curvariam diante do seu talento.

Dará o mundo uma chance ao homem solitário?

E esperava. Esperas intermináveis que castigavam seu corpo nu. Esperas que o deixavam cada vez mais louco, mais perto do precipício. Sua espera. Sua cova. Seu final. Cobria-lhe o manto da decepção. E enquanto isso … ele esperava.

Não há como negar. Às vezes, era invadido por uma onda de mau agouro. E se não desse certo? E se jamais conseguisse gravar um álbum? E se tivesse que desperdiçar o resto de sua vida enfurnado em um cubículo, recebendo ordens de um patrão barrigudo e mal-humorado? Ideias como essas tiravam seu sono. Colocavam seu estômago do avesso.

Mas agora, em meio às densas nuvens do otimismo e do pessimismo, tudo mesclado em pensamentos e sentimentos confusos, ele havia obtido o que poderia classificar como verdadeiro regozijo. Uma canção que o tirou de seu devaneio depressivo. “Nosso Caos, Nossa Vida”. A letra era fraca, mas aquela canção iluminara o moribundo Andreas, dando-lhe o fôlego dos deuses.

Ele respirava. E, em breve, seria rei.

Quando terminou de discursar o que um dia poderia figurar muito bem como o primeiro capítulo de sua biografia, Andreas esperou pela reação de Aquiles.

Após alguns instantes, o vesgo arrematou:

– Eu quero ouvir essa música… Hoje.

Depois de anos de abstinência, Andreas voltou a sorrir.

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borda

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1 Comment

  1. oOTIMOOOOO

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