Seus olhos deixam pistas que minha alma insiste em trilhar

– Eu nunca vou perdoar o Marcos. – A declaração de Veraline soava com firmeza, embora ela mesma duvidasse de quão sincera estivesse sendo.

Ela conversava com sua amiga Flávia sobre o flagrante que havia dado em Marcos, dias antes. Ele estava aos beijos com Francielly, uma garota do colégio.

Ela ainda podia ouvir o grito de ódio que dera na ocasião, ecoado a partir de suas lembranças traumáticas. Dominada por um sentimento que jamais conseguiu descrever, Veraline partiu para cima dos dois. Ela não era capaz de descrever o que acontecera em seguida. Mergulhara em uma nuvem de ódio e indignação que a cegara completamente. Lembrava-se apenas de gritos e grunhidos que produzia, enquanto usava toda sua energia no ataque. Depois de algum tempo, Marcos conseguira dominá-la. Ele disse algumas coisas, mas Veraline foi incapaz de compreender. Quando finalmente conseguiu se livrar dos braços de Marcos, foi correndo para casa.

Marcos a procurara em várias ocasiões desde então, e embora ela quisesse, não cedera às insistências dele. Era sempre enfática em dizer que tudo estava acabado, embora torcesse para que não fosse verdade. Tinha muito medo que Marcos desistisse de tentar reconquistá-la. Ao mesmo tempo, ela sabia que precisava se valorizar. Render-se assim tão facilmente mostraria a Marcos que ele sempre estaria no controle, e isso era inadmissível para Veraline.

– Você acha que vai conseguir um namorado fiel, Vera? – perguntou sua amiga, Flávia.

– O que tem de errado nisso?

– Minha irmã disse que os homens não são fiéis.

– Isto é ridículo. Eu nunca divido nada com ninguém, muito menos… um namorado.

– Mas, e se ele estiver realmente arrependido? Você não vai dar uma segunda chance pra ele?

– Ele estaria arrependido, se não tivesse sido flagrado?

Nesse momento, Veraline ouviu a campainha. Ao olhar pela janela, viu um garoto loiro que, a princípio, lhe parecia familiar. Ela abriu a janela e perguntou:

– Oi?

O garoto ficou em silêncio. Parecia apavorado.

– O que você quer? – insistiu, Veraline.

– Quero falar com você.

– Pode falar.

Ele hesitou.

– Você não pode vir aqui?

– Sobre o que quer falar?

– Eu digo se você vier aqui.

Veraline começou a se lembrar do garoto. Ele era do colégio. Ela o vira várias vezes, observando-a. Era um rapaz bem estranho. Encarava as pessoas com um semblante assustador. Metia medo, de certa forma. E embora achasse que não era a decisão mais inteligente do mundo, ela decidiu atendê-lo.

Quando chegou no portão, teve uma sensação de arrependimento. O menino parecia tremer – será que estava sob o efeito de drogas?

– Oi… Acho que você não me conhece. Mas preciso muito falar com você.

A voz dele era trêmula. As mãos acompanhavam o ritmo. Pra dizer a verdade, ele tremia por inteiro. Aquilo não cheirava nada bem. Veraline se preparou para gritar e correr para dentro.

Ele continuou:

– Eu sou Aquiles … No último ano, a gente estudou em salas vizinhas. Eu tenho te observado há um bom tempo. – Ele se apressou em suavizar a estranha frase: – Mas não se assuste. Eu te observo como pessoa… – Ele deu uma longa pausa, talvez esperando que Veraline dissesse algo, mas ela ficou em silêncio.

E o que ela poderia dizer? Veraline não sabia nem no que pensar. Estava, apenas, surpresa com aquelas frases um tanto quanto desconexas.

– Eu fiquei sabendo do acontecido… – ele disse.

– Que acontecido?

– Você e… Marcos. Sinto muito pelo que ocorreu.

Veraline sentiu-se subitamente irritada. A notícia, pelo visto, já tinha se espalhado.

– Você veio aqui para falar disto?

– Não, não. Eu vim aqui para dizer… Para dizer que você é muito importante para mim.

Ah, então era isso?! Tudo se esclareceu, enfim. Ele era apenas um apaixonado. Mais um garotinho solitário e carente (e neste caso, muito feio) que se iludia com Veraline. Ela já havia aceitado a ideia de que seria alvo de paixonites ao longo de toda sua vida. E agora, sabendo quais eram as reais intenções de Aquiles e a razão de sua tremedeira, Veraline não estava mais acuada.

Ele estava dizendo:

– “Seus olhos deixam pistas que minha alma insiste em trilhar”.

– Quê?

– É Grandepeaux. Um poeta.

Imediatamente ela se lembrou de um bilhete estranho sobre sentir e sarar a dor que havia recebido no colégio. Provavelmente, Aquiles era o responsável por aquela besteira.

Veraline começava a perder a paciência. De psicopata drogado o tal de Aquiles passara a ter uma feição de bebê inocente, usando palavras idiotas que só faziam sentido na sua cabeça. Ela teria sido mais gentil, caso não tivesse passando por problemas com Marcos.

– O que você quer de mim, menino?

– Quero te proteger.

– Proteger de quê? – A irritação aflorava a voz de Veraline.

– Daqueles que só querem usar sua beleza como status. E que não dão a mínima para o que você sente.

– Que história é essa? Ninguém usa Veraline. Eu estou muito bem.

– Só quero ajudar você.

– Se precisar de sua ajuda, eu te procuro, ok? Agora vou entrar porque tenho coisas importantes pra fazer.

Ela deu as costas, e entrou.

Sentia-se ultrajada com o atrevimento do moleque feio. Flávia percebeu seu estado irritado:

– Quem era, Veraline?

– Ninguém, Flávia. Não era ninguém.

___

No dia seguinte, ela estava diante de um espelho e a imagem refletida olhava para ela com um olhar reprovador. E Veraline sabia o porquê.

Naquela manhã, ela tomara conhecimento de que Marcos e Francielly estavam namorando. E pela primeira vez em sua vida, ela sentia a derrota agarrando-lhe num caloroso abraço. O abraço da derrota. O abraço do fracasso.

Encarando a imagem refletida, sussurrou entre dentes:

– Veraline nunca se curva. Veraline sempre vence.

Seu estômago queimava.

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