Não importa o que o espelho diga. Ele sempre mente

1991

  • O rock mundial ganha uma esperança com o lançamento de Nevermind, do Nirvana. Misturando doces melodias com guitarras distorcidas, a banda é precursora dum novo movimento: o grunge. O disco faz um enorme sucesso, e o rock começa a respirar, aliviado;
  • Em março, o REM lança Out of Time que usa instrumentos acústicos que estabelecem uma nova vertente para a banda. Esse disco contém o maior single de todos os tempos do REM: Losing My Religion. Agindo de uma forma contrária ao que é padronizado, a banda decide não fazer turnê para esse disco, apresentando-se apenas esporadicamente;
  • O Oasis era anteriormente chamado de Rain. Após poucos ensaios, a banda inglesa faz sua primeira apresentação no dia 18 de Agosto. O irmão de Liam, Noel Gallagher, que trabalha como engenheiro de guitarras da banda Inspiral Carpets assiste ao show, não gosta do que ouve e leva os integrantes até seu apartamento para mostrar algumas de suas composições. Noel é intimado a entrar na banda pelos seus integrantes;
  • Legião Urbana lança o álbum V que reflete a crise econômica no país e a dependência química do vocalista, Renato Russo;
  • Após abandonarem o antigo nome Public Affection, a banda Live grava seu álbum de estreia baseado na filosofia indiana, intitulado Mental Jewelry.

O ano passara muito devagar. Na verdade, pareceu se arrastar como um moribundo sem pernas e braços. É o que costuma acontecer com os repetentes, na escola. Mas agora, finalmente, Aquiles Lucká deixara o time dos lerdos. Enfim, passara de ano. No ano que se iniciava, estava determinado a se dedicar mais aos estudos. Ou isso, ou passaria os próximos três anos na sétima série.

Uma das lembranças mais impactantes do ano anterior fora o surgimento de um inimigo e a posterior atenuação de animosidade entre os dois. Aquiles não se lembrava de uma época em que conhecera um sujeitinho tão desprezível quanto Andreas. Após a briga no banheiro, que lhe rendera alguns belos arranhões, ficaram dias sem trocar uma palavra qualquer.

Mas os dias foram dando lugar às semanas que, por sua vez, cederam sua soberania aos meses. E os dois passaram a se respeitar. Não se tornaram amigos – apenas mantinham a polidez e respeito. Tudo em nome da paz. Do contrário, poderia ocorrer uma tragédia na próxima briga, tal como um deles quebrar uma unha.

Mas a mais forte lembrança do ano anterior respondia pelo nome Veraline. Ele já tivera algumas paixões no passado, é verdade. Mas Veraline fora a primeira a despertar nele o desejo de cuidar de alguém, dar amor, carinho, proteção. Ela lhe fazia querer viver, e ele queria viver por ela.

Embora Aquiles se encontrasse com Veraline todos os dias, era incapaz de lhe dizer um “oi”. A insistente sensação de impotência – um pesadelo do qual não se consegue acordar.

Mas hoje ele mudaria o placar. Assumiria o papel de protagonista na mal-humorada literatura da vida.

Ele tinha ouvido alguns rumores interessantes. Parecia que Veraline estava tendo problemas em seu namoro com Marcos. Traição, ou algo neste sentido. Na ocasião em que ficara sabendo disto, Aquiles tomara um porre, o seu primeiro, para comemorar. Ainda se lembrava de um amigo lhe dizendo:

– Você não devia beber mais do que aguenta.

– Aguento enquanto estiver de pé – respondera Aquiles, tão-somente para desabar logo em seguida, completamente embriagado.

Quando voltara a si, vomitara até o estômago.

E agora, tudo indicava que a jovem angelical estava carente, solitária, sentindo-se provavelmente ultrajada e rejeitada. Era hora do galanteador entrar em ação, demonstrando um sentimento que ela nunca conseguiria receber dos rapazes interesseiros. Ele não sabia exatamente o que diria para ela. Só sabia que precisa dizer algo.

A preparação para a conquista começou.

Ele escolheu sua melhor roupa – tinha pequenos furos feitos por traças, mas coisa quase imperceptível. Pegou escondido um perfume do seu irmão mais velho e resolveu, pela primeira vez, fazer a barba. Barba mesmo, não tinha. Só aquele bigodinho ridículo. Ele ficou com medo de se arrepender. Já estava acostumado a ver o bigode enfeitando aquela cara horrível e achou que estranharia a mudança. Mas precisava dar um trato na imagem, se quisesse conquistar Veraline. Portanto, fez o bigode e se cortou, deixando pequenos pontinhos de sangue pela cara. Ao se contemplar no espelho, teve a nítida impressão de que ficava mais ridículo sem o bigodinho do que com ele. Parecia um bebê. Estava evidentemente arrependido, mas não tinha como voltar atrás. Será que Veraline gostava de rapazes com cara de bebê? E com pontinhos de sangue?

Após o “tratamento de beleza” era hora de ensaiar o que dizer. Declarar-se permitia um milhão de opções. Poderia começar com um “oi” e prolongar a conversa invadindo assuntos superficiais. Depois poderia pisar no gelo fino, abordando sentimentos feridos, namoros rompidos, e outros tópicos melodramáticos. Por fim, abriria a boca, e exporia tudo o que tinha guardado no seu peito. Na teoria, parecia complicado. Na prática, era pior ainda.

Mas havia uma forma mais simples. Consistia em chegar na cara dura e dizer que a amava. Sem preâmbulos, sem rodeios. O que rondava sua mente era: o que seria melhor? Ou o que seria menos ruim? Difícil responder. Por isso, não sabia exatamente qual método usar.

No fundo, Aquiles não estava otimista com a ideia. Afinal, ainda era um pobretão, baixote, vesgo, lerdo mental, nunca o primeiro lugar. E agora com cara de bebê. Poderia realmente conquistar o coração daquela linda e rica garota? Seu único trunfo era a decepção de Veraline com o namorado. Talvez a sinceridade de Aquiles a comovesse. Era difícil acreditar nestas besteiras, mas ele não podia ficar parado. Perder seria melhor do que hesitar.

Ele se olhava todos os dias no espelho e compreendia que estava ficando para trás. Era preciso reverter o rumo que estava tomando. Tinha de conquistar o primeiro lugar, descobrir algo em que era bom, amar e ser amado. Isso lhe faria experimentar a sensação de estar vivo e de ser útil.

E se sentiria muito útil agora se pudesse ajudar Veraline a superar a dor da solidão.

Antes de ir até a casa de Veraline, ele ligou apenas para confirmar se ela se encontraria ali.

– Alô? – a voz do outro lado não era a voz de um anjo, logo, não poderia ser Veraline.

– Alô! Eu gostaria de falar com a Veraline. Ela está? – Sua voz denunciava o nervosismo.

– Sim. Quem deseja?

Ele desligou o telefone.

Sua princesa estava em casa, e em menos de quinze minutos ele estaria face a face com ela.

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