– Esta não é a notícia que gostaríamos de dar aos nossos fãs em todo o mundo. Mas após a morte de Elou, nós simplesmente não podemos seguir em frente. Não temos a mínima condição de prosseguir. Então, com aperto no coração, eu, Andreas Hugo, anuncio oficialmente a dissolução do King Jeremy. – Ele deu uma pausa. – Haverá, porém, uma última apresentação. Uma apresentação de despedida. Nós tocaremos em nossa cidade natal, exatamente no mesmo bar onde fizemos nossa primeira apresentação: o Long Island. Como Jeremias Knoxville morreu no mesmo dia do seu nascimento, decidimos realizar essa pequena apresentação no dia 3 de Dezembro de 2002, o mesmo dia em que a banda nasceu. É difícil escolhermos um dia para morrer, mas, se nascemos em um 3 de Dezembro, então é neste mesmo dia que morreremos.

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Andreas pediu Suzana em casamento dois meses antes da apresentação de despedida.

Os preparativos para o casamento começaram a ser feitos, imediata e apressadamente. Andreas queria casar-se com Suzana antes da morte do King Jeremy. Seu argumento lhe parecia mais do que lógico:

– Quero que você se case com um roqueiro vivo, e não com uma lenda morta – dizia.

O casamento foi realizado em Novembro.

Suzana insistiu para que o casamento fosse em Astoria. Queria que seus amigos e parentes estivessem presentes. Andreas gostaria de um casamento mais simples, com pouca gente, igual ao de Aquiles. Mas Suzana lhe apresentara uma lista de convites com mais de mil convidados.

– Você vai convidar a cidade inteira?

– Não, meu querido. São apenas os nossos amigos.

Seus amigos. Eu não conheço tanta gente assim.

Mas Andreas concordara. Não queria contrariá-la. Queria fazê-la feliz e deveria começar desde já.

No dia do casamento, todos os amigos de Andreas estavam ali. Todos, menos Elou. Andreas olhava para a multidão e percebia que a ausência de Elou podia fazer com que aquele lugar parecesse vazio. Aquiles e Fábio estavam presentes, mas nenhum deles tocou no assunto “Elou” e nem em King Jeremy. Antigamente, falar na banda trazia excitação. Hoje, trazia tristeza.

E no dia mais feliz da vida de Andreas, eles simplesmente não poderiam abrir espaço para assuntos tristes.

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Aquiles aconselhou Andreas a passar a lua de mel no Taiti.

– Mas não fique muito tempo – advertiu, ele. – Você acaba enjoando em poucos dias.

– Vou me lembrar do seu conselho.

– E por falar em enjoo, lembrei da Márcia.

– Como assim? Já está enjoado da sua esposa?

– Não, idiota. Estou querendo dizer que a Márcia está com enjoos. E se nem assim, você consegue entender, vou ser mais direto: Márcia está grávida.

– Você está de brincadeira?

– Não estou, não.

Andreas abraçou o amigo.

– Fico feliz por você, cara. Parabéns.

– Eu também estou muito feliz. E a Márcia nem se fala. Era tudo o que ela queria.

– Mal posso acreditar: “Willie Caolho” vai ser pai. – Andreas riu. – O pequenino Lucká. Ou pequenina.

– Acho que vai ser menina. E vai ser uma gatinha.

– Vai ter de puxar para mãe, então. Porque se puxar o pai, vai dar dó.

– Vai puxar o pai e vai ser gatinha.

Andreas abraçou Aquiles, novamente.

– Parabéns mais uma vez, cara. Foi legal saber isso. Uma pena que eu tenha de ir agora. Vou viajar daqui a pouco.

– Ok, mas não vá se divertir tanto por lá a ponto de não perceber a corrente do tempo. – Ele deu uma pausa. – Não se esqueça do nosso compromisso em 3 de Dezembro.

Andreas ficou sério.

– Claro.

E se despediram.

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Andreas e Suzana viviam momentos de extrema felicidade. O que dava maior alegria a Andreas era poder ver o bem que ele fazia para sua esposa. Ele não estava tão preocupado com a sua própria felicidade, mas com a dela. Se ela estivesse feliz, Andreas também estaria.

Em momentos como esses, ele percebia o que era realmente a felicidade. Tivera alegrias com King Jeremy, com a fama e coisas relacionadas, mas tudo parecia tão vago quando comparado com a sensação de ter alguém de verdade ao seu lado para poder compartilhar uma vida de desafios. Eles teriam tristezas e alegrias, mas sempre estariam juntos para se apoiarem, mutuamente. E isto o completava.

No dia em que voltaram para o Brasil, Suzana perguntou:

– Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar meu maridinho a esboçar um sorriso? – perguntou ela.

Andreas pensou bastante antes de responder, sério:

– Diga que sou um homem digno. Diga que meus filhos não se envergonharão de mim quando tiverem idade suficiente para avaliarem tudo o que fiz.

– Que isso, amor? Por que está dizendo isso?

– Porque preciso saber, Suzana. Preciso saber se agi de forma digna em minha vida, se fiz a coisa certa, se lutei pelo que é verdadeiro. Seja sincera: eu sou um homem digno? Meus filhos terão orgulho de mim?

Ela respondeu.

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No dia 3 de Dezembro, ruas e mais ruas foram interditadas nas imediações do Long Island. Evidentemente, o bar estava lotado. E como não deveria deixar de ser, o lado de fora estava intransitável. Milhares de pessoas se aglomeravam em várias ruas para ver, pela última vez, os remanescentes Reis juntos. Do lado de fora do bar, fora colocado quatro telões em lugares estratégicos. A única emissora de televisão convidada a cobrir o evento foi a MTV. As imagens que seriam gravadas ali, com certeza, seriam exibidas incansavelmente em várias partes do mundo.

Lucas Vega, VJ da MTV, estava no local. Andreas se lembrou de que, três anos e meio antes, eles estavam sendo entrevistados pelo mesmo homem, quando Apology estava apenas engatinhando rumo ao sucesso. O tempo havia passado rápido. Andreas achava que era capaz de contar os acontecimentos dos últimos anos em poucas palavras.

Lucas aproximou-se dele, no backstage, e estendeu a mão.

– Como vai, Andreas?

– Olá, Lucas. Obrigado por ter vindo.

– Eu que agradeço o convite. Gostaria de parabenizá-los pelo sucesso. Vocês foram longe. E gostaria também de dar os meus pêsames. Foi uma perda muito grande para todos nós.

– Obrigado. Vocês estão prontos para gravar?

– Tudo posicionado. Só aguardamos a entrada de vocês no palco. Depois do show, voltamos aqui mesmo para a entrevista final.

– A última entrevista do King Jeremy.

Lucas estendeu-lhe a mão, novamente.

– A humanidade vai sentir a falta de vocês.

– Obrigado, mais uma vez.

Lucas se afastou e Andreas respirou fundo. Suas mãos suavam.

E tudo começou a rodar.

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Andreas, Fábio e Aquiles entraram no palco do Long Island acompanhados do tecladista do Fan Club Donald Hudson que tinha a dificílima missão de cobrir Elou. O público gritou, gritou e gritou. Alguns gritavam “King Jeremy”, outros “Elou” e outros gritavam qualquer coisa que Andreas não conseguia definir.

Eles tocaram 5 músicas, apenas. O público cantava a plenos pulmões, cantando com uma emoção nunca vista antes em qualquer uma das apresentações do King Jeremy. Grande parte das pessoas chorava. Andreas teve de parar uma ou duas vezes, enquanto a música estava sendo executada, para engolir o choro.

Quando a última música foi finalizada, Andreas pensou em fazer um discurso. Mas, como as palavras lhe faltavam naquele momento, ele disse simplesmente:

– In memorian: Elou Meirelles.

Andreas achou que deveria agradecer ao público pelo fato de terem ajudado o King Jeremy a chegar até ali. Mas em vez de agradecer em palavras, preferiu fazer algo que representasse isso: entregou o seu contrabaixo para uma garota que estava bem perto do palco. Aquiles, seguindo o exemplo de Andreas, deu sua guitarra para um jovem careca que parecia um pouco com Elou. Depois, Fábio veio para frente e também presenteou um fã com suas baquetas. Então, os três homens se enfileiraram. Andreas observou que metade das pessoas na plateia chorava. Logo em seguida, a banda de apoio que acompanhara o King Jeremy desde o sucesso do álbum duplo entrou no palco, acompanhado pelo empresário Haroldo, e pelo pai de Elou. Todos estavam enfileirados, espremidos lado a lado no pequeno palco, com as mãos um no ombro do outro.

Como Andreas não fizera discurso nenhum, Aquiles apanhou o microfone e resolveu dizer algumas palavras:

– Há exatos 7 anos atrás eu estava bêbado. Há exatos 7 anos atrás eu caía em cima de um túmulo, o túmulo de Jeremias Knoxville. Há exatamente 7 anos atrás nascia King Jeremy. – Ele deu uma pausa, como que procurando escolher as melhores palavras. – Foi uma trajetória longa para quem participou nela, mas talvez curta para quem apenas observou. Sei que vocês têm a sensação de que estamos indo embora cedo demais. Mas gostaria que soubessem que eu, Andreas e Fábio temos a sensação de dever cumprido. E eu sei que o Elou diria a mesma coisa… – Ele voltou a chorar. O público aplaudiu. – Portanto, eu gostaria de, em nome de toda a banda, de toda a equipe, de toda a produção, dizer a vocês, a todos vocês: MUITO OBRIGADO!!!

Os aplausos ecoaram por todo o salão. As pessoas começaram a gritar, em coro: “Jeremy! Jeremy! Jeremy!”

Eles se abraçaram e acenaram mais uma vez para o público.

Quando deixaram o palco, as luzes se apagaram.

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