Andreas chamou Suzana para um passeio no parque da cidade, caracterizado especialmente por sua mata nativa e pelo grande lago artificial com patos. Como era um dia de semana, havia bem poucas pessoas presentes ali. Embora eventualmente fossem interrompidos por alguns fãs solicitando os tradicionais autógrafos ou pedindo para tirar fotos, podia-se dizer que estavam tendo um passeio tranquilo. Aquele local tornava-se assim um ambiente propício para conversas particulares, especialmente aquelas capazes de fazer o coração de um covarde saltar pela boca.

Como fã da banda, Suzana sempre dava um jeito de direcionar os assuntos para esta vertente. Neste dia, Andreas avisara que gostaria de conversar sobre todos os assuntos que ela desejasse, menos sobre a banda. Ele precisava libertar sua mente dos acordes e arranjos, ainda que apenas temporariamente, e agir como uma pessoa normal.

Neste momento, Suzana contava sobre coisas relacionadas ao seu dia a dia. Ao mesmo tempo, Andreas esperava alguma deixa para poder se declarar a ela, mas estava difícil. Não que as oportunidades não surgissem, mas ele simplesmente não tinha coragem. Conseguia cantar para milhares de pessoas com uma relativa tranquilidade, mas quase tinha um ataque cardíaco para se declarar para uma garota. Até os ratos eram mais valentes do que ele.

Suzana falava alguma coisa sobre uma de suas características: a franqueza no tocante às suas palavras e ações. Andreas achou que poderia aproveitar este momento, e disse:

– Estou bem ciente desta sua franqueza. E é uma qualidade que admiro. Uma das várias que você tem. Não é para menos que gosto tanto de sua companhia.

– Desse jeito, eu fico envergonhada – disse ela, rindo.

– Não se envergonhe. Pelo menos, ainda não. Não antes de terminar o que tenho a te dizer. Afinal eu também preciso ser franco. – Ele parou de caminhar e ficou de frente para ela. – Primeiro, a versão mais longa: você, Suzana, é uma garota muito especial. Do tipo que não encontramos por aí. E olha que já viajei o mundo todo. Você significa muito para mim, me faz sentir bem, me faz olhar para as coisas simples e bonitas da vida. Você me faz querer ser um homem melhor. – Ele segurou as mãos dela. – Por isso, chamei você aqui.

– O que está querendo dizer?

– Ok, vamos apelar para a versão concisa. O quero dizer é que… que eu realmente gosto de você, Suzana. – Ele achou que enfartaria neste momento.

Suzana ficou encarando-o, representada por um chamativo olhar assustado. Andreas chegou a se perguntar o que significaria aquela expressão. Depois ela baixou a cabeça e permaneceu naquela posição. Andreas não sabia precisar exatamente quanto tempo ela ficou ali, de cabeça baixa – estava tão tenso que perdera a noção do tempo – mas deve ter demorado aproximadamente 157 horas. Talvez um pouco mais. Por fim, ela levantou a cabeça. De seus olhos corriam lágrimas. De sua boca vinha o sorriso mais lindo que Andreas já vira em toda a sua vida.

– Você aceita? – A voz de Andreas vacilava como uma criança assustada.

– Meu querido. A resposta a essa pergunta, eu já tenho há muito tempo.

Ela o abraçou.

Nesse momento, Andreas percebeu que seu coração batia ainda mais aceleradamente. Mas dessa vez não era por nervosismo, e sim de emoção.

Ela aceitara.

Andreas pegou o rosto delicado de Suzana entre suas mãos, fechou os olhos e beijou-a suavemente. O contato de seus lábios conferiu-lhe uma sensação de paz e alegria que nenhuma apresentação ao vivo do King Jeremy poderia lhe dar. E assim, o mundo tornou-se inabitável naquela pequena eternidade que envolvia os dois seres apaixonados. Por um eterno instante de suave solidez, o mundo tornou-se moradia apenas de Andreas e Suzana.

___

O casamento de Aquiles com Márcia ocorreu em Julho de 2002.

Foi uma cerimônia simples, reservada apenas para familiares e amigos mais íntimos, como os demais integrantes do King Jeremy e banda de apoio. Márcia queria uma festa maior, com centenas de pessoas, mas Aquiles ainda se encontrava estressado por causa do intenso trabalho. O que ele menos queria naquele momento era estar no meio de uma multidão. Seus argumentos pareciam ter sido bastante válidos já que Andreas ficou sabendo que ela não insistira.

Aquiles convidara uma banda de blues e jazz para tocar durante a festa. Eram os Garotos Elásticos, uma das bandas mais requisitadas em clubes e bares voltados para esta vertente. Os presentes ao casamento, porém, estavam mais interessados em ouvir os quatro King Jeremy tocando. Mas tiveram de se contentar com os Garotos Elásticos porque nenhum dos Reis estava disposto a subir ao palco naquele dia. Só Aquiles que resolveu cantar a sua canção favorita: Take Your Carriage Clock and Shove It, do Belle and Sebastian.

Neste ínterim, Andreas sorria, cumprimentava seus conhecidos, respondia às perguntas dos curiosos sobre os próximos trabalhos da banda. Mas seus pensamentos estavam em Suzana. Não só os pensamentos, mas principalmente o coração. Andreas sabia que estava amando e sabia que seus sentimentos eram recíprocos. A sensação de liberdade era uma coisa maravilhosa, que ele mesmo não seria capaz de descrever. Desta vez, Andreas não tinha a velha sensação de insegurança, o infortúnio do pavor dando-lhe tapinhas nas costas. Suzana não lhe dava motivos para isso. Ela não integrava os elementos tenebrosos de um mundo caótico. Havia cor lúdica em seu sorriso, pétalas em seus olhos, e música ambiente nas sílabas de seus pensamentos.

E era incrível como o tempo transcorria imperceptível e com suavidade. Andreas podia se lembrar de quantas vezes passara dias trancafiado em seu quarto, contemplando o sol somente através de janelas e cortinas. Naqueles momentos, o tempo fora um grande inimigo. Letárgico, cruel, impassível. Mas desde o lançamento de Apology, o universo acelerara. As novidades se acumulavam na vida de Andreas e de seus amigos na velocidade da luz. Andreas mal percebera que Aquiles estivera namorando durante os últimos anos. Mal percebera seus sentimentos por Suzana crescendo a cada dia. Dias com feição de segundos. Semanas com aparência de horas. A sensação de liberdade parecia colocar o tempo como um elemento essencial da cena, porém, reservado apenas ao papel de coadjuvante que apoia o protagonista.

Durante a festa de casamento, Aquiles exagerou na bebida. Não demorou muito e estava dando altas gargalhadas. Em determinado momento, desabotoou a camisa, exibindo seu peito branco e esquelético. Foi então que ele começou a sambar, enquanto os Garotos Elásticos tocavam uma música dos YardBirds. O pessoal aplaudia e Márcia fez cara de quem não estava gostando. E quem ia gostar de ver o noivo fazendo papel de idiota no dia do casamento?

A festa varou a madrugada. Lá pelas duas da manhã, o casal de noivos retirou-se. Em algumas horas cruzariam o oceano para a lua de mel. Depois que Aquiles, o mais forte candidato a algum escândalo, foi embora, Andreas decidiu que estava na hora de ir, também.

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A lua de mel de Aquiles e Márcia durou duas semanas. Quando voltaram, Andreas havia iniciado o trabalho de produção do álbum de uma banda local. Ele chegou cogitar a possibilidade de lançar um álbum solo durante as férias do King Jeremy. Poderia se enveredar por outros estilos, lançar um álbum de blues, por exemplo. Mas até o momento não conseguia se ver em um processo criativo longe de seus amigos. Esta ainda não era a fase apropriada. Por isso, achara melhor iniciar o trabalho de produção de outras bandas. Se fosse bem-sucedido, a produção musical poderia ser um projeto paralelo ao qual Andreas se dedicaria.

Aquiles apareceu casa de Andreas no dia seguinte. Irradiava alegria naqueles olhos estrábicos e no sorriso insistente. Parecia uma criança encantada com um novo presente.

– Andou rejuvenescendo, garoto? – perguntou Andreas, abraçando o amigo.

– Não vou lhe dizer nada agora. Quando casar com a mulher da sua vida, você entenderá.

– Fico feliz por você, cara. Apesar de ser um verme bêbado, ainda assim fico feliz por você.

– Obrigado pelo elogio. Valeu manter as esperanças. Eu sabia que nossa hora ia chegar. Mas e você, cara? Ainda viciado em trabalho?

– Não sou viciado em trabalho. Só estou trabalhando. Cocei durante cinco meses e agora estou de volta à ativa.

– Pois eu pretendo coçar muito mais. Nem me fale em escrever letras para o novo álbum do King Jeremy.

Andreas sorriu, mas logo o sorriso desapareceu.

– Por falar nisso, estive pensando em algo. De certa forma, acho que o King Jeremy acabou.

– Como assim?

– Acho que o espírito depressivo do King Jeremy já era. Olhe para nós dois: o que você vê? Eu estou feliz pra burro, você também. Se a gente fosse compor alguma coisa hoje, o que acha que sairia?

Aquiles pensou um pouco.

– Acha que a gente é meio imbecil quando está feliz?

– Talvez. De qualquer forma, a identidade do King Jeremy é a de uma banda depressiva. Se gravássemos algo hoje, o que sairia? Um sonzinho bem light, letras piegas? Talvez não seríamos os mesmos de outrora.

– Todas as bandas passam por mudanças, Andreas. E até acho isso bom. Sai da mesmice.

– Mas bom até que ponto? Mudanças são boas, mas mudar para pior, não. Eu não quero lançar o nosso próximo álbum e ter um monte de críticas dizendo: “Esses garotos já foram geniais. Hoje são uns palermas como qualquer bandinha que tem por aí.” Eu não trabalhei toda a minha juventude para, no final, ouvir comentários deste tipo. É só uma questão de respeito. Acho que as pessoas nos devem isso.

– Você tem medo de fracassar nos próximos álbuns, é isso?

– Exatamente. Não sei como eu reagiria.

– Fique frio, Andreas. Nós já vendemos 70 milhões de cópias. Somos os recordistas. Somos e sempre seremos KING JEREMY. Não importa como saiam os próximos álbuns. Todos se lembrarão de nós pelo que fizemos até aqui. Tire esses grilos de sua cabeça e… – O celular de Aquiles tocou nesse instante, interrompendo-o. Ele atendeu: – Alô?… Sim… Como?… – Os olhos de Aquiles se arregalaram, aterrorizados. – Mas… quando foi isso?… – Andreas gelou; qualquer um que visse aquele olhar aterrorizado de Aquiles reagiria da mesma forma. Aquiles começou a andar de um lado para outro. – Meu Deus, mas como?… Mas, não tiveram algum contato?… Fique calmo. Vai dar tudo certo, acredite… Eu ligo… Eu ligo, sim… Obrigado. – Ele desligou, pálido como um defunto.

– O que houve?

– Era o pai do Elou.

– Aconteceu alguma coisa?

– Talvez. O Elou estava viajando para a Alemanha e a torre de controle perdeu o contato com eles. Há umas quatro horas. E até agora, nenhum contato.

Andreas sentiu um calafrio ao ter um terrível pressentimento.

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Os destroços do voo 467 de Estocolmo para Berlim foram localizados no Mar Báltico, próximo à cidade sueca de Malmo. Dos 90 passageiros e tripulantes, foram encontrados os corpos de 67. Elou Meirelles estava entre esses. Não houve sobreviventes. Elou está morto. A perícia constatou problemas mecânicos. Elou só tinha 24 anos de idade. Tudo indicava que houve uma explosão em uma asa cheia de combustível, antes da queda. Elou era vivo, criativo, bem-humorado. A empresa prometeu indenizar as vítimas. Agora, Elou não existe mais.

Se ele tivesse se atrasado para o voo, ele estaria vivo. Se tivesse ficado preso no elevador do hotel onde estava hospedado, se o motorista de táxi tivesse errado o caminho, se Elou tivesse quebrado a perna ainda no hotel, se a falha mecânica do avião fosse constatada antes…

Se… se… se…

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Elou foi enterrado no cemitério municipal de Astoria, a cidade natal dos quatro King Jeremy. O mesmo cemitério onde estiveram anos antes, na ocasião em que Aquiles caíra sobre o túmulo do velho Jeremias. O cemitério estava abarrotado. Outras centenas de pessoas se acumulavam do lado de fora. Havia fãs de todas as partes, até mesmo de outros países. Todos vieram dar adeus ao homem que, pela sua persistência, conseguira reunir o King Jeremy após a não-oficial dissolução deste. Elou que, com seus teclados, sintetizadores, harpa e indubitável criatividade, dera um clima diferenciado ao som da banda.

Elou, o leal amigo.

E os derradeiros Reis também estavam ali, chorando. Suzana estava ao lado de Andreas, o tempo inteiro. Tentava a todo custo, por meio de algumas poucas palavras bem escolhidas, abraços e carinhos aliviar a terrível e persistente dor no peito de seu amado.

O pai de Elou dissera a Andreas, no dia anterior:

– Uma vez o Elou me disse que, se ele morresse antes que você, eu deveria te pedir uma autorização.

– Autorização para quê?

– Para usar uma frase sua na lápide dele. Uma frase sobre o coelho.

Andreas pensara um pouco e lembrara-se da frase escrita em uma viga no quarto de um hotel em Londres. Ele mal se lembrava daquela frase. Não teria lembrado se o pai de Elou não tivesse mencionado.

– Sabe do que estou falando?

– Sei, exatamente. E claro que dou autorização para isso.

E agora, no dia do enterro, centenas de fãs traziam flores ao cemitério e cantavam as músicas do King Jeremy. E havia outros que, desconsolados, tão somente olhavam a lápide:

Elou Meirelles

1978 – 2002

Músico e gênio

“Sou o coelho caçado impiedosamente em campos escuros

Mas, às vezes, sonho que sou o caçador.”

Mais um roqueiro que o mundo perdia. Os gênios do rock parecem sempre morrer mais cedo. E tudo o que restava no peito de Andreas, Aquiles e Fábio, bem como no peito de milhões de pessoas em todo o mundo, era um terrível vazio que nem mesmo o tempo poderia preencher.

Feridas incuráveis. Doloridas e incuráveis.

A posteridade narraria: Era uma vez quatro garotos. Eles eram os vermes. Os ratos eram tratados melhor. Eles queriam muito. Mais do que deviam. Mas conquistaram tudo o que quiseram e um pouco mais.

Era uma vez um gótico. Era uma vez um gótico com semblante de gênio. Você já ouviu falar em King Jeremy, filho? Eles eram os deuses quando eu nasci.

Mas os deuses se foram. Quatro homens reduzidos a cinzas.

Sua derradeira moradia – o pó.

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