Suas cordas vocais vibraram com tanto ímpeto com o arroto que ele achou bastante provável amanhecer rouco. Ter tido a coragem de tomar esta atitude com a até então inviolável, endeusada Veraline, deixou-o com um misto de orgulho e satisfação.

Ele não estava triste, esta era a verdade. Não mergulhara em um poço de angústia, ansiando uma garrafa de uísque ou vodca. Pela primeira vez, em tantos anos, Aquiles se sentia realmente livre. O significado desta palavra se manteve tão distante em sua trajetória que ele até mesmo se assustava com a nova sensação. E agora era o momento de se acostumar com este sentimento estranho, porém, muito bem-vindo.

Assim, em vez de ficar pensando em reações e implicações de suas ações e palavras com Veraline, ele tratou de ocupar a mente com outras coisas. Na semana seguinte, estaria em São Paulo para uma entrevista na MTV. O álbum duplo já havia vendido mais de 100 mil cópias. E era bem provável que os espaços jornalísticos (e por que não dizer televisivos?), se abririam cada vez mais para a nova banda que emergia para o sucesso. Tocar fazia Aquiles sentir-se vivo.

E ignorar Veraline fazia com que se sentisse livre.

___

Uma semana depois, estavam todos eles nos estúdios da MTV, em São Paulo.

Aquiles tremia como uma criança embora, provavelmente, não abriria a boca durante a entrevista. Mas a perspectiva de estar diante das câmeras sempre fora algo assustador para ele, desde os tempos dos Aborrecidos.

Os quatro integrantes foram conduzidos ao estúdio onde era gravado o programa Lado B. Tiveram de esperar alguns minutos antes da chegada do VJ Lucas Vega. Quando chegou, ele cumprimentou a todos com entusiasmo.

Cinco cadeiras foram dispostas no estúdio. Lucas ocupou a terceira, ao centro. Andreas, que responderia a maioria das perguntas (ou muito provavelmente, todas), ficou ao seu lado. O programa era gravado, e não ao vivo. Por isso, eles gravariam a entrevista inteira. Posteriormente ela seria editada para ir ao ar ainda naquela semana. Na edição, os trechos das entrevistas seriam distribuídos ao longo do programa, entre videoclipes e intervalos.

– Estão nervosos? – perguntou Lucas, pouco antes de começar a gravação.

– Um pouco.

– Eu também – disse ele, dando risada. – Mas isso é normal. Até ajuda na concentração… – Ele deu uma rápida olhada em alguns papéis que tinha em mãos. – As perguntas que eu vou fazer são coisas básicas. Onde, quando e como vocês começaram, quais as influências da banda, a mensagem de vocês, próximos trabalhos, shows, e assim por diante. Não garanto que vou fazer exatamente essas perguntas. Isso dependerá do rumo que a conversa tomar. Portanto, relaxem e fiquem à vontade. Se por acaso, vocês engasgarem na hora de falar, não se importem. Comecem de novo porque o programa é gravado. Na edição a gente corta os “foras”. Alguma dúvida?

– Nenhuma.

E a gravação começou.

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– Salve, salve, rapaziada ligada na MTV. Está começando o semanal Lado B. Quem vos fala é Lucas Vega e conto hoje com a ilustre presença da rapaziada do King Jeremy, uma banda que está mexendo com as estruturas da musicologia mundial. Eles ficam com a gente durante o programa, explicando um pouco sobre o trabalho da banda, e apreciando alguns clipes com a gente. Nesse bloco teremos o som industrial de Trent Reznor e seu Nine Inch Nails. Mas antes a gente chama a garotada do Amphetamine Blue com Drugstore Razor. Daqui a pouco… tem mais. – Ele deu um tempo e depois começou a perguntar: – Estamos aqui com a rapaziada do Rei Jeremias ou King Jeremy. O pessoal de casa talvez não tenha ouvido falar nesta banda, ainda, mas ela está sendo muito comentada pelos cantos europeus. Nós vamos conversar um pouco com eles… Vamos falar aqui com o vocalista e baixista da banda, Andreas. A primeira pergunta tem a ver com o nome King Jeremy. Esse nome vem de algum personagem histórico da era medieval ou coisa parecida?

Andreas respondeu:

– Na verdade, o nome vem de Jeremias Knoxville, um explorador de diamantes no estado de onde nós viemos, há vários anos. Ele era conhecido na região como o Rei dos Diamantes. Daí, escolhemos King Jeremy. O Rei Jeremias.

– Bastante sugestivo. – Lucas apanhou o CD duplo Apology. – Eu estou aqui com a última obra de vocês que na verdade é o terceiro álbum, é isso?

– Isso mesmo. Lançamos o Misery and Mithology em 96, depois Road to Perjury em 97, e agora esse, em 99.

– O último ao qual nosso amigo Andreas se refere é esta obra-prima… – Ele mostrou o CD para o close da câmera. – Apology About Melancholy and Pain by Distress Man. O senhor de um nome e o senhor de um álbum, diga-se de passagem. Um disco que carrega uma atmosfera depressiva e mítica capaz de conduzir o cidadão para outra dimensão, se é que me entendem. Há tempos eu não ouvia um álbum tão completo como esse. Vocês vão do puro ao imoral, do acústico ao eletrônico, do orquestral ao metal – e tudo isso com uma originalidade que eu caracterizo como uma revolução musical.

Aquiles percebeu o ego de Andreas inflando ao ponto de explodir.

– Nosso objetivo foi criar uma obra completa porque, na verdade, define todas as facetas na vida de um homem: a esperança, a alegria, a tristeza e o caos.

– Esse álbum na verdade conta uma história, não é isso?

– Exatamente. É a história de como um homem bem-sucedido enlouquece em 24 horas.

– É até difícil definir alguma influência musical em um álbum com tantas variedades.

– Nosso propósito não é ser influenciado. Viemos aqui para influenciar a posteridade.

– Grande feita. Daqui a pouco a gente conversa mais com o King Jeremy! Seguimos então com a rapaziada do Placebo com Thirty-Six Degrees. E, em seguida, Mr. Tom Waits.

Aquiles ficou se perguntando quando ele anunciaria o clipe do show da banda.

Lucas continuou:

– Estamos de volta ao nosso último bloco do Lado B que continua homenageado com a ilustre presença da rapaziada do King Jeremy. Vocês vieram de uma pequena turnê europeia. Há alguma possibilidade de ouvirmos o som de vocês ao vivo em terras tupiniquins?

– Estamos com alguns contatos para isso. Já temos algumas apresentações agendadas para as próximas semanas.

– E quando fizerem uma apresentação aqui em São Paulo contem com a presença deste que vos fala agora. Quero agradecer a participação de vocês e sucesso.

– Nós que agradecemos, Lucas e o pessoal da MTV. Valeu pela força.

– Voltem sempre que quiserem. A gente finaliza mais esse Lado B com duas apresentações desta garotada no Festival de Edimburgo. My Place é uma delas. Mas antes a gente curte a atmosfera sombria do King Jeremy em Heart´s Walls. A gente volta semana que vem… Até mais.

E estava tudo acabado.

Lucas cumprimentou um por um, novamente, dando os parabéns e dizendo que a entrevista tinha sido ótima. Aquiles ficou surpreso com o fato de que eles tocariam duas músicas em vez de uma, conforme parecia estar combinado. Melhor para eles.

De volta ao camarim, os quatro integrantes e o empresário Haroldo se cumprimentaram. Estavam radiantes com a entrevista e principalmente com o fato da MTV ter colocado duas músicas no programa.

Haroldo comentou:

– Na última hora, decidiram colocar duas músicas.

– Valeu a surpresa.

– E temos mais surpresas ainda – disse Haroldo, com um sorriso. – Acabei de receber novas cifras da gravadora e nosso álbum vendeu mais 90 mil cópias nos últimos três dias. Isso significa que… atingimos a marca de 200 mil.

Todos ficaram em silêncio por alguns instantes. Pela expressão de Andreas, ele parecia em êxtase.

Ele perguntou:

– Como? Noventa mil cópias em três dias?

– Exatamente, amigo. Assombroso como possa parecer, é exatamente isso.

– Isso dá 30 mil por dia. Onde vamos chegar mantendo essa média?

– Talvez essa tenha sido a marca recorde. Não a média. De qualquer forma, é um número muito alto. Mesmo que o ritmo caia nos próximos dias, esses números vão trazer mais matérias e shows que, por sua vez, gerarão mais vendas, e assim por diante. Até que o ciclo decida, por si mesmo, se encerrar.

– Ou talvez não se encerre nunca – opinou Andreas.

Aquiles, neste momento, experimentava uma sensação de prazer inédita. Em outras oportunidades, sentira prazer por fazer o que gostava, mas sempre havia por perto o fantasma de Veraline lhe dizendo que seus pesadelos eram reais e que a escuridão, um dia, o tragaria. Mas, hoje, era diferente. O mundo estava pincelado com cores vivas e distintas. Ele tinha paz e liberdade – sem fantasmas, sem pesadelos ou escuridão. Seu futuro era algo perfeitamente definido por mais distante que Aquiles tentasse olhar. Ele estava seguro e ninguém neste planeta seria capaz de lhe tirar a sua plenitude.

Ninguém.

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Na semana seguinte, Aquiles ligou para Márcia. O contato entre eles havia sido reduzido consideravelmente uma vez que a agenda de compromissos de Aquiles incluía muitas viagens. Márcia também estava com a agenda corrida. Ela se formaria em jornalismo neste ano e trabalhava como assistente de redação na Gazeta de Astoria. Estava muito feliz. E Aquiles ficava feliz por ela.

Ouvindo a voz dela do outro lado da linha, Aquiles se lembrou do dia em que ela o pedira em namoro. Ela fora muito corajosa, sem dúvida. Uma garota de personalidade. E como era decisiva! E neste momento, raciocinando sobre as atitudes de Márcia e suas qualidades, Aquiles ficou se perguntando se não cometera o pior erro de sua vida ao recusá-la. Hoje, ele poderia conversar com sua “namorada”, e não apenas sua “amiga”.

Ela comentava sobre a entrevista que fora ao ar no dia anterior:

– Eu assisti o Lado B, ontem. Ficou muito legal a entrevista de vocês.

– Também gostei!

– Pena que você caladinho a entrevista toda.

– E nem poderia ser diferente. Detesto entrevistas. Deixo isso pro Andreas. Ele leva jeito para a fama.

– De qualquer forma, fiquei muito feliz em ver o trabalho de vocês sendo reconhecido.

– Obrigado. A gente precisa se encontrar qualquer dia desses para conversar. Estou com saudades.

– Eu também. – A suavidade da voz de Márcia parecia dar um recado de que ela ainda gostava dele.

– Então vamos fazer o seguinte: assim que eu voltar, a gente sai junto. Combinado?

– Combinado.

Em resumo, ele estava feliz.

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Excetuando bares e lanchonetes, aquele era o único restaurante da cidade em que tinha música ao vivo. Era apenas um cantor solo com seu violão, e algumas músicas populares no repertório. O cantor reconhecera Aquiles e, na primeira oportunidade, foi lhe pedir um autógrafo. Aquiles ainda não estava acostumado com isso – até então, eram raros os momentos em que tinha de dar autógrafo para alguém – mas ele achava que logo isso se tornaria uma rotina.

Aquiles estava de volta a Astoria, mas por pouco tempo. Tinha chegado naquele dia, e viajaria na madrugada seguinte. King Jeremy era cada vez mais comentado e requisitado, e a agenda de shows crescia vertiginosamente.

Nessa noite corrida, fazendo tudo de forma cronometrada, Aquiles levara Márcia para jantar. E o esforço valia a pena. Os instantes compartilhados com Márcia sempre eram agradáveis. Ela contava sobre sua rotina de estudos e trabalho, o entusiasmo de descobrir coisas novas propiciadas pelo jornalismo. Em determinado momento da conversa, ela citou brevemente Veraline. O contato entre as duas havia sido bastante reduzido. Veraline entrara em um novo círculo de amizades, novos hábitos, novos ritmos. Como Márcia trabalhava e estudava, as duas acabaram entrando automática e naturalmente em um processo de distanciamento. Mas a distância não diminuía a preocupação de Márcia com o estado da amiga.

– Ela toma vários medicamentos. Remédio para depressão, remédio para dormir, e sei lá mais o quê. O pior que essas novas amizades estão levando ela para caminhos muito mais pesados.

– Ela vai acabar se matando, desse jeito.

– Mas para ser ajudada, ela precisa ajudar a si mesma. E até onde percebi, ela não está disposta a isso.

Ouvindo Márcia falar sobre o estado de Veraline, Aquiles se convencia ainda mais de que fizera a coisa certa em tirá-la definitivamente da cabeça. Veraline só lhe traria sofrimento. Sempre fora assim e continuaria sendo, ainda que tivesse insistido. E isso só ajudava-o a valorizar ainda mais as qualidades de Márcia. Além de lhe dar motivos adicionais para se arrepender por não ter aceitado seu pedido de namoro. Será que ainda haveria tempo de consertar este erro estúpido? Ele poderia dizer que errara durante todo o tempo em que nutrira seus sentimentos por Veraline. Mas como ela reagiria? Será que acharia que ele estava fazendo isso apenas porque não conseguira nada com Veraline? De certa forma, havia uma verdade nisso. Mas aquilo que ele sentia por Márcia era algo real e bem estruturado. Não parecia ser o tipo de paixão cega, sentimentos desenvolvidos apenas pela aparência da outra pessoa. Ele realmente gostava de Márcia pelo que ela era. Márcia tinha uma personalidade cativante combinada com uma pureza pueril. Ele imaginava como seria sua vida ao lado dela. Começou a pensar na possibilidade de pedi-la em namoro, de casarem, terem filhos e envelhecerem juntos, os dois sentados na varanda de uma casa de campo, rodeados de netos.

Enquanto ela ainda falava sobre Veraline, Aquiles estendeu sua mão sobre a mesa até pousar sobre a mão dela. No exato momento em que houve o toque, Márcia interrompeu sua fala e olhou para Aquiles, surpresa.

Ele sorriu e pensou em dizer alguma coisa. Poderia começar a explicar tudo para ela em ordem cronológica: seus sentimentos obsessivos por Veraline, como desenvolvera um sentimento de extremo carinho por Márcia, e a possibilidade de amá-la. Mas pensar era bem mais fácil do que se expressar. Aquiles hesitava quanto ao que dizer e como dizer.

Decidiu, portanto, ser bem direto.

– Márcia…

– Que foi? – Ela parecia tensa.

– Posso te dizer uma coisa?

– Já deveria ter dito.

Ele sorriu.

– Gostaria de ser a minha namorada? – Mais direto, impossível.

Ela ficou olhando para Aquiles, parecendo hipnotizada. Parecia não esperar por isso. As pessoas quase nunca esperam por coisas deste tipo.

Depois de um momento em silêncio, os olhos imóveis, ela perguntou:

– Está… me pedindo em namoro?

– Estou.

Ela sorriu.

– Meu querido… meu querido…

Será que ele precisaria de algo mais como resposta?

___

O mundo enlouquecera. Enlouquecera, definitivamente.

O King Jeremy reiniciou a turnê de divulgação do álbum, o que incluiu apresentações nos Estados Unidos. Foram dois meses de shows. Três por semana. As participações em festivais foram duas ou três – o resto eram shows exclusivos do King Jeremy. Aquiles chegou a perder a conta de quantas entrevistas tiveram de dar para jornais, revistas, programas de televisão e sites da internet. Após o último show, já tinham chegado à surpreendente marca de dois milhões de cópias – um fenômeno para um álbum duplo. Não único, porque outras bandas já haviam atingido e superado essa marca. Mas não deixava de ser extraordinário, principalmente por se tratar de uma banda brasileira.

Após isto, voltaram ao Brasil, e havia agenda cheia por aqui também, do norte ao sul do país. A popularidade deles crescia dia após dia. Não importava onde fossem, havia dezenas de pessoas que os reconheciam e iniciava-se a sessão de autógrafos. A princípio, Aquiles gostava disso. Mas com o passar dos meses foi tomando birra da inconveniência. Estava cada vez mais difícil conseguir sair para tomar uma simples cerveja sem ser interrompido a cada instante para dar um autógrafo ou tirar uma foto. Isso sem contar os constantes elogios quanto ao seu talento como letrista e guitarrista.

Andreas ainda não sabia que Aquiles estava namorando. Andreas estava tão envolvido com o trabalho da banda que ele só abria espaço para este tipo de discussão. Recusava-se a falar sobre outras coisas que não envolvesse o criativo e a performance do King Jeremy. Aquiles estava decidido a esperar o Obcecado mudar de assunto para poder se abrir com ele sobre as novidades com Márcia.

Depois do último show no Brasil, eles tinham mais shows agendados para Europa. Aquiles preferiria interromper momentaneamente a agenda. Não estava acostumado com esse ritmo a que foram submetidos da noite para o dia, e já demonstrava sinais de estafa. Precisava de algumas semanas, talvez alguns meses de paz. Assim, poderia ter noites de sono de qualidade, bem como passar tempo ao lado de Márcia.

Mas, o mundo tinha outros planos. Em pouco tempo, Apology alcançou a marca de 3 milhões de cópias vendidas, e isso parecia não ter fim.

Andreas disse:

– Vamos chegar aos 5 milhões.

– Não delire, Andreas – discordou Aquiles. – A gente não chega aos 4 milhões. Acabaram-se os anos das vacas gordas.

– Temos mais de 20 shows agendados para a Europa ainda. Isso vai render muitos dividendos.

– Nós já tocamos na Europa. Já estão a par do nosso trabalho por lá.

– Aquiles, definitivamente, você não sabe o que diz.

– Você vai ter de engolir o que estou dizendo. A gente não chega em 4 milhões.

Quem teve de engolir foi Aquiles. Antes de iniciarem os shows na Europa eles atingiram os 4 milhões. Na metade da turnê, 5 milhões. No final dela, 6 milhões.

Aquilo não tinha fim. Eles vendiam milhares por dia. As músicas do King Jeremy chegaram a ocupar o primeiro lugar na parada da Billboard por dois meses consecutivos. Em determinada semana, os três primeiros lugares foram deles. Os clipes que gravaram nesse meio tempo também ocupavam os primeiros lugares na MTV americana, na latina e na brasileira. No Grammy, ganharam o prêmio de melhor banda de rock, melhor banda revelação e melhor disco. Tudo o que eles faziam era fotografado, noticiado e elogiado.

Aquilo tudo era loucura. Quem eram eles? Apenas uns moleques desprezados e ignorados pelos colegas na época da escola por serem boçais, feios e esquisitos. Por que estavam conseguindo tudo aquilo? As músicas eram boas. As letras também. Mas isso não era motivo para dezenas de pessoas passarem a noite ao relento, em frente aos hotéis onde eles se hospedavam.

No final do ano, quando Aquiles era só bagaço, Andreas disse:

– Vamos gravar outro álbum.

Aquiles jogou um CD na cabeça dele.

– Por que fez isso, caolho miserável?

– Porque estou com sono e quero dormir. Chega de falar em música, chega de shows, chega de gravação. Me dá uma semana de descanso, lunático.

– Você não entende. Estamos no ápice. Me sinto criativo. Sou capaz de compor 50 músicas ainda hoje se você quiser…

– Mas eu não quero.

– Já tenho várias músicas que só precisam ser arranjadas. Tenho todas elas em minha cabeça. Nenhuma anotação, nem um acordezinho qualquer. Tudo na cabeça deste gênio. Dezenas de canções. Não podemos parar, Aquiles. O mundo quer mais.

– O álbum ainda está vendendo como água. Espere esses compulsivos pararem de comprar e aí a gente pensa em alguma coisa.

– Já estou pensando nisso, irmão. Já tenho o próximo álbum aqui. – Ele bateu o dedo no lado da cabeça. – Não só o próximo. Mas os próximos três.

– Você bebeu, Andreas?

– Não, Aquiles. A trilogia está pronta. Só esperam as letras. E para isso conto com sua criatividade.

– Trilogia? Do que está falando?

– Nossa próxima obra será uma trilogia. Uma história contada do ponto de vista de três pessoas. Três álbuns lançados em um ano e meio. Um a cada seis meses. E os três já têm até nomes: Jimmy, Kristina e Mr. Husband.

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