Na noite em que Aquiles apareceu, Veraline não estava em casa. Ela decidira passar o mínimo tempo possível em casa. Passara a avançar madrugadas adentro na tentativa de preencher espaços destituídos de formas e cores. E seu novo círculo de amigos sempre lhe oferecia “soluções” que incluíam noites em claro, cigarros e, até mesmo, outras drogas ilegais.

Outra “solução” fora apresentá-la a um estudante de Engenharia, chamado León. Segundo os amigos, eles tinham tudo a ver. Ele era um rapaz bonito, um físico atraente, e uma voz que Veraline achara sedutora desde a primeira vez que o ouvira.

León demonstrara, logo de início, atração por Veraline. Ela percebia isso pela insistência com que ele a fitava, e também pela maneira como a fitava. Seus olhares pareciam entrar em sua alma como que buscando conhecê-la intimamente. Quando era seguida pelos olhos atentos de León, Veraline se sentia melhor. Acabava se esquecendo de Marcos, nestas sublimes ocasiões. Ela então percebera que, estando León por perto, ela conseguiria finalmente cicatrizar. Talvez ele fosse o melhor tratamento psiquiátrico que poderia ter.

Quando voltou para casa naquela manhã, Veraline encontrou um bilhete debaixo da porta. Com alguma dificuldade, os olhos parecendo cobertos de areia, conseguiu ler:

“Desculpe-me. Deveria ter ligado antes. Estou de volta ao Brasil e ansioso em poder conversar com você. Te ligo mais tarde. Aquiles Lucká.”

Incrível como possa parecer, ela ficou alguns instantes se perguntando: Quem é Aquiles Lucká? Até que a imagem do garoto esquisito veio às suas confusas lembranças. Ela começou a se lembrar de que conversara com ele por telefone, semanas antes. Ela mesmo ligara para Aquiles. Onde ele estava? Talvez em São Paulo. Ou seria na Flórida? Ela não se lembrou. Fazendo o quê? Era algo relacionado com música. Gravando um álbum, provavelmente. Mas por que ela ligara para Aquiles? Disso, Veraline não conseguiu se lembrar, e na verdade, nem procurou se esforçar. Isso já não importava. Aquele desmiolado do Aquiles vivia perseguindo-a. Ele não perdia o costume. E para piorar, Veraline fora dar motivos adicionais para ele, fazendo-lhe aquela ligação. Agora que o pirralho vesgo não largaria do seu pé.

Veraline procurou afastar a imagem de Aquiles da cabeça e substituiu-a pela figura convidativa de León. Ao cair na cama, após tomar um comprimido para dormir, tinha a imagem vívida de León em sua lembrança. Poucos minutos depois, ela finalmente apagou.

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O que acordou Veraline do seu sono profundo foi o telefone tocando. Levantou-se às pressas para então perceber que sua cabeça latejava, intensamente.

Quando atendeu, a voz do outro lado da linha disse:

– Oi, Vera.

– Quem é?

– Aquiles.

Droga! Esse pirralho obsessivo de novo.

– Ah, sei. Eu estava dormindo, Aquiles. E parece que você me acordou.

– Me desculpe. Eu não sabia. Você leu o bilhete que deixei para você, noite passada?

– Li, sim. A propósito o que gostaria de falar comigo?

Ele deu uma risadinha.

– Bem, na verdade, eu ia lhe fazer exatamente essa pergunta.

– Como assim?

– Ora, você me ligou dizendo que queria conversar comigo. Estou te procurando porque você me pediu.

Eu pedi?

Ela fez um esforço sincero para conseguir se lembrar do que Aquiles estava falando. Ela se lembrava de que ligara para ele, mas não a razão. Por que infernos ela queria falar com Aquiles? Ela percebeu que a combinação química em sua corrente sanguínea estava consumindo seu cérebro. Se continuasse daquela forma, em pouco tempo, sequer conseguiria se lembrar qual era seu nome.

– O que eu lhe disse exatamente? – perguntou ela.

– Como assim?

– Quero saber o que eu disse quando liguei para você.

Houve uma longa pausa do outro lado da linha.

– Você deve estar brincando comigo, não é mesmo?

– É sério. Não estou lembrada.

– Você está drogada?

– Não me chame de “drogada” – gritou ela, no telefone. Detestava que as pessoas a chamassem assim.

Aquiles ficou em silêncio do outro lado da linha, mais uma vez. Quando falou, parecia impaciente:

– Escute aqui. Você me ligou na Inglaterra e veio com uma história de que precisava conversar comigo, porque havia reconsiderado toda a nossa história…

– Espera. A nossa história?

– É exatamente isso, pombas. – Ele começava se exaltar. – Você disse que estava cansada de cometer erros em sua vida e que havia reconsiderado todas as coisas que eu já disse e escrevi para você.

Eu devia estar maluca, pensou.

– Eu falei isso mesmo?

– Falou.

Ela acreditou. Vagamente tinha lembranças desta conversa. Mas sua cabeça doía tanto que ela não conseguia se concentrar. Mas qualquer que tenha sido a razão de ter falado aquilo para Aquiles, seria irrelevante. Afinal, tudo o que se relacionava com Aquiles Lucká era irrelevante.

– Aquiles, me desculpe se causei algum transtorno. Ou por ter dado a impressão de que poderia ter esperanças comigo ou qualquer coisa do tipo. O que quer que eu tenha dito foi sem essa intenção.

Ela ouviu um suspiro do outro lado da linha. E parecia a respiração ofegante de um animal furioso pronto para o ataque.

– Você me enoja, Veraline. Quer saber de uma coisa? Vou fazer um último verso para você, garota. Assim no improviso mesmo: Sou aquele que, para sua princesa, poesias inventa / Sem saber que a princesa é uma porca nojenta. / Poesias para ti não vou mais cantar / A única coisa que farei pensando em ti é arrotar. – O som grave do arroto de Aquiles pareceu uma metralhadora no ouvido de Veraline que precisou afastar o fone.

Quando ela colocou o fone novamente no ouvido para poder xingá-lo, Aquiles já havia desligado.

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