1999

  • Valendo-se de letras engraçadas e do suporte de três acordes, os californianos do Blink 182 tornam-se conhecidos com o lançamento do álbum Enema of the State. Originalmente chamados de Blink, precisaram mudar o nome da banda visto que já existia outro grupo, na Irlanda, com o mesmo nome. O número 182 foi tirado de um filme sobre bombeiros intitulado Turk 182;
  • Após o lançamento do álbum 13, que contém o single Coffee & TV, cujo videoclipe conta a saga de uma caixinha de leite, os integrantes do Blur se voltam para seus próprios projetos. O vocalista Damon Albarn se envolve na banda Gorillaz, que acaba fazendo um enorme sucesso, maior que o conseguido pelo Blur;
  • Joey Santiago (ex-Pixies) forma os Martinis, cuja sonoridade explora a tendência melódica dos Pixies. O que contribui para isso é o timbre da esposa de Joey, Linda Mallari, muito similar ao de Kim Deal. A curiosidade deste álbum é sua distribuição pela Internet;
  • Para evitar problemas judiciais com a produtora do desenho animado, a banda Penélope Charmosa passa a se chamar apenas Penélope. Neste ano, lança seu álbum de estreia Mi Casa, Su Casa;
  • Albert Hammond Jr. se muda para Nova York. Ele telefona para seu velho amigo de colégio, Julian Casablancas, que imediatamente o convida para se juntar à sua banda, The Strokes. Eles passam a maior parte do tempo escrevendo músicas e ensaiando e, perto do final do ano, fazem sua estreia no Spiral. Aos poucos, sua reputação na cidade vai crescendo, mas nada comparado ao que viria a acontecer na Inglaterra mais de um ano depois.

Após tensos e intensos meses de gravação, Apology estava pronto.

A capa era a imagem de um homem sentado, cabeça baixa, com as palmas das mãos estendidas para frente. Metade do homem era jovem, a outra metade, envelhecida. A foto subentendia as rápidas mudanças ocorridas na vida de um homem com o passar do tempo. No caso da personagem de Apology, em apenas 24 horas.

“Uma obra-prima”, exclamara Andreas ao ouvir o resultado. Vinte e quatro faixas de uma pureza bucólica inestimável. Apology era, de longe, o melhor álbum da banda. E Andreas arriscava dizer que se tratava de um dos melhores da história do rock.

O que, na prática, não significaria rentabilidade. Se os dois álbuns anteriores venderam menos de 30 mil cópias juntos, Apology, por ser duplo, provavelmente venderia menos. Mas acima de tudo, cifras não determinariam a qualidade da obra. Seu conteúdo falava por si próprio, e talvez fizesse com que a banda fosse respeitada no meio musical.

Em 1999, o King Jeremy voltou a tocar. Mais de um ano havia se passado desde que os quatro tocaram pela última vez para o grande público, e a sensação pós-abstinência foi muito boa. Eles tocaram em vários festivais onde já eram conhecidos, inclusive em mais uma edição do Festival de Edimburgo. Além disso, marcaram presença em pequenas casas de show na Alemanha e Bélgica.

A originalidade do álbum e seu viés por uma incrível criatividade fazia com que Apology recebesse uma atenção, até então, inédita para a banda. Matérias sobre King Jeremy invadiram diversos sites de música alternativa. Não demorou muito, e até mesmo sites de música pop deram alguns comentários sobre “o álbum do ano”, como escrevera certo crítico.

O dia em que estavam na Bélgica foi especialmente estimulante. Acessando o site do maior jornal de circulação no Brasil, eles leram uma crítica sobre os álbuns lançados naquele primeiro trimestre. A crítica dizia:

“Nestes tempos em que somos obrigados a nos curvar ante o besteirol, do meio das cinzas surgem verdadeiras obras-primas que nos fazem acreditar que ainda é possível ouvir boa música sem ter de recorrer aos nossos velhos discos de vinil empoeirados. A banda brasileira de rock alternativo King Jeremy lançou neste ano Apology About the Melancholy and Pain by Distress Man. O disco duplo – todo cantado em inglês – contém 24 faixas de puro bom gosto que agradará aos ouvidos mais exigentes. Ouça e não se arrependerá.”

Andreas quase chorou de emoção. Mal podia acreditar. Um jornal de ampla distribuição, em seu próprio país, fazendo uma incrível projeção do álbum. Talvez agora, finalmente, Andreas seria reconhecido em sua própria nação.

As previsões de Andreas de que o álbum, por ser duplo, venderia menos que os anteriores, provaram-se falsas. Em poucos dias, Apology ultrapassou a marca anterior, chegando a 30 mil cópias vendidas. Com o progresso da divulgação através de shows e matérias, logo eles chegaram às 60 mil cópias. Andreas mal conseguia dormir a noite. Ficava a maior parte do tempo acordado, visualizando os números surpreendentes que se desenhavam em sua mente estimulada. Sessenta mil cópias. Sessenta mil cópias. Quem poderia conceber uma coisa dessas?

Quando voltaram ao Brasil, no mês de Abril, Apology já havia atingido a cifra de 100 mil cópias vendidas. E tudo indicava que esse número provavelmente aumentaria, uma vez que as propagandas favoráveis ao álbum se multiplicavam.

No mesmo mês, eles tiveram uma surpresa maior: a MTV brasileira queria fazer uma matéria com eles. Eles participariam de uma entrevista no estúdio da emissora e, ao final, o programa exibiria uma música de uma apresentação ao vivo, gravada na Europa.

MTV!!! Do submundo alternativo, King Jeremy emergia para palco, sob os holofotes. Deixava a coxia para finalmente fazer parte do elenco principal. Pela primeira vez, Andreas se conscientizava de que eles teriam que começar a pensar na possibilidade de gravar videoclipes. Seria outro segmento do seu trabalho que exigiria muita criatividade, mas isto ele tinha de sobra. Um milhão de ideias já começavam fervilhar em sua mente ininterrupta.

No dia em que receberam esta notícia, ele passou na casa de Aquiles. O amigo se preparava para fazer uma visita à Veraline.

– Faz uma semana que estou tomando coragem para isso. Muito mais fácil encarar 30 mil pessoas em um palco do que ficar cara a cara com ela. Parece que estou indo para a forca.

– Vai mesmo levar isso adiante, Aquiles?

– Se eu não for atrás dela, vou me arrepender pelo resto da vida. Eu sei disso. O que tiver que acontecer, acontecerá. Posso quebrar a cara, mas que, pelo menos, não seja por covardia. Já me escondi demais nessa vida.

Andreas ainda achava que o amigo tinha vocação para o sofrimento. Márcia era uma boa garota, e já tinha manifestado interesse em Aquiles. Mas ele insistia em alimentar sentimentos pela maluca e problemática Veraline. Como Aquiles estava absorto em sua obsessão, e não havia ser no planeta capaz de demovê-lo da ideia, Andreas achou melhor não insistir em sua opinião.

Enquanto Aquiles cobria o corpo com um perfume fedorento, Andreas mudou de assunto:

– Semana que vem, a MTV nos aguarda.

– Ansioso?

– Nem me fale. Esperei por esse momento a vida inteira, e agora, esperar uma semana parece uma eternidade.

– Melhor ensaiar as respostas. Pelo menos para as perguntas padrão que, com certeza, eles farão.

– E o que acho que faço durante as 20 horas acordado, todos os dias?

– Eu não vou me preocupar com isso. Não vou abrir a boca. Você é o vocalista e o líder da banda. Vai ter que se virar sozinho.

Isso Andreas faria com o maior prazer. Tinha um anormal desejo de se destacar e, por esta razão, prezava muito a responsabilidade de líder.

Enquanto conversaram, Andreas observava o amigo tentando caprichar no visual. Ele se preocupava com cada fio de cabelo que caía pela testa. E não dava muita atenção à conversa. Exigia-se demasiada concentração para assentar aquele fio de cabelo que teimava em ficar de pé.

Andreas concluiu que estava sobrando ali. Além disso, o cheiro daquele perfume barato impregnava o ar e suas narinas, deixando-o enjoado. Por isso, despediu-se de Aquiles e prometeu ligar mais tarde para saber o resultado da conversa com Veraline.

Enquanto caminhava, perambulando sozinho pelas ruas inóspitas, Andreas começou a pensar em tudo o que acontecera em sua vida nos últimos meses. E, inevitavelmente, vieram-lhe lembranças do dia em que se empoleirara na janela daquele hotel barato em Londres, e por pouco não saltara.

Poderia estar morto agora. Ou tetraplégico.

Mas Apology e uma frase da jovem Suzana lhe salvaram. E naquele momento, mergulhado na escuridão da noite, Andreas achou que poderia expressar a gratidão para ela, de alguma forma. Já que ela mesma se autoproclamava a fã n° 1 do King Jeremy, desde os estágios embrionários da banda, talvez ele pudesse presenteá-la com um CD autografado.

Naquela noite, Andreas ligou para Davi Mateus e falou sobre a possibilidade de entregar um CD autografado para Suzana. Tudo o que ele queria era passar no estúdio ou em sua casa, e deixar o CD. Nada mais do que isso. No entanto, o homem foi gentil e insistente: queria que Andreas jantasse em sua casa. Contrafeito, mas sem deixar transparecer, Andreas aceitou.

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O jantar foi no dia seguinte, no apartamento de Davi Mateus.

Eles moravam no oitavo andar. Assim que Andreas saltou do elevador, a pequena Suzana o esperava. Ela correu em sua direção e deu-lhe um abraço.

– Olá, minha fã número 1 – disse ele, meio sem graça.

– Oi. Obrigado por me chamar de fã número 1. Eu sou mesmo. E obrigado pela visita.

A mãe de Suzana apareceu na porta, e Andreas foi até ela para cumprimentá-la.

– Como vai, a senhora?

– Vou bem, meu filho. E você?

– Bem, obrigado. E o senhor Davi?

– Ele está no escritório atendendo uma ligação, mas logo vem. Vamos entrando. O jantar já está pronto.

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Durante o jantar, as conversas passeavam por diversos assuntos, a maioria dos quais, Andreas não dominava. Só se sentia confiante quando o assunto era King Jeremy. Ele perguntou para Suzana:

– O que achou de Apology?

– É ma-ra-vi-lho-so!!! Nunca ouvi nada igual. Amei Andreas. Você é o melhor.

O inseguro sentiu-se corar. Uma criatura frágil que precisava ouvir elogios e declarações de afeto para se sentir confiante.

– Mas não espere muitos elogios do segundo álbum – continuou ela. – O que era aquilo? Estava horrível. – Suzana era sincera. Não havia espaço em sua personalidade para bajulação.

Davi Mateus riu:

– Se quiser uma opinião sincera, pergunte para a Suzana.

– É. A gente passou por alguns problemas e perdemos a nossa identidade. Mas depois da má fase nos reencontramos novamente.

– E como!!! O terceiro ficou maravilhoso. As melodias, sua voz, os arranjos, as letras. Tudo ficou perfeito.

– Pois é. E falando nisso: sei que já tem o CD, mas esse aqui é autografado – disse ele, tirando Apology do bolso e entregando para ela.

Ela chegou dar um grito de alegria.

– Oh, Andreas. Você é um fofo, sabia? Muito obrigada.

– Tem autógrafos de todos da banda. Inclusive do nosso produtor musical.

Davi comentou:

– Isso é para poucos. Obrigado Andreas.

– Estou te devendo essa – disse Suzana, parecendo emocionada.

A conversa entre eles durou mais uma hora. Quando foi embora, Andreas se sentia feliz. Enquanto ia para casa, ele não fazia a mínima ideia dos eventos impactantes que os próximos dias trariam sobre sua vida.

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