Naquela maldita noite, Andreas não dormiu. Era um zumbi com um coração tão vazio que parecia ecoar seus gritos por socorro. Memórias do que ele nunca viveu lhe esbofeteavam. Bem como saudades de um tempo que nunca existiu.

Depois de se revirar na cama por duas horas, ele foi até a janela. Meia hora depois voltou para a cama para mais uma tortura de uma hora acordado. Voltou a se levantar e dessa vez, pôs-se a andar de um lado para outro, silenciosamente, pelo pequeno quarto que era dividido pelos quatro integrantes da banda.

Elou foi o único a acordar e foi logo perguntando, num sussurro:

– Que foi, cara?

– Realidades amaldiçoadas.

– Quê?

– Deixa pra lá, Elou. Volte a dormir.

– Que jeito? Você não para um instante.

– Foi mal. – Andreas voltou a se deitar.

Eram quase cinco da manhã.

A conversa com Aquiles dera vida a sentimentos que, pelo menos durante alguns dias, estiveram adormecidos. A depressão de Andreas sempre era um vulcão prestes a entrar em erupção. Ela estava em constante atividade, esperando apenas qualquer gatilho para dar as caras com força total. Tomava-lhe conta, tomava-lhe espaços. E a solidão eram pesadas doses aplicadas em suas veias.

Monstros que parecem não adormecer. Passageiro para lugar nenhum.

E o passar das horas, a noite insone e a franqueza da idílica culpa não contribuíam em nada para melhorar seu estado. Pelo contrário, Andreas esgotou-se ao ponto de se sentir a pior pessoa do planeta. Chegou a ter náuseas de tão enojado de ser ele mesmo. Gostaria de ser qualquer idiota do planeta, menos o repulsivo Andreas Hugo. Porque qualquer idiota, por mais cretino que fosse, ainda era amado por alguém. Andreas conhecia uma porção de caras cretinos que eram amados. Mas nem isso ele tinha. Não lhe estava reservado intensidades amorosas, nem mesmo sobras de luz. Naquele momento, subjugado por aquela maldita insônia, ele estava consciente de que não havia, e nem haveria, uma única criatura no mundo que fosse capaz de pensar: “Oh, Deus, como eu amo Andreas!” Ele era o pior sujeito que uma mulher poderia ter parido. Sua mãe deve ter tido náuseas, não durante a gravidez, mas depois do nascimento, quando viu o epítome de infelicidade que botara no mundo.

Ele se levantou novamente e Elou resmungou alguma coisa.

Andreas chegou até a janela, abriu-a, sentindo o vento gelado da noite londrina. Contemplou a rua, três andares abaixo. Seus dedos deslizavam sobre o parapeito áspero de madeira do hotel. Lá embaixo, sob o semblante carregado da noite, poucas pessoas caminhavam na rua. A luz opaca pouco iluminava o espaço alcançado pela visão cansada de Andreas. Ele ouviu alguém assobiar alguma canção em algum lugar qualquer. A rua parecia começar a receber a movimentação dos trabalhadores.

Andreas percebeu que seu coração estava acelerado. Ele olhava fixamente para o chão lá embaixo. E o chão olhava para ele, suavemente. Parecia sorrir. Parecia dizer: “Venha para mim, meu querido. Permita-me abraçá-lo com todo meu amor. Mas preciso que venha agora”.

Três andares. Queda livre. Baque surdo. Seus ossos se arrebentando na calçada nem acordaria outros. Talvez acordasse Elou que estava maluco da vida com as andanças de Andreas. Depois disso, um grito. Talvez hospital. Provavelmente, cemitério.

Ao mesmo tempo, tinha medo das consequências. Não queria correr o risco de passar o resto da vida tetraplégico. Este seria o final mais triste para o filme depressivo que era sua vida.

Andreas colocou o pé sobre o parapeito e, por fim, subiu na janela. Tremia.

Tetraplégico. Tetraplégico. Palavrinha maldita que ficava ecoando em sua cabeça.

Ele continuou a se preocupar com outras coisas – coisas pequenas, por sinal. E se antes que chegasse uma ambulância, os urubus atacassem seu corpo? Não queria ser comido por urubus. A ideia de ficar estirado no chão, servindo de refeição para aves necrófagas lhe apavorou. Eram pensamentos idiotas que vinham a sua mente. Talvez na hora da morte, concluiu ele, todos ficavam assim, meio idiotas.

A calçada continuava a convidá-lo. E ele se perguntava se alguém se importaria se ele aceitasse ou não o convite. De uma vez por todas, quem se importaria?

Ninguém se importa com coelhos doentes e abandonados.

Ele sussurrou:

Um motivo… Apenas um maldito motivo para não ir em frente.

Por falta de um motivo, Andreas deparou-se com dois. O primeiro: A Apologia de um Homem Angustiado Sobre a Dor e a Melancolia. Ele era o homem angustiado e tinha a obrigação de defender a sua dor. Esta era sua missão. Ele seria uma prova viva de que o homem, ainda que dominado pela dor e pela melancolia, poderia potencializar sua criatividade e ainda envolver multidões com sua arte e genialidade. As pessoas no mundo poderiam ouvir essa mensagem clara, mas ele precisaria estar vivo para isso. O segundo: as palavras de Suzana. Lembrou-se dela lhe dizendo: “Você é o centro do mundo, Andreas”. Ela já o fizera sentir-se vivo em uma ou duas ocasiões. E esta parecia ser a grande beleza do mundo: a capacidade de valorizar o que se tem poderia partir das coisas mais simples, ainda que uma simples frase dita por uma jovenzinha.

Lentamente, Andreas desceu do parapeito da janela.

– Feche essa janela – resmungou, Elou.

Ele fechou a janela, mas continuou de pé, parado. Olhou para uma viga na parte superior do quarto. Lembrou-se do filme Um Sonho de Liberdade em que um velhinho recém-liberto da prisão deixa uma mensagem em uma viga, no pequeno quarto de hotel antes de se matar. Andreas foi invadido pelo súbito desejo de fazer o mesmo. Pegou um canivete e subiu numa cadeira.

Quando foi escrever veio-lhe uma dúvida: escrever o quê? Não queria algo vago e superficial como: “Andreas Hugo esteve aqui”. Precisava de algo que representasse melhor seu ser neste significativo momento de sua vida.

Após pensar um pouco, Andreas escreveu:

“Sou o coelho caçado impiedosamente em campos escuros,

Mas às vezes sonho que sou o caçador”

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Naquela manhã, Elou reclamou um milhão de vezes pelo fato de Andreas ter estado tão irrequieto naquela noite. Mas ficou curioso quando lera a inscrição na viga.

– O que é isso? – perguntara.

– Senti vontade de escrever alguma coisa.

– Não tinha papel?

– Ali é melhor.

– E essa frase…?

– Pensei em algo e pronto. Ou, talvez, até tenha escrito sem pensar.

– É a frase típica de quem não pensa em nada, realmente. Mas não deixa de ser uma frase legal.

Andreas esboçou uma aparência triste e disse:

– Vou pedir para colocar essa frase na lápide do meu túmulo, quando eu morrer.

– Interessante. Mas enquanto você não morre, vê se deixa os outros dormirem. Quando tiver seus acessos criativos, inscrevendo frases de gênios em vigas de um quarto de hotel, procure fazer isso durante o dia, ok?

– Você quem manda, chefe.

Elou, felizmente, não vira Andreas de pé na janela. Mal sabia que quase perdera o amigo durante a última noite. E esta parece ser a assustadora verdade: as pessoas estão a apenas um passo da morte, mas a humanidade é distraída o suficiente para ignorar isso.

Ou, pelo menos, finge que não percebe.

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Em poucos minutos, eles estavam todos preparados para iniciar a gravação. Fábio estava gravando a bateria de uma música que se chamava My Place (Meu Lugar). Contava a história do meio-dia do jovem executivo do álbum. Era a hora em que os seres humanos abandonam suas posições educadas e delicadas e avançam com ferocidade voraz sobre pratos de comida, como animais. A música falava sobre a busca de cada um – inclusive do Sr. Angústia – por um lugar na sociedade onde pudesse devorar pele e osso daqueles que são inferiores: o patrão que devora o empregado; o rico que devora o pobre; os jovens populares que devoram os excluídos. Todos tinham culpa. Nenhum inocente, nenhum absolvido. My Place seria a sexta faixa do álbum.

Mas, tudo o que Andreas desejava naquele momento era que aquele dia acabasse o mais depressa possível. Mal podia esperar a hora de deitar e dormir por umas doze horas seguidas.

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Quando a noite chegou, Andreas se perguntava o que o próximo ano lhe traria. Ele tinha a impressão de que o ano seguinte traria grandes mudanças em sua vida. Era isso o que esperava. Era isso pelo qual torcia. Mas precisava se manter vivo para poder comprovar se estava certo.

Quando ele caiu na cama, naquela noite, dormiu como um bebê.

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