Para onde pensa que vai, homem solitário? Sua cova está logo ao seu lado

Meses depois, Andreas ainda computava zero amizade. William e Alex eram os mais próximos. E Aquiles “Cego” Lucká vivia encarando-o. Parecia querer briga. Apesar disso tudo, Andreas ainda se considerava um sortudo. Afinal, não tomara nenhuma surra até então. Mas não era o caso de abusar da situação confortável.

Quando o sinal soou para o intervalo naquele dia, mais um dentre mil outros enfadonhos, Andreas suspirou, aliviado. Estava cansado de ouvir sobre as leis de Newton.

Ele foi para o pátio onde ficaria sentado observando aquele bando de moleques gritando e fazendo gracinhas para se aparecer para qualquer observador tapado como ele próprio.

William emparelhou com ele.

– E aí roqueiro. Já montou a banda?

– Nem.

– Tem uns malucos aí no colégio que tem banda. Por que não fala com eles?

– Quem são?

– Eu sei lá. Só ouvi falar.

– Quem falou?

– Nem lembro, cara. Isso faz tempo, eu acho.

Era uma toupeira, mesmo. Por que não prestava atenção no que acontecia ao redor para ser útil, pelo menos, para dar uma informação?

– Se ficar sabendo de alguma coisa, me fale.

– Fica frio.

E saiu correndo em direção aos amigos dele.

Hoje, Andreas não estava com fome. Estava com azia de ouvir a professora discursando aquele interminável blá-blá-blá newtoniano. Então preferiu ficar por ali mesmo, sozinho. Que diferença isso faria?

Durante 15 minutos ficou apenas observando as crianças e suas gargalhadas. Todos riam, o tempo todo. Andreas se perguntava porquê. O que achavam de tão engraçado na vida? Será que saber que poderiam morrer a qualquer momento tornava a vida engraçada? Ou estariam totalmente absortos a essa realidade? Talvez se considerassem imortais. Ou melhor: talvez nem estivessem vivos realmente. Andreas ficou imaginando se ele não seria o único ser consciente no planeta. Todas as pessoas eram robôs. Talvez isso explicasse porque todo mundo sorria e Andreas, não. Eles eram robôs programados para sorrir. Andreas fora projetado para ser ele mesmo – se quisesse sorrir que sorrisse, se não quisesse, poderia se jogar da ponte.

Verme sensível. Fim definido. Esperanças desenhadas no vento.

O vesgo mal-humorado surgiu ao seu lado. Estava sentado no banco, a uma curta distância, e só agora Andreas o notara.

Aquiles também deveria ser um robô. Um robô vesgo com cara de idiota, programado para ser um sonso fazendo cara de mau.

Ele escrevia alguma coisa num papel. Pensou um pouco, escreveu mais uma ou duas palavras. Pensou de novo, escreveu mais uma palavra.

Robô vesgo com falha de programação: incapaz de escrever uma sentença inteira sem ficar pensando por horas.

Andreas que não tinha mais o que fazer da vida, ficou ali, assistindo ao vesgo mal-encarado.

Aquiles dobrou o papel e gritou para um garoto que estava por perto e que fazia uns barulhos engraçados com a boca, imitando uma metralhadora. Às vezes, Andreas fazia isso. Ele ficava sem roupa diante do espelho e ao contemplar a figura esquelética e monstruosa, empunhava uma metralhadora invisível e disparava contra a imagem refletida. Assustador e infantil – uma perigosa combinação.

Aquiles falou alguma coisa para o moleque, entregou-lhe o papel e apontou a lanchonete. Em seguida, o garoto saiu em disparada. Andreas acompanhou-o com os olhos. Ele entregou o papel para uma garota loira da sala ao lado. O menino voltou correndo para sua guerra virtual enquanto a loira lia o papel. Aquilo estava cheirando a uma declaração amorosa. Aquiles parecia apreensivo. Andreas podia apostar que o infeliz nem respirava. Babaria a qualquer momento.

A loira demonstrou pouquíssima preocupação, e jogou o papel no lixo. Nisso, o sinal do colégio soou.

Aquiles parecia abatido com a reação da menina. De cabeça baixa, praticamente se arrastou para a sala de aula. Andreas correu até a lixeira. Ali havia guardanapos de papel, copos plásticos, latas de refrigerante. Em cima de tudo, um pedaço de papel amassado. Nele, se lia:

“Sei de sua dor, sinto sua dor, saro sua dor”.

Nada mais. Nem mesmo uma assinatura. Na verdade, não tinha muito sentido. Era poético, mas não objetivo.

Andreas voltou para a sala com o bilhete.

Aquiles estava sentado em seu lugar, inexpressivo. Estava amando, não havia dúvidas. Andreas ficou pensando no que deveria fazer. Não gostava de ninguém, mas nutria um desprezo em especial por aquele idiota.

Assim, sempre guiado por seu senso vingativo, Andreas foi até Aquiles e disse-lhe:

– Está apaixonado pela loira?

– Quê?

– A loira da sala ao lado.

– Do que você tá falando?

– Será que você tem alguma chance com ela? Olhando para ela … depois olhando para você … Não sei, não.

– Dá o fora, magrelo.

Andreas soltou o bilhete na carteira de Aquiles.

– Ela despreza até seus bilhetes ridículos. – E foi para o seu lugar.

Nome: Andreas. Sobrenome: Vingativo.

Sentado em seu lugar, Andreas divisava o coitado. Tinha o papel amassado nas mãos, mas em momento algum encarou o sorriso maldoso de Andreas.

Andreas – o oprimido, o opressor. Sentia-se vivo. Sentia-se bem. E Aquiles merecia.

Quando a professora mastigadora de vento entrou na sala, Andreas nem ficou deprimido.

___

Ao final daquele dia de aula, Andreas foi ao banheiro do colégio, o mais imundo do planeta. Todas as paredes pintadas de amarelo (até o piso da mesma cor), muito provavelmente para camuflar dejetos humanos. Um ambiente inóspito e desprovido de qualquer sanidade. Quando Andreas ia saindo do banheiro, já com ânsia de vômito, deu de cara com o disforme zarolho invocado.

Aquiles foi logo dizendo, ameaçador:

– Não sei quem você é, e estou me lixando para seus sonhos idiotas. Mas não pense que vou abaixar a cabeça se cruzar meu caminho.

– Cruzar seu caminho? Como assim?

– Você se julga o esperto, não é?

– Ficou nervosinho porque descobri seu segredo?

Andreas sentiu o olhar ameaçador de Aquiles penetrar em sua alma, mas não deixaria que aquele metidinho posasse de homem-assustador-que-exige-respeito.

Aquiles apontou o dedo ameaçadoramente.

– Melhor se cuidar, Andreas.

Andreas escolheu as próximas palavras tão bem quanto se estivesse escrevendo uma redação para passar de ano:

– Para onde você está olhando?

Nunca subestime o adversário. Andreas deve ter lido isso em algum lugar, ou visto em algum filme. De qualquer forma, o que aconteceu em sequência provou que a lição havia sido esquecida. Antes que pudesse sorver-se com a delícia de ver Aquiles encolhido e humilhado, o zarolho desferiu um violento soco que acertou Andreas no queixo. Ele sentiu o impacto numa mistura de susto e dor. Estava tão confiante que nem conseguiu esboçar qualquer reação defensiva e, pior ainda, desabou para trás. Caído, sentindo o queixo latejar, ele divisou Aquiles, bufando.

O covarde chora suas derrotas. O covarde com gosto de sangue. O covarde sou eu.

Aquiles se virou para ir embora. Andreas se levantou. Estava com vontade de chorar. Nunca levara um soco na vida, e o susto doía mais que a própria dor. Mas se demonstrasse fraqueza, Andreas perderia definitivamente qualquer resquício de respeito que o vesgo podia ter por ele.

Assim, reagindo ao seu impulso, ele avançou para cima de Aquiles. Ele jogou-se sobre o corpo do vesgo que caiu ao chão. Andreas começou a bater de qualquer jeito, alternando mãos abertas e fechadas. Aquiles, que estava por baixo, fazia a mesma coisa. Os dois socavam mais vento do que rosto. Andreas por estar por cima, conseguia acertar um tapa ou outro entre umas quinze tentativas. Aquiles xingava alguma coisa, mas Andreas não ouvia. Estava sob tamanha tensão que não seria capaz de ouvir uma bomba nuclear explodindo no pátio do colégio.

Até que os dois, exaustos, pararam de brigar. Andreas sentou-se num canto, mal conseguindo respirar. Aquiles, idem. Vários arranhões. Até as meninas brigariam melhor que as duas figuras. E certamente não fariam tanto escândalo.

– A loira nunca vai querer nada com você. – Disse, quase sem fôlego.

– Não te perguntei nada. Não te conheço.

– Fique longe de mim.

– Fique você.

Com a roupa toda suja e fedendo a mijo, Andreas foi embora.

___

Naquele dia, Andreas entrou em seu quarto e começou a compor uma música. O som grave da guitarra ecoava por todo apartamento. Logo os vizinhos viriam reclamar. Ou os seus irmãos. Durante a execução da música, vez por outra ele gritava algo como: “Sou o verme, e o verme há de mudar”.

E tocava com mais raiva e vigor.

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