Corrosiva

Crônicas corrosivas e gestos de amor

A Lenda de King Jeremy – CAPÍTULO 29

Aquiles desligou o telefone custando a acreditar na conversa que acabara de ter com Veraline.

Um misto de alegria e confusão o dominava neste instante. Não era fácil de assimilar: fora desprezado por uma pessoa a quem amara durante anos e, de repente, da noite para o dia, ela parecia mudar completamente o comportamento. Ela nunca fizera o menor esforço para lhe lançar um reles olhar. E agora, subitamente, fazia uma ligação internacional para lhe dar esperanças. Será que Veraline estava sob efeito de drogas? Era uma possibilidade bastante real, dado aos últimos rumores que Aquiles ouvira.

O distúrbio. O problema. O inevitável questionar-se: A que fim tudo isso levará?

Naquele momento, poucas coisas faziam sentido, mas Aquiles sabia que tudo continuaria mergulhado neste lamaçal confuso. Pelo menos, por mais algumas semanas. Para que aquela conversa fosse definitivamente esclarecida, ele precisaria voltar ao Brasil e conversar pessoalmente com Veraline. Longas esperas. Esperas angustiantes para um desesperado. Nada lhe restaria durante todo este tempo exceto deixar-se ser engolido pela dúvida. Em suma, esta seria sua essência.

Aquiles deixou o escritório e foi até o estúdio.

Os demais integrantes do King Jeremy estavam ali reunidos com Tod Lensen – o primeiro verdadeiro produtor musical da banda. Sob indicação da gravadora, eles entraram em contato com o produtor que tinha uma longa ficha de bandas iniciantes lançadas no mercado.

Tod devia ter uns 50 e poucos anos. A sagacidade dele foi algo que todos os integrantes perceberam no primeiro contato que tiveram. Era inteligente e profissional. Mas também espirituoso. No dia em que ouvira o King Jeremy tocando pela primeira vez, ele dissera:

– Nunca trabalhei como uma banda tão boa quanto vocês. – E depois arrematou: – Mas é claro que falo isso para todas as bandas com as quais trabalho. – E deu uma risada alta.

Tod seria o quinto integrante da banda. Seria o responsável por tornar as músicas do King Jeremy mais cativantes e absorventes. Seria a visão crítica e realista fora da utopia de quatro jovens emocionalmente envolvidos com cada nota, cada verso.

Metade das 24 músicas do novo álbum já estava pronta. E pelas conversas nos bastidores, aquele álbum seria um importante marco no rock alternativo. Em certa ocasião, Aquiles perguntara a Tod:

– Acha que vamos estourar?

– Depende do que entende por “estourar”, filho. – Ele vivia chamando os outros de “filho”. – Esse álbum promete. Vai arrepiar o cenário do rock alternativo. Mas se acha que tem potencial para entrar nas paradas de sucesso, você vai ficar um pouco decepcionado. Para não dizer “extremamente decepcionado”.

– Mas se é tão bom, o que nos separa do sucesso?

– Estou nesse ramo há muito tempo. E posso te dizer que já vi muitas bandas com um som totalmente novo e revolucionário. Mas apenas poucas, bem poucas, saíram do anonimato.

– Isso é mal.

– O que estamos produzindo é algo novo. Mas é bem provável que, neste exato momento, outras bandas estão fazendo um som exatamente como o nosso, cada qual em sua pequena garagem ou em um estudiozinho qualquer. Se uma destas bandas conseguir o sucesso, será apenas uma. Ou duas, no máximo.

– Está querendo dizer que isso, na verdade, parece uma loteria?

– Não, filho. O que estou dizendo é que isso é uma loteria.

Essa conversa tiveram dias atrás e, de certa forma, deixara Aquiles desgostoso. Agora, após o telefonema de Veraline, ele nem se lembrava deste diálogo.

Quando Aquiles entrou no estúdio, Tod perguntava para Andreas:

– Que tipo de som?

– A música fala sobre o temor de pequenas coisas – respondeu o vocalista. – Não precisa ser algo assustadoramente grande ou monstruoso. Mas algo pequeno, que deixe a pessoa amedrontada. – Quando viu Aquiles, Andreas disse, exaltado: – Por onde andou?

– Estava resolvendo uns negócios. Foi mal.

Às vezes, quase sempre, Andreas sabia ser insuportável.

– Andreas – retomou Tod. – Esse medo precisaria ser, então, subentendido?

– Exato. Uma explosão, por exemplo, não serviria.

– Um tiro? – sugeriu Elou.

– Dá na mesma. Precisamos de algo mais incisivo, algo que penetre na alma dos ouvintes.

– Algo como … um enxame de abelhas?

Aquiles viu os olhos de Andreas brilharem depois da sugestão de Tod.

– Isso! Parece muito bom! … Abelhas. Um enxame. Você pensa rápido, hein garoto?

– E para isso que sou pago.

– Abelhas enfurecidas. Bem na introdução da música. Pode conseguir isso, Tod?

– Muito fácil.

Tod começou a fazer anotações em um papel. Ele tinha duas manias: chamar todo mundo de “filho” e anotar tudo o que conversavam. Não devia ter uma boa memória.

– E o som da primeira faixa? – perguntou Aquiles, tentando entrar na reunião. – A gente vai enfiar uma harpa ali ou não?

– Estive considerando isso. – respondeu Tod, enquanto apertava vários botões da mesa de som. – O Elou gravou a linha de harpa ontem, e eu coloquei no arranjo. Acho que ficou bom. Ouçam.

Tod colocou a música de introdução chamada Good Morning, Little Worm (Bom Dia, Pequeno Verme). Ela começava com uma batida de violão leve e otimista, e um piano ao fundo representando o começo promissor de um jovem executivo em um dia ensolarado.

O álbum Apology descreveria como um executivo enlouquecia em 24 horas. Eram 24 faixas – cada uma descrevia uma hora do seu dia. A primeira faixa começaria às 7h00 da manhã. À medida que as faixas avançavam – e consequentemente o aumento do estresse de um dia cheio de decepções e torturas emocionais – as músicas adquiriam uma atmosfera mais soturna. E o homem ia sofrendo uma grande mutação, enquanto a dor e a melancolia faziam-no encarar a vida de outro ângulo. Aquiles achava que esta seria uma obra fenomenal e inconfundível.

Após solos do violão, ouviu-se na introdução da música a voz de Andreas sussurrando: “The last day, 7 a.m.”. Depois havia três segundos de silêncio – Andreas exigira isso, dizendo que se tratava de uma sensação de desconfiança da personagem do álbum. Algo como um prenúncio de que aquele dia lhe traria algo terrível. Depois o violão voltava, e o piano tornava-se mais acentuado, como se o homem dissesse para si mesmo: “Bobagem, é só impressão minha!” e seguisse sua vida tranquilamente.

Depois de um minuto de música, entrava a harpa em questão. Aquiles percebeu que ela dava um aspecto mais animado e otimista à canção. O som do violão, piano e harpa continuavam juntos por mais um minuto e meio até que a música cessava, suavemente.

Tod olhou para os quatro.

– Ótimo, não é mesmo?

Todos concordaram.

O produtor continuou:

– Também achei. No momento em que a harpa entra, a música se torna mais estimulante. Isso representa o momento exato em que o nosso homem sai de casa e recebe o calor estimulante dos raios do Sol, já perto das oito da manhã. Ele acha que seu dia será maravilhoso. Mas o desgraçado mal sabe que vai enlouquecer em menos de 24 horas.

– Ou 24 faixas – brincou Elou.

Andreas arriscou:

– Ouçam o que eu digo: Apology vai revolucionar o rock.

– Será um ótimo álbum, Andreas.

– Não, Tod. Você não entende. Esse será um dos melhores álbuns de todos os tempos. Apology About the Melancholy and Pain by Distress Man vai figurar ao lado de magistrais obras do rock mundial.

Aquiles também acreditava que Apology, depois de pronto, seria uma obra de significativa maestria. Mas como Tod havia dito, neste momento, muitas bandas poderiam fazer algo muito parecido. E talvez, apenas uma delas seria colocada sob os holofotes do reconhecimento. Por isso, era provável que bem poucos conheceriam o trabalho de alta qualidade que estavam produzindo.

De qualquer forma, Aquiles acreditava que tinham todos os motivos para comemorar. Apology não venderia tanto quanto poderia, especialmente pelo fato de ser um álbum duplo. Ainda assim, ele tinha certeza de que o mercado alternativo passaria a ter um respeito maior por King Jeremy, após seu lançamento.

Mas, enquanto Aquiles tentava se concentrar nos assuntos relacionados à banda, as lembranças de Veraline voltavam à sua memória. Mal podia esperar ficar frente a frente com ela, e botar em pratos limpos aquela conversa enigmática.

A imagem dele andando de mãos dadas com Veraline se formou em sua mente, e levou algumas horas para se desvanecer.

___

Durante a noite, Andreas chamou Aquiles para dar umas voltas pela cidade. Passear tranquilamente pela noite londrina foi algo que conseguiu distrair Aquiles. Aquele dia havia sido estranho, com pensamentos recorrentes sobre o telefonema daquela tarde. Todos perceberam que ele não estava conseguindo o máximo de sua concentração, mas evidentemente, não tinham a mínima ideia de quais eram suas razões. Talvez por isso Andreas o tenha chamado para sair.

– Tenho fascínio por essa cidade – comentou Aquiles, enquanto passavam por uma rua repleta de pubs de ambos os lados. – Gostaria de um dia morar aqui.

– É uma boa cidade, mas duvido que eu me adaptaria.

– O que me fascina em Londres é… Londres. Simplesmente, Londres. Se um dia eu tivesse grana, viria pra cá.

– Quando fizermos sucesso, você pode realizar seu sonho.

– Você acha mesmo que conseguiremos o sucesso ou só diz isso fazendo o seu papel de líder?

– O que eu falo ou acho não interessa, Aquiles. Nossa obra fala por si, e ela tem voz mais forte do que todos nós.

– O Tod disse que, neste momento, tem um milhão de bandas fazendo um som como o nosso.

Andreas deu uma gargalhada cínica.

– O Tod é um idiota. O trabalho dele é produzir o nosso som, não ficar fazendo previsões do nosso futuro. Ele é produtor, não um médium musical.

– Ele me disse que tudo isso não passa de uma loteria.

– Se isso for uma loteria, meu caro, então nós temos o número da sorte.

– Mas os argumentos dele são um tanto quanto lógicos…

– Eu sei muito bem quais são os argumentos dele. – Andreas parou subitamente e começou a falar com irritação. Qualquer comentário que colocasse em questão o futuro sucesso deles deixava-o irritado. – Ele quer dizer que não existe originalidade neste ramo. Apenas um pouco de sorte para alguns moleques, em especial. Mas deixe dizer quais são os meus argumentos. Década de 60. Consegue imaginar a molecada fazendo barulhos toscos numa garagem inglesa e, de repente, eles ouvem, pela primeira vez, os Beatles com um som totalmente inovador e diferente? No mesmo instante, eles começam a tentar imitar o som genial que ouviram. Com um pouco de persistência, esses moleques conseguem um relativo sucesso e gravam um disco. E daí vem um idiota como Tod e diz que esses infelizes também inovaram o rock, mas foram apenas os Beatles que tiveram sorte? Ao inferno com Tod. – Andreas voltou a caminhar, dessa vez a passos largos e firmes, um caminhar de quando estava furioso. Aquiles tentou acompanhá-lo. Andreas continuava falando: – Você acha mesmo que os grandes gênios da música são, na verdade, uma pequeníssima parcela de outros gênios que tiveram a mesma ideia ao mesmo tempo? Se acha isso, não sei o que está querendo aqui, amigo.

– Quero apenas tocar, Andreas.

Ele parou, abruptamente, mais uma vez, e apontou um dedo na cara de Aquiles.

– Então entrou para a banda errada, garoto. Vá procurar uns retardados cheios de grana e com pose de roqueiro. Porque quem está no King Jeremy não está aqui apenas para tocar, mas para conquistar o lugar que lhe é merecido. Seremos o topo do mundo e não vamos nos contentar com apenas tocar.

Ele voltou a andar novamente.

Se essa conversa tivesse acontecido um dia antes, Aquiles teria voltado pelo caminho que tomara, se separando de Andreas. O infeliz era insuportável quando contrariado. Se as pessoas não dissessem que o King Jeremy ia vender um trilhão de cópias em um dia, aquela peste se recusava a dar um sorriso. Era uma obsessão!

Mas, hoje, Aquiles não estava disposto a discutir com Andreas. Na verdade, Aquiles não estava disposto a porcaria nenhuma. Por isso, tratou de apertar o passo e alcançar o neurótico obsessivo.

– Tudo bem, cara. Eu concordo que a gente é porrada. Só estou querendo dizer que, se por acaso, a humanidade fizesse uma tremenda injustiça e não nos reconhecesse, ainda assim eu estaria feliz por tocar. Tocar me faz bem, quer faça sucesso ou não.

– Tocar me faz sentir bem. Mas o sucesso, o reconhecimento, é o que me manterá vivo.

– Concordo – mentiu.

Andreas pareceu se acalmar um pouco.

Eles caminharam em silêncio durante alguns instantes até que Andreas perguntou:

– O que você tem? Está esquisito pra caramba, hoje.

– Está se referindo às vodkas? – perguntou Aquiles, tentando disfarçar.

– Não. Você só resolveu, de uma hora para outra, fazer uma viagem para outro planeta e manteve-se completamente neutro durante todo o dia. Parecia em outra dimensão.

– Pode ser. Estou meio desligado, mesmo.

– Por quê?

– Adivinha.

– Veraline?

– Pois é.

– Mas que inferno, cara! O que foi dessa vez?

– Eu liguei para ela… Quer dizer, ela me ligou.

– Ela ligou ou você ligou?

– Ela me ligou e não conseguiu falar comigo. Aí eu retornei a ligação.

– Ela ligou? Aqui?

– Uhum. No estúdio.

– O que ela queria?

– Cara, você não faz ideia.

– Faria se me dissesse.

– Ela veio com uma história de que esteve pensando muito sobre as coisas que eu disse para ela. Que está cansada de se enganar, das burradas na vida dela. E que está disposta a reconsiderar tudo.

– What?

– Disse que quando eu voltar é para procurá-la, que nós temos muito pra conversar.

– Então aquela história de que ela estava usando drogas pesadas era verdade.

– Sei lá, ela me parecia bem.

– Então por que ela falou isso?

– É nisso que estive pensando o dia inteiro.

– Essa garota enlouqueceu de vez.

– Será que ela está…?

– Está o quê?

– Gostando…?

– Gostando de você?

– É.

– Cara, você que tem que saber isso.

– Saber como?

– Ela parecia sincera?

– Como vou saber?

– Eu sei lá, Aquiles. Essa mulher é meio maluca. Sei que você gosta dela, mas se eu fosse você, ficava esperto. Não acho que ela seja de confiança.

– Ela pode ter mudado.

– E mudou mesmo: virou uma drogada.

– Ela está perdida, cara. Só precisa de alguém que a ajude.

– Cuidado que ela pode te arrastar para dentro do poço. Se quiser ir adiante, a decisão é sua, meu velho. Eu não posso decidir isso por você. Mas tenha cuidado.

– Tenho medo de me ferir, novamente.

– É um risco. Está disposto a correr esse risco? Eu não estaria.

Aquiles tinha receio de que com essa confusão em sua cabeça não conseguiria desempenhar seu papel nas gravações. E parece que Andreas teve o mesmo tipo de preocupação.

– Mas tem uma coisinha: você sabe muito bem porque estamos aqui. Vê se amanhã acorda com a cabeça um pouco melhor, ok? Não quero ver você com esse olhar boçal perdido no meio do nada.

– Nem eu quero. Farei o meu melhor.

Andreas colocou a mão sobre o ombro de Aquiles.

– Talvez um dia a gente consiga encontrar nosso caminho. Ser feliz mesmo, de verdade. Fazendo o nosso som, ganhando a nossa grana, e com uma garota bacana do nosso lado.

Subitamente, Andreas ficou em silêncio. Naquele momento, parecia ser envolvido pela típica névoa depressiva. Seu olhar ficou assustadoramente carregado. E sombrio.

Aquiles comentou:

– É o que eu espero, cara. Nosso dia vai chegar.

Andreas, ainda sob um manto soturno, apenas sussurrou:

– Melhor irmos pro hotel. Amanhã temos que levantar cedo.

Sem dizer mais uma palavra, Andreas deu meia-volta e começou a ir em direção ao pequenino hotel onde estavam hospedados.

Se não estivesse acostumado com aquele olhar, Aquiles desconfiaria que este seria o último momento em que viria seu amigo Andreas com vida.

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1 Comment

  1. inacio alvaro Capena

    4 novembro, 2016 at 17:06

    Meu irmão, gostei do rumo da história. Você sabe organizar isso duma forma convincente. MOÇAMBIQUE

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